Mario Lopes Pereira
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Mario Lopes Pereira

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Já procuraste petróleo no teu quintal?

Numa era em que se discute o aquecimento global, a que tipo de pessoa lembraria querer furar o subsolo à procura de hidrocarbonetos, cuja receita para os cofres do Estado português ronda no máximo 7%, quando ultrapassar os dez milhões de barris?

Existem coisas que não lembram ao diabo, mas, tal como disse o outro senhor, podem fazer o diabo brotar das trevas e invadir a vida de todos os portugueses. Responsabilidade, uma vez mais, da gestão criativa que tem administrado este país de forma danosa e muitas vezes irresponsável, década atrás de década, independentemente de rostos e cores partidárias.

Numa era em que se discute e, acima de tudo, se começa a sentir na pele o aquecimento global, fruto da acção vampiresca dos homens sobre os recursos naturais e não renováveis do planeta, a que tipo de pessoa lembraria querer furar o subsolo à procura de hidrocarbonetos, cuja receita para os cofres do Estado português ronda no máximo 7%, quando ultrapassar os dez milhões de barris?

Feitas as contas, é claramente um negócio mau e catastrófico. Não admira que, por uma vez, ambientalistas e câmaras municipais das regiões envolvidas se tenham unido para defender o património imaterial do país e, acima de tudo, a preservação ambiental e das espécies que habitam esta região; já para não falar nas consequências nas vidas de milhares de pessoas que vivem do turismo, que anualmente aumenta na região, gerando receitas e novos negócios. Assim, o saldo para o Estado, somando as consequências ambientais à queda do turismo na região, ultrapassará seguramente aqueles 7% de receita referida, deixando mais um saldo negativo nas contas que seguramente é dispensável.

É importante salientar que existe um perigo real no que toca ao impacto ambiental da exploração do subsolo em busca do esgotável "ouro preto", o que aliás já foi demonstrado por diversos peritos. Perante este perigo parece-me inconcebível que os nossos governantes refiram que o país merece conhecer os recursos que dispõe. O país merece é ver melhorias na Educação e no Sistema Nacional de Saúde, merece garantir aos millennials e às gerações futuras como a do meu sobrinho o fundo de pensões, merece evoluir no século XXI, apostando na inovação tecnológica, na ciência e nas energias renováveis. Por fim, e não menos importante, o país merece investimento nas suas matas e na Protecção Civil, para que a cada Verão as perdas humanas e materiais não sejam como têm sido na última década.

Digo isto tudo em tom de desabafo, até porque gosto de acreditar que os dias que o país vive hoje, com a actual solução governativa, são melhores do que os que vivemos ontem. No entanto, parece-me totalmente contraditório termos um governo de cor socialista, a mesma cor que plantou, e bem, milhares de eólicas por este país fora no tempo de José Sócrates, dar o seu aval à exploração de petróleo no nosso território.

Peço imensa desculpa aos senhores do consórcio ENI-Galp. Entendo que este negócio poderia ser um negócio muito bom, se o "ouro negro" brotasse do subsolo e não desse muitos problemas; no entanto, apresento-vos um outro negócio de milhões, um verdadeiro negócio com e do futuro, sendo que até seriam pioneiros em Portugal: hidrogénio. A Alemanha já investiu milhões de euros em hidrogénio, para eliminar os carros a gasolina e a gasóleo até 2030. Outros países da Europa já começam a seguir este rumo e acredito que, um dia, será a vez de Portugal. Seguramente as grandes empresas do "ouro negro" vão ter que se adaptar a estas mudanças.

Parece-me uma excelente altura para o fazer. Geraria na mesma novos postos de trabalho, bem como excelentes receitas a médio e longo prazo, mas sem estes problemas do impacto ambiental e das consequências nas milhares de vidas que vivem do turismo, uma das áreas que alavanca este país. O impacto ambiental num dos maiores tesouros portugueses (é provavelmente uma das costas mais bonitas do planeta) não tem preço e, muito sinceramente, parece-me que os 11 milhões de portugueses que não lucram monetariamente com esta situação assinariam de bom agrado aquela petição que juntou 42 mil pessoas contra a exploração e extracção de petróleo em solo português. Um território que é de todos nós e, em último caso, pertence ao nosso planeta e a toda a humanidade.

Não esqueçamos que não existe um planeta B. O melhor mesmo é não furar o nosso quintal em busca de uma fortuna, não vá não existir planeta e vida humana que nos permita usufruir dos nossos milhões.