Crítica

Amor e ansiedade

Nada é linear no filme de Netzer, mas ansiedade é real.

Em Ana, Meu Amor, há muita câmara à mão e muito close-up para aproximar o realismo
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Em Ana, Meu Amor, há muita câmara à mão e muito close-up para aproximar o realismo
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Com aquele sentido do “trompe l’oeil” que é habitual no cinema romeno contemporâneo, Ana, Meu Amor começa com uma conversa sobre Nietzsche e os equívocos mais comuns na sua leitura. Os dois protagonistas (Ana, a rapariga, Toma, o rapaz) estão no princípio da sua relação, a seduzirem-se mutuamente com as suas observações sobre Nietzsche, como é apropriado a dois jovens com pinta de intelectuais universitários. A rapariga vai ficando inquieta, a câmara crescentemente nervosa na forma como passa dum a outro, e a inquietação descamba num ataque de ansiedade que faz Ana correr para os comprimidos que tem guardados na sua bolsa. E é isto: poderá não haver nada de especialmente nietzscheano no resto de Ana, Meu Amor, mas a ansiedade é real.

E é o centro do filme, a história de um casal marcado pela extrema perturbação psicológica dela, os ataques de pânico, os medicamentos, as consultas psiquiátricas, e a dedicação dele, mas também a exasperação dele e até, como uma zona de sombra, o eventual prazer dele na posição de poder em que a relação o coloca. Pensamos por vezes, a partir do realismo “intensificado” (quer dizer: muita câmara à mão, muito close-up aos rostos dos actores), num parentesco com a Mulher sob Influência de Cassavetes, também um retrato de um relacionamento construído a partir de um distúrbio psicológico. Mas nada é linear no filme de Netzer, que com outros colegas romenos da actualidade partilha ainda o gosto pelas estruturas narrativas vincadas e heterodoxas: Ana, Meu Amor faz-se de avanços e recuos no tempo, apanhando constantemente as personagens em momentos diferentes do arco da relação, entre episódios significativos (as crises, as cenas com a restante família) e outros de peso mais anódino. Um pouco como se fosse um melodrama “psicoterapêutico”, e as recordações fluíssem, cronologicamente desencontradas e, sobretudo, sem hierarquia de importância.

Mas este é um problema do filme: se a montagem de Dana Bunescu foi elogiada e premiada em Berlim 2017, esta estrutura acaba por ter o efeito, dificilmente pretendido, de nos estar sempre a “roubar” as personagens — a cada salto é como se fossem “outras” (o que não é forçosamente errado: as pessoas tendem a ir mudando), e o filme torna-se um puzzle em que o espectador tem que estar sempre a tentar adivinhar em que ponto se está, e se antes ou depois daquele outro, tarefa que acaba por ser mais distractiva do que realmente significativa, e no limite cansativa, impedimento a uma verdadeira ligação entre o espectador e o drama das personagens. Há outros problemas, nomeadamente o tratamento da intimidade física do casal (o sexo, a nudez), feito com uma crueza dramaticamente desnecessária que parece não ter outra razão que não seja chamar a atenção sobre si própria, sublinhando a coragem dos actores em prestarem-se a certas situações. Não é que Ana, meu Amor não tenha os seus méritos, até enquanto construção “estrutural” (por muito frustrante que sejam os seus resultados), mas, mantendo a conversa no contexto romeno actual, Netzer não faz sombra a Cristi Puiu ou Corneliu Porumboiu, muito mais distanciados e rigorosos no manejo do realismo (Netzer está “lá dentro”, quase como se não houvesse recuo), e sobretudo muito mais convincentes na exploração da ironia da metafísica, ou da metafísica da ironia.