Marcelo recandidata-se? Para já, é melhor deixar ficar o ponto de interrogação

Marcelo vai candidatar-se a um segundo mandato como Presidente da República? Mais “sim” do que “não”, mas para já o melhor é responder “talvez”. E a divina Providência até pode vir a ser dispensada de decidir.

Marcelo foi eleito Presidente em Janeiro de 2016
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Marcelo foi eleito Presidente em Janeiro de 2016 Nuno Ferreira Santos

Marcelo Rebelo de Sousa foi eleito Presidente da República a 24 de Janeiro de 2016. A nova votação para a chefia do Estado só terá lugar em 2021. Mas há mais de um ano que uma pergunta persegue Marcelo: “Vai recandidatar-se a um novo mandato?” O Presidente tem fugido a uma resposta directa e com isso já criou um tabu sobre o tema. Porém, mesmo metendo Deus ao barulho, o que tem dito aponta mais para um “sim” do que para um “não”.

Há cerca de um ano, durante uma visita à feira do livro do Porto, Marcelo, questionado por um cidadão, apontou uma data concreta para revelar se seria ou não novamente candidato à Presidência da República: início de Setembro de 2020.

Logo a seguir reflectiu em voz alta sobre os mandatos presidenciais, para, mais uma vez, deixar uma resposta branca sobre as suas intenções em matéria de nova candidatura: “Quando a nossa democracia nasceu e se previu a possibilidade da reeleição e, portanto, a existência de dois mandatos, que depois dependiam da vontade do povo português (…), naquela altura cinco anos representavam uma realidade e dez anos outra realidade. Mas, passados mais de quarenta anos, os cinco anos de hoje correspondem a dez ou quinze anos daquela altura.” O que quer isto dizer sobre a sua intenção? Nada.

No mesmo sentido vão as respostas que dá sempre que os populares o indagam sobre o tema, ou mesmo quando muitos quase lhe imploram que avance para mais cinco anos em Belém. “Ainda é cedo”; “logo se verá; “temos tempo” ou “isso não é conversa para agora”. Por vezes solta apenas como resposta um prolongado “ui!”, que é como quem diz “isso é o que todos querem saber, mas eu não quero ainda que se saiba”. Na verdade, nunca disse a ninguém que não se recandidataria, mas também não disse que “sim”. Se o antigo comentador Marcelo pudesse comentar esta forma de enfrentar a questão, por certo diria que "é Marcelo a ser Marcelo".

Num encontro com jornalistas em Belém, para assinalar os dois anos da eleição como Presidente, foi um bocadinho mais longe para o lado do “sim”, afirmando que não avançará para um segundo mandato se entender que há alguém mais bem colocado do que ele. Numa altura em que em que já era recordista de popularidade em Portugal, esta resposta era um tónico para os que defendem a sua recandidatura.

“Quando me candidatei, fi-lo por sentir um dever de consciência. Olhando para o que era o país, incluindo o país político, e o resultado que tinha saído das eleições [legislativas], achei que era o mais bem colocado. (…) A minha posição é a mesma. Se no Verão de 2020 entender que tenho o dever de consciência de continuar, eu continuo e recandidato-me”, afirmou então.

Já a 8 de Maio, numa entrevista ao PÚBLICO, Marcelo colocava uma nova condição para avançar com uma nova candidatura a Belém. Questionado sobre se uma nova tragédia em Portugal provocada pelos incêndios condicionaria a sua recandidatura, o Presidente disse mesmo que isso era “decisivo”. “Dito por outros termos: voltasse a correr mal o que correu mal no ano passado, nos anos que vão até ao fim do meu mandato, isso seria, só por si, no meu espírito, impeditivo de uma recandidatura.”

Pouco tempo depois, em Junho, voltaria tudo à primeira forma do "logo se vê". No 184.º aniversário da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa, Bruno Bobone fez-lhe um apelo que tinha por trás o peso de muitos milhões de euros: “Senhor Presidente, Portugal precisa de estabilidade e de afectos para conseguir trabalhar para o seu desenvolvimento. Deixo-lhe um pedido, em nome dos empresários portugueses: pela estabilidade e pelo progresso, recandidate-se a um novo mandato”.

O pedido em “nome dos empresários portugueses”, que arrancou um aplauso entusiasmado por parte da audiência, não fez Marcelo desviar-se do caminho do tabu: “Tudo tem o seu tempo e no seu tempo será decidido.”

No passado fim-de-semana, durante uma visita à região ardida de Monchique, Marcelo Rebelo de Sousa atirou a decisão para um patamar mais elevado que nunca, deixando a coisa para a única entidade que porventura é mais popular do que ele em Portugal: Deus.

O presidente começou por ter um desabafo público, no sábado, dizendo que não faria mais nenhuma campanha eleitoral, o que levou muitos a lerem uma possibilidade de não haver uma nova candidatura a Belém. Mais tarde diria que, afinal, estava tudo “nas mãos de Deus”. Depois, já domingo, novamente questionado pelos jornalistas, Marcelo explicaria: “Está na mão de Deus se realmente, na altura da decisão, me inspirar adequadamente. (...) É muito simples. Eu, como cristão, acho que em cada momento devo estar no sítio que corresponda à missão mais adequada para cumprir nesse momento. E mais, acho que devo estar aí, se não houver alguém em melhores condições. Essa é a ponderação. Deus logo dirá se é ou não. Não é um problema de vontade, é de ponderação, naquela altura.”

Chegados aqui, resta lembrar a célebre resposta que Marcelo deu, em 1996, quando questionado se algum dia seria candidato à presidência do PSD: “Nem que Cristo desça à terra”. Cristo não desceu, Marcelo concorreu à presidência do partido e ganhou. Talvez agora acabe por dispensar aquele que, para os católicos, é o ser divino que criou e governa o mundo e decida ele próprio se avança ou não para mais cinco anos como Presidente da República.