Corbyn na corda bamba, entre o apoio à Palestina e o anti-semitismo

O Partido Trabalhista enfrenta uma avalanche de críticas de declarações e comportamentos anti-semitas por parte dos seus militantes. Os críticos dizem que Corbyn criou um espaço favorável à divulgação destas mensagens.

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O líder trabalhista, Jeremy Corbyn, foi desde sempre um forte crítico das posições de Israel face à Palestina DARREN STAPLES/REUTERS

Cada vez mais acossados pelas acusações de anti-semitismo contra o partido, os trabalhistas britânicos tentam garantir que o apoio de longa data do seu líder, Jeremy Corbyn, à causa palestiniana não é sinónimo de discriminação. Porém, o próprio assumiu que o partido tem “um problema real" e que tudo fará para o resolver.

O mais recente episódio envolveu uma troca pública de acusações entre Corbyn e o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu. Mas a grande preocupação para o líder trabalhista é o efeito que a crise pode ter junto da sua própria base de apoio interna, que foi crucial para a sua ascensão meteórica de deputado de segunda linha até à chefia da oposição britânica.

Na sexta-feira, o tablóide Daily Mail publicou na primeira página uma fotografia de Corbyn com um arranjo de flores durante uma cerimónia de homenagem, num cemitério em Tunes, a membros da Organização de Libertação da Palestina (OLP) mortos na sequência de um bombardeamento israelita em 1985. Já se sabia que Corbyn tinha feito esta visita em 2014, antes de ser líder dos trabalhistas, mas o que o jornal revelou foi que o então deputado também participou numa homenagem a quatro elementos por trás do atentado de Munique, em 1972, que estão enterrados no mesmo cemitério.

A versão conhecida até agora realçava que Corbyn tinha viajado a Tunes para participar numa cerimónia de homenagem às vítimas do bombardeamento sobre os gabinetes da OLP em Tunes, em 1985, mas nada dizia sobre outros eventos.

"Não creio ter estado envolvido"

Após a publicação da fotografia de Corbyn próximo do local onde estão enterrados quatro operacionais palestinianos com ligações ao atentado contra a delegação israelita nos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972, em que morreram 11 pessoas, o próprio veio admitir que “foi de facto depositado um arranjo de flores” nesse sítio. “Estive presente na colocação das flores, mas não creio ter estado realmente envolvido”, acrescentou Corbyn.

A admissão parcial do líder trabalhista mereceu críticas imediatas de Netanyahu, que pediu uma “condenação inequívoca de todos: esquerda, direita e tudo o que estiver no meio”. Pouco depois, Corbyn respondia através do Twitter: “O que merece condenação inequívoca é a morte de mais de 160 manifestantes palestinianos em Gaza pelas forças israelitas desde Março, incluindo dezenas de crianças.”

Sucessão de polémicas

A controvérsia sobre a existência de um alegado anti-semitismo no seio do Partido Trabalhista tem animado o Verão político no Reino Unido – talvez apenas superada pela polémica comparação entre as mulheres que usam burqa e marcos do correio feita pelo ex-ministro Boris Johnson.

Quando Corbyn chegou à liderança dos trabalhistas eram conhecidas as suas posições em relação ao conflito israelo-palestiniano. Durante décadas, Corbyn foi um activista da causa palestiniana, assíduo participante em manifestações e acções de protesto, e um acérrimo crítico da ocupação israelita da Cisjordânia e do bloqueio à Faixa de Gaza.

Essa posição, da qual Corbyn não se afasta nem um milímetro, tem criado a impressão de que a tolerância ao discurso anti-semita por dirigentes do Labour está a aumentar sem que a direcção dê muitos passos para o impedir. Um dos episódios mais marcantes envolveu as declarações do ex-presidente da câmara de Londres, Ken Livingstone – próximo de Corbyn –, em 2016, que disse que Adolf Hitler era um apoiante do sionismo “antes de enlouquecer e matar seis milhões de judeus”.

Livingstone estava a defender a deputada Naz Shah, que tinha sido recentemente suspensa do partido por publicações no Twitter de teor anti-semita. O ex-autarca acabou por ser suspenso por Corbyn, acabando por se demitir em Maio.

No Verão de 2016, a direcção do partido lançou uma investigação interna que concluiu que não existe um problema sistémico de anti-semitismo no partido, não passando tudo isto de “episódios infelizes”. O relatório foi amplamente criticado por uma comissão parlamentar interpartidária, que o considerou pouco independente, e avisou que o Partido Trabalhista estava a criar um ambiente propício a que fossem propagadas “atitudes vis em relação aos judeus”.

Entretanto, os episódios foram-se acumulando. Um candidato a um conselho municipal foi suspenso depois de ser divulgada uma publicação no Facebook de um artigo que defendia uma tese negacionista do Holocausto. Christine Shawcroft, uma das dirigentes do Comité Executivo Nacional do Labour, apresentou a demissão em seguida, depois de o Daily Mail ter revelado emails em que ela tentava convencer responsáveis locais a manterem o mesmo candidato.

O próprio Corbyn viu-se confrontado com a publicação, em 2012, de mensagens de apoio a um graffiter conhecido por desenhos de teor anti-semita, pelas quais pediu desculpas publicamente. Também se descobriu que o seu perfil de Facebook estava associado a vários grupos que partilham conteúdos anti-semitas – e Corbyn decidiu encerrar a sua conta na rede social.

Anti-semitismo o que é?

Uma das batalhas que mais tem desgastado o líder trabalhista joga-se no próprio partido. Em causa está a adopção da definição oficial de anti-semitismo fixada pela Aliança Internacional de Memória do Holocausto e a sua integração no código de conduta do partido. A falta de acordo pode levar a uma ruptura profunda entre os que apoiam internamente a liderança. Segundo o Politico, tanto o grupo Momentum – a rede de militantes de base que ajudou a eleger Corbyn – como os principais sindicatos ameaçam retirar o apoio ao líder caso a definição não seja adoptada na próxima reunião do comité executivo nacional, marcada para 5 de Setembro.

Corbyn garante que pretende fazer aprovar a definição, mas não na sua totalidade. A AIMH fixou um conceito teórico daquilo que deve ser entendido como anti-semitismo e, consequentemente, alvo de sanções: “Anti-semitismo é uma certa percepção dos judeus, que pode ser expressa como ódio em relação aos judeus. Manifestações retóricas e físicas de anti-semitismo são dirigidas a indivíduos judeus e não-judeus e/ou à sua propriedade, e às instituições das comunidades judaicas e às instalações religiosas.”

Para além da definição abstracta, a Aliança também determina um conjunto de exemplos daquilo que são acções que configuram anti-semitismo, abarcando a negação do Holocausto ou o apelo ao extermínio de judeus por razões ideológicas. O obstáculo que subsiste, na óptica da direcção do Labour, prende-se com um dos exemplos que determina que um acto anti-semita é “sugerir que a existência do Estado de Israel é um projecto racista”. Corbyn acredita que subscrever este exemplo como anti-semitismo poderá criar dificuldades adicionais aos dirigentes que apontem críticas às políticas governamentais israelitas.

Numa prova da sensibilidade do assunto, a deputada trabalhista Margaret Hodge foi protagonista do confronto mais explícito, quando acusou directamente Corbyn de ser um “racista anti-semita”, durante uma discussão em plena Câmara dos Comuns.

É neste contexto que três dos jornais mais populares entre a comunidade judaica no Reino Unido se decidiram juntar, no final do mês passado, na publicação de um editorial conjunto em que declaravam que um Governo liderado por Corbyn seria “uma ameaça existencial” aos judeus no país.

No início de Agosto, numa carta publicada no Guardian, Corbyn acabou por admitir que existe “um problema real” de anti-semitismo no Labour. “Fomos demasiado lentos a decidir casos disciplinares de abuso anti-semita, especialmente online, de membros do partido. E não fizemos o suficiente para promover uma compreensão mais profunda acerca do anti-semitismo entre os membros”, admitiu o líder trabalhista.