Ambiente

Há uma “chuva pastosa” que cai há três anos em Leça do Balio

Os moradores dizem que o fenómeno que deixa marcas nas casas e nas viaturas do Lugar da Agra tem origem na incineradora da Lipor que fica a cerca de 500 metros. A empresa de recolha de resíduos sólidos urbanos diz que o resultado de análises feitas no local não é conclusivo. Habitantes temem que possa ser um problema que ponha em risco a saúde pública e prometem levar caso até às últimas consequências.
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Maria do Céu, residente no Lugar da Agra, em Leça do Balio, Matosinhos, pintou recentemente a casa onde mora há 40 anos. Não o terá feito mais de quinze dias antes do dia em que por lá passámos. Foi trabalho em vão porque a casa já precisava de outra pintura. As paredes da fachada estão marcadas com umas pintas de tom acastanhado que são resultado de umas gotas que há três anos caem “quase diariamente” no quarteirão daquele lugar delimitado pela Rua D. Frei Lourenço Nunes.  

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As mesmas pintas de tom acastanhado estão espalhadas um pouco por toda a área, num raio de aproximadamente 700 metros. Não há fachada de qualquer uma das casas nas imediações que, umas mais outras menos, não tenha sido afectada. As mesmas manchas estão também nalguns dos carros ali estacionados.

Que fenómeno é este que de há três anos para cá tem sido motivo de preocupação constante para os moradores daquela zona interior de Matosinhos?

Quem lá vive diz que as pintas são resultado de umas “gotículas pastosas”, que ali caem desde essa altura numa base regular. Desconhecem a sua origem, mas dizem desconfiar qual é.

“Estão a ver aquele fumo a sair daquela chaminé?”, pergunta-nos outro morador. “É dali que vem”, responde.

A chaminé pertence à Central de Valorização Energética – LIPOR II, onde funciona desde 2000 a incineradora de resíduos sólidos urbanos. As casas estão a cerca de 550 metros a este-sudeste do perímetro das instalações. Até ao momento não há “provas conclusivas” de que seja dali que saem as gotas.

Não há provas conclusivas mas, diz Joaquim Santos, que ali mora há cinco anos, “dificilmente” haverá outra fonte que seja responsável pela “chuva” de gotas que tornaram a pintura da casa onde vive num mural sarapintado. “Aqui perto não há fábricas”, sustenta.

Como a casa da vizinha, a dele também tem pintura recente. Não se nota. A porta da entrada também precisava de ser trocada.

“Não posso deixar nada cá fora. A roupa ou a seco debaixo de um guarda-sol ou tenho que a secar na máquina”, conta. O mesmo acontece com a viatura. “No outro dia acabei de lavar o carro e poucos minutos depois já estava marcado”, diz. “Quando as gotas caem ainda estão pastosas. Assim ainda consigo tirar. Depois de secarem é mais difícil”, frisa.

Diz que quando o vento é mais forte acontece com mais regularidade. Depende também da direcção do mesmo. Além do transtorno que lhe causa tem outra preocupação: “Quem nos garante que isto não faz mal à saúde?”.

A mesma questão e o mesmo transtorno têm os vizinhos. Quando lá fomos, esperavam-nos cerca de 3 dezenas, naquele aglomerado com cerca de 130 habitações.

Entre eles estava Ernesto Magalhães, que em Maio de 2016, um ano depois do início da queda das gotas, recolheu 134 assinaturas de moradores e utilizadores destas quatro ruas no extremo norte de Leça do Balio e hoje nos ajuda a traçar a cronologia de todo este processo.

O abaixo assinado seguiu com uma reclamação para a Lipor e para a autarquia local em Junho do mesmo ano. No mesmo mês foi feita uma visita ao local por parte de responsáveis do Centro de Valorização Energética, entidade que, via Universidade de Aveiro, recolheu amostras para análise do material pastoso. “Instalaram uns aparelhos em minha casa para o efeito”, conta-nos o morador.

“Isto é lixo queimado”

Por carta, a que tivemos acesso, com data de 29 de Julho de 2016, foi-lhe enviado o resultado das análises. Diz a mesma que trata-se de um “material orgânico com grandes teores de carbono” que “apresenta uma textura pastosa” de “composição química muito variada”. Diz ainda que a sua composição “tem componentes alifáticas e aromáticas significativas” e sugere estar-se na presença de um “material de origem não natural”. 

Ernesto Magalhães, que é também engenheiro químico, diz-nos que face aos resultados só há uma resposta para entender qual é o material com o qual estão a lidar: “Isto é lixo queimado”.

Porém, diz também a mesma carta que “os dados obtidos não permitiram estabelecer qualquer relação causal com potenciais fontes emissoras”. Traduzindo por miúdos, não atribuiu a responsabilidade do fenómeno a qualquer entidade.

A “chuva de gotículas” não parou e continuou também a luta daqueles moradores, encabeçada por Ernesto Magalhães, que desde Outubro deste ano, quase dois anos depois da primeira queixa, é deputado pelo Bloco de Esquerda da Assembleia Municipal, onde já levou o assunto a discussão.    

Entretanto, já levou o caso à CCDR-N, que o encaminhou para a GNR, que através do SEPNA - Serviço de Proteção da Natureza e do Ambiente terá recolhido amostras no local para uma segunda análise e inquirido alguns moradores, em Maio de 2017.

No anexo da casa de Ernesto Magalhães foram instaladas pelo Instituto do Ambiente e de Desenvolvimento da Universidade de Aveiro duas máquinas de monitorização para recolha de gases e emulsões. O resultado da análise ainda não o conhece. Após novas queixas junto da Lipor e de um segundo abaixo-assinado, o processo está agora no Ministério Público.

A 15 de Junho deste ano, Ernesto Magalhães teve uma audiência com o vereador do Ambiente da câmara de Matosinhos, Correia Pinto, que é também administrador do conselho de administração da Lipor, que lhe terá dito que estavam a averiguar o caso.

“São três anos e não sabemos quando é que isto vai parar. Há quem esteja preocupado com os problemas que podem trazer para a saúde”, desabafa o morador.

Lipor avança com nova análise

Contactado pelo PÚBLICO, Correia Pinto, diz que por agora “não há nada que indique que o problema tem origem na Lipor”. Afirma que as análises que foram feitas “não são conclusivas” e que não há nada que indique que haja motivo para alarme no que toca a potenciais malefícios para a saúde pública: “Com base na persistência do fenómeno e nas queixas será feita nova análise. Por agora, não há nada que indique seja dali. A ideia é também descobrir qual é a fonte”.

Os moradores garantem que não vão parar até a situação estar resolvida. O próximo passo será formalizarem uma associação de moradores para levarem “o caso até às últimas consequências”, afirma Ernesto Magalhães.