Itália

Dezenas de mortos em Génova e uma pergunta terrível: podia ter-se evitado?

Derrocada de uma parte da ponte Morandi, em Génova, lançou o país numa discussão sobre incompetência, laxismo e as consequências dos limites orçamentais europeus.
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A imagem de um camião parado a poucos metros de um abismo, em cima do que até há poucos minutos tinha sido uma ponte, resumia o espanto e a impotência dos habitantes de Génova perante “o inferno” em que se transformou a cidade ao fim da manhã desta terça-feira.

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Pouco antes das 12h, no meio de uma chuva torrencial e de muito nevoeiro, uma parte do tabuleiro da ponte Morandi ruiu e os destroços arrastaram dezenas de pessoas para uma queda de quase 50 metros — pelo menos 35 morreram, incluindo uma criança de nove anos, segundo a Protecção Civil.

O balanço final continua em aberto, não só por causa dos dez feridos que ficaram em estado grave, mas também porque as equipas de socorro ainda não removeram a totalidade das toneladas de betão na busca de mais vítimas.

Ao longo do dia, quatro pessoas foram resgatadas com vida, mas os elementos da Protecção Civil italiana e o ministro do Interior, Matteo Salvini, foram preparando o país para um balanço final mais grave.

Ainda há carros debaixo dos escombros — “estavam no tabuleiro entre 30 e 35 automóveis e três pesados”, disse o chefe da Protecção Civil, Angelo Borrelli — e a secção de cerca de 80 metros da ponte que se desmoronou caiu em cima de uma zona habitada, com algumas casas e uma fábrica.

“Apocalíptico”

“De repente, a ponte caiu com tudo o que estava lá em cima. Não queria acreditar nos meus olhos, foi uma cena apocalíptica”, disse à rádio RAI Alessandro Megna, um automobilista que estava parado numa fila debaixo da ponte.

Matteo Pucciarelli, um jornalista do La Repubblica que estava em Génova no momento em que a ponte ruiu, também falou numa “imagem apocalíptica” — “Foi como se uma bomba tivesse caído na cidade”, disse Pucciarelli num relato feito para o La Repubblica. Perto da montanha de betão e aço, debaixo da ponte, o jornalista fez a descrição possível do cenário: “Há muitos lençóis brancos, mas é impossível fazer uma estimativa sobre o número de vítimas.”

Ao fim da tarde, cerca de mil pessoas trabalhavam nas operações de socorro — polícia, carabinieri, bombeiros e outros serviços de emergência. Entre eles, especialmente entre os primeiros a chegar ao local, a palavra mais vezes repetida era “inferno”, contou o Corriere della Sera.

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Mas os relatos de espanto e de dor pelo colapso da ponte e pela morte de dezenas de pessoas não são os únicos no topo da informação.

Quase tão depressa como as notícias e as imagens da tragédia, o debate e as trocas de acusações sobre causas e responsabilidades inundaram as redes sociais e os sites de informação italianos.

Matteo Salvini, o ministro do Interior do Governo de coligação entre a direita anti-imigração e eurocéptica da Liga e os populistas do Movimento 5 Estrelas, prometeu encontrar os culpados pela queda do viaduto e apontou o dedo à União Europeia, à qual atribuiu uma espécie de responsabilidade moral: “Devemos questionar-nos se o respeito pelos limites [orçamentais] é mais importante do que a segurança dos cidadãos italianos. Para mim, é óbvio que não.”

“Passei naquela ponte centenas de vezes”, disse ainda Salvini. “Agora, como cidadão italiano, farei tudo para descobrir os nomes e apelidos dos responsáveis, no passado e no presente, porque é inaceitável que em Itália se morra assim.”

Investigar os motivos

O tema da deterioração das estradas e pontes italianas também teve lugar de destaque no comunicado do Presidente italiano, Sergio Mattarella, ao dizer que os italianos têm direito “a infra-estruturas modernas e eficazes”. Mas o Presidente adoptou um tom mais moderado quando falou sobre as possíveis causas da queda: “O tempo agora é de compromisso para lidarmos com a emergência, auxiliar os feridos e apoiar quem foi atingido pela dor. Depois disso, deve seguir-se uma investigação séria sobre o que aconteceu.”

O colapso aconteceu numa altura do dia em que a cidade estava a ser fustigada por chuva intensa e trovoada — várias testemunhas disseram que viram um raio atingir a ponte. Mas não foi preciso muito tempo para que todos constatassem o óbvio, sintetizado pelo secretário de Estado dos Transportes e Infra-estruturas, Edoardo Rix: “Uma ponte destas não se desmorona por causa de um raio, nem por causa de uma tempestade.”

À medida que o dia foi avançando, foi também sendo conhecida a história da ponte Morandi, construída entre 1963 e 1967 e projectada pelo engenheiro civil Ricardo Morandi — foi pelo nome do engenheiro que ficou conhecida, mas quando foi inaugurada chamaram-lhe Ponte delle Condotte, em honra à empresa que a construiu.

A sua localização e importância nos quase 160km de auto-estrada que ligam Génova a Ventimiglia, perto da fronteira com França, atiraram-na há muito para o centro da discussão sobre a qualidade das infra-estruturas italianas. E os problemas provocados pelas técnicas usadas na sua construção fizeram com que tenha sido alvo de constantes obras de reforço — a responsável actual, a Autostrade per L'Italia, disse que estavam em curso “obras de consolidação da laje do viaduto”.

Mas há dois anos, no site Ingegneri.info, o engenheiro Antonio Brenchic, professor associado de Construção em Cimento Armado na Universidade de Génova, fez soar o alarme. “Apesar de a vida útil de uma estrutura deste tipo ser de pelo menos 100 anos, esta ponte foi objecto de obras de manutenção profundas desde as primeiras décadas. Prevê-se que os custos com essas obras venham a exceder os custos da reconstrução da ponte: nessa altura, a ponte deverá ser demolida”, disse Brenchic em de 2016.

As declarações do engenheiro foram recuperadas esta terça-feira pelo mesmo site, que as publicou num artigo com o título “Ponte Morandi em Génova, uma tragédia anunciada?”

Esta terça-feira, ao final da tarde, a empresa Autostrade per L'Italia fez saber que está “a avaliar a melhor solução para reconstruir o viaduto o mais rapidamente possível e de forma eficiente e segura”.

Quase ao mesmo tempo, o secretário de Estado dos Transportes e Infra-estruturas, Edoardo Rixi, decretava a sentença: “Não é aceitável que uma ponte tão importante (...) não tenha sido construída [de forma] a evitar este tipo de colapso. A ponte terá de ser toda demolida, apesar das sérias repercussões no trânsito e problemas causados a cidadãos e empresas.”