As novas “estrelas” do atletismo que saíram de Berlim

Dina Asher-Smith, Jakob Ingebrigtsen e Armand Duplantis dominaram os Europeus de atletismo e prometem muito para o futuro imediato.

Fotogaleria
Lavillenie e Duplantis em Berlim: o recordista mundial da vara e o seu provável sucessor LUSA/FELIPE TRUEBA
Fotogaleria
Dina Asher-Smith, uma potencial futura rainha da velocidade Reuters/KAI PFAFFENBACH
Fotogaleria
Jakob Ingebrigtsen, aos 17 anos, o melhor europeu dos 1500m e dos 5000m LUSA/FELIPE TRUEBA
Fotogaleria
Inês Henriques continua a ser uma pioneira com medalhas de ouro LUSA/HAYOUNG JEON
Fotogaleria
Nelson Évora continua a provar que é um atleta dos grandes momentos Reuters/KAI PFAFFENBACH

Já não há um recorde do mundo em Europeus de atletismo há 16 anos – aconteceu em Munique 2002, nos 50km marcha, pelo polaco Robert Korzeniowski, que dominou a disciplina durante uma década – e, antes disso, é preciso recuar mais 12 anos para encontrar outro (os franceses nos 4x100m masculinos em 1990). São uma raridade no principal palco do atletismo europeu, sobretudo depois do desaparecimento da União Soviética, RDA e Checoslováquia, e, no entanto, o último dia dos Europeus de Berlim, que terminaram no domingo, deixou a sensação de que se podia ter visto num estádio com tanta história um novo recorde mundial masculino do salto com vara.

Talvez seja um exagero ver naqueles 6,05m que Armand “Mondo” Duplantis ultrapassou uma margem suficiente para chegar aos 6,16m, o recorde que ainda é de Renaud Lavillenie, mas não há dúvidas de que aquele adolescente norte-americano que compete pela Suécia tem tudo para chegar lá. E, como Duplantis, também brilharam jovens talentos como o prodígio norueguês do meio-fundo Jakob Ingebrigtsen, duplo campeão nos 1500m e 5000m, ou a velocista britânica Dina Asher-Smith, triplo ouro nos 100m, 200m e 4x100m. Mas a grande questão será: estarão os três em condições de reproduzir estes títulos europeus num palco mais alargado?

Dos três, talvez Duplantis seja aquele que está mais perto do topo e aquele que terá mais condições de reproduzir nos Mundiais de Doha, no próximo ano, aquilo que fez em Berlim, num dos melhores concursos de sempre de salto com vara. O rapaz de 18 anos, filho de um antigo varista norte-americano e de uma ex-atleta sueca do heptatlo, bateu o seu recorde pessoal em Berlim e, de caminho, tornou-se um dos melhores de sempre – só há três que saltaram mais alto, o francês Lavillenie, recordista do mundo (6,16m, marca feita em pista coberta) que ficou com o bronze em Berlim, o mítico Sergei Bubka (6,15m) e o australiano Steven Hooker (6,06m).

Ou seja, o concurso da vara em Berlim foi uma espécie de passagem de testemunho e Lavillenie teve uma grande demonstração de desportivismo quando foi abraçar efusivamente o jovem vencedor, como que a reconhecer nele o seu sucessor. Duplantis já chegou mais alto que Bubka nesta idade e tem tido um crescimento exponencial. Basta referir que, no ano passado por altura dos Mundiais de Londres, o seu recorde pessoal já era incrível (5,90m). E só tinha 17 anos. E nessa altura, o pai Greg já dizia ao PÚBLICO que o objectivo do filho era estar acima dos seis metros no ano seguinte.

A outra grande notícia do atletismo europeu em Berlim foi a explosão de Dina Asher-Smith, com uma tripla conquista na velocidade (repetiu o título europeu nos 200m) que lhe permite pensar em bater-se de igual para igual com as melhores americanas e jamaicanas. Fez a melhor marca de 2018 tanto em 100m (10,85s) como em 200m (21,89s), registos que são novos recordes britânicos e que também lhe dariam a medalha de ouro em ambas as provas nos Mundiais do ano passado.

Igualmente notável foi a proeza de Jakob Ingebrigtsen, ouro nos 1500m e 5000m com apenas 17 anos, arrasando toda a concorrência que incluía os seus dois irmãos mais velhos, Henrik e Filip, ambos antigos campeões da milha métrica em anteriores Europeus. É indiscutível que o jovem norueguês é um talento em ascensão, mas é bem mais difícil de projectar a sua carreira num palco mundial, onde os atletas africanos dominam quase na totalidade as provas de meio-fundo e fundo, com a notável excepção do britânico Mo Farah, que se retirou o ano passado das provas de pista para se concentrar em exclusivo na maratona. Mas é preciso não esquecer que Jakob é ainda um júnior que corre tanto como os mais velhos e por certo que o seu pai-treinador Gjert já tem um plano para o fazer crescer ainda mais.

Os veteranos portugueses

Em Berlim, houve dez campeões que repetiram no palco europeu as proezas dos Mundiais de 2017. O turco nascido no Azerbaijão Ramil Guliyev nos 200m ou a croata Sandra Perkovic no lançamento do disco foram dois desses exemplos. Outro deles foi a portuguesa Inês Henriques, que repetiu a exibição nos 50km marcha, juntando o título europeu de Berlim ao título mundial que conquistara em Londres.

Tal como aconteceu no ano passado, a atleta do CN Rio Maior dominou na primeira vez que as mulheres marcharam a distância mais longa em Europeus e também terá na mira renovar o título mundial em 2019 e tentar o título olímpico em 2020 se a prova for introduzida no programa, algo que ainda não é certo. Certo é que Inês Henriques irá ter uma concorrência cada vez mais apertada à medida que esta prova for sendo disputada por mais atletas. Já perdeu o recorde do mundo, mas mais uma vez ficou provado que a mudança para os 50km deu-lhe um novo fôlego competitivo para este ciclo olímpico que irá terminar em Tóquio.

Tal como Inês Henriques, Nelson Évora sagrou-se campeão europeu depois de um título mundial, mas, no caso do triplista, com 11 anos de diferença. Já passaram 11 anos desde Osaca 2007 e uma década desde os Jogos de Pequim em 2008, e Évora, aos 34 anos, continua a mostrar que é um atleta dos grandes momentos, mesmo não sendo preciso arrancar grandes saltos.

Os seus 17,10m que lhe valeram o ouro em Berlim estão longe do melhor que já saltou, e agora tem a concorrência interna de Pedro Pablo Pichardo, um cubano naturalizado português que é um potencial recordista do mundo, mas o atleta do Sporting continua, ano após ano (e em 2017 foi bronze nos Mundiais), a cumprir as promessas de conquistas, depois de ter sido dado como competitivamente “morto”. Falta-lhe apenas o "grande salto para o infinito", que é o mesmo que dizer, aterrar para lá dos 18 metros.