Miguel Angelo evoca em canções uma guerra fria que pode regressar

Lisboa transformada na Berlim da guerra fria? É Grotesco, o terceiro trabalho a solo de Miguel Angelo depois dos Delfins, lançado nas plataformas digitais e depois em vinil, a antecipar um novo álbum a solo já em pré-produção e previsto para inícios de 2019. Esta terça-feira, em vésperas de feriado, actua a solo em Torres Vedras.

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Miguel Angelo fotografado para o disco Grotesco+A Canção EDGAR KEATS
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A capa do EP em vinil... DR
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... e do EP digital DR

A imagem é a preto e branco. E no vídeo Miguel Angelo surge de gabardina de cabedal, chapéu e luvas escuras a atravessar uma Lisboa deserta e soturna, como se caminhasse num cenário saído da guerra fria dos anos 1970. Canta em português, a voz envolta em sons electrónicos, mas o vídeo tem legendas em alemão. O título é Grotesco e cita A Divina Comédia de Dante: “A velha História regressa/ Com quem a esconder/ Num pesadelo recente/ Tão familiar/ Bem-vindo ao Inferno de Dante/ Não vai melhorar.”

Depois de lançar a solo, pós-Delfins, os discos Primeiro (2012) e Segundo (2015), o cantor segue agora as passadas deste último, lançando primeiro canções em formato digital e depois exclusivamente em vinil. Em 2017 lançou nas redes A Canção e em 2018 Grotesco, juntando ambas num EP que conta ainda com duas remisturas, no lado B, de A Canção por Rui Maia (X-Wife, Mirror People), com a colaboração de SaiR.

Trump, como na Marvel

“Hoje trabalho mais em casa, onde a panóplia digital de instrumentos virtuais nos faz ser mais explorativos em termos de arranjos”, diz Miguel Angelo ao PÚBLICO. “Uma coisa é aquela ideia clássica da sala de ensaios, com o baterista, o técnico de música, outra coisa é termos tantas ferramentas ao nosso dispor que quase podemos fazer logo uma direcção de arranjos. E se calhar até ousar mais, com menos obstáculos.” Do ponto de vista musical, há aqui várias pistas pouco usuais no seu percurso. Ele concorda e diz: “Talvez fuja um pouco àquilo que eu tenho feito, mas foge sobretudo em relação à pop mainstream que se faz hoje e que se ouve na rádio, que é toda muito luminosa mas de luz artificial. Esta história dos plágios tem muito a ver com o facto de toda a gente estar a usar as mesmas harmonias, simples, comerciais. E eu quis fugir desse facilitismo.” Mais: “Isto tem a ver com a idade. Um tipo chega a um dado momento da carreira que já só quer é experimentar coisas, sem muita preocupação comercial com a ‘marca’.”

O tema Grotesco, o mais recente, tem um fantasma por detrás. “Apela para muitos imaginários musicais ligados a Berlim, nos anos 70, naquele ambiente de guerra fria que eu temo que seja o que nos espera amanhã.” E este temor alicerça-se na actualidade: “A minha geração julgou que isto não era possível. Vivemos a queda do muro, os anos 90, a abertura das fronteiras, comerciais e depois das pessoas, com liberdade para circular, trabalhar e viver onde quiser. E agora temos o Brexit e parece que está tudo a voltar atrás. O próprio Trump parece uma personagem saída da BD da Marvel.”

Literatura e música soul

A Canção tem outro mote, embora também inclua referências literárias: Rimbaud, Oscar Wilde, Herman Hesse, Cervantes. “Nos últimos tempos tem sido a literatura que me tem influenciado a fazer canções. Se calhar é uma altura em que eu preciso de sair do meu mundo, das minhas referências normais e procurar coisas mais inusitadas. Muitas das canções que estou a fazer inspiram-se em romances que li, e vou reler, ou em imagens.” Faz o mesmo, na escola onde ensina: “Estou desde há uns anos ligado à ETIC, na parte do ensino de criação e produção musical, e faço lá um exercício com os alunos que é fornecer uma imagem forte, que pode ser o prémio desse ano da fotografia, e a partir dali peço-lhes para fazerem uma composição, uma letra, uma melodia.”

Musicalmente, a referência aqui é a soul norte-americana: “Nos anos 80 isto tinha um nome: ‘blue eyed soul’, que é basicamente a tentativa de um branco fazer música soul, nem sempre com os melhores resultados.” O remix nasceu intuitivamente daqui: “Achei que merecia uma remistura. E pensei no Rui [Maia], porque gosto muito do trabalho dele, conheço-o há muitos anos, dos X-Wife, dos Mirror People, e partilhamos um gosto pela história da música popular sem olhar a géneros. Por isso, achei que era a pessoa ideal para lhe dar uma nova vida. Com uma condição: eu não ter voto na matéria. Dei-lhe as pistas separadas e ele usou o que quis. E gosto muito do resultado final.”

Miguel Angelo esteve em Abril em Boston, com os Xutos e Pontapés e Carlão, na gala dos International Portuguese Music Awards, esteve dia 17 de Maio no Estoril, com vários outros músicos, no Concerto Solidário pelas Gerações Autónomas, e continua a apresentar este seu novo disco. Esta terça-feira estará em Torres Vedras (Maceira), a solo; e com os Resistência toca no Faial (dia 9 Agosto), Esposende (19), Albufeira (20) Caldas da Rainha (29) Corroios (2 Setembro), Montemor-o-Novo (3) e, por fim, em Lisboa, no Coliseu dos Recreios, na noite de 26 de Outubro. O próximo álbum a solo de Miguel Angelo já está em pré-produção e deve sair no início de 2019.

Até lá, este trabalho pode ser ouvido em streaming, no Youtube e em vinil: “Escolhi o EP porque, mais do que lançar um álbum com 10 ou 12 faixas que as pessoas não vão ouvir, prefiro o regresso a um formato que existia antes dos álbuns e assentava nas canções. E escolhi o vinil, porque traz alguma nobreza ao acto de ouvir música.”