“Foi um acontecimento na família, pontuado com um bónus inesquecível”

Na hora de apontar um álbum marcante na sua vida, Miguel Araújo escolhe um disco do seu conterrâneo Rui Veloso, Mingos & Os Samurais. Estava lá tudo: o lado eléctrico e as letras em português.

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Miguel Araújo ADRIANO MIRANDA

Quando Mingos & Os Samurais foi editado, Miguel Araújo tinha apenas 12 anos. E para ele a música portuguesa era ainda algo extraterrestre. “Quando eu comecei a tocar, por influência dos meus tios, a música que eu ouvia era a que eles me diziam para ouvir: Eric Clapton, Rolling Stones e tal. Não ligavam absolutamente nada à música portuguesa, com uma excepção: um tal de Rui Veloso. Eles diziam-me ‘há um tipo aqui no Porto que toca e canta que é uma coisa maluca.’ E eu fui ouvir.” O álbum que lhe mostraram, na altura, era o quarto lançado por ele, titulado apenas Rui Veloso e editado em 1986, com ele na capa encostado a uma parede a fumar um cigarro (tinha, como referência, os temas Porto Côvo e Porto sentido). “Uns meses depois disso saiu o Mingos & Os Samurais, estava eu de férias com a minha família toda (os meus tios, os meus pais) na barragem da Caniçada, que era onde eu passava sempre as férias. E foi um acontecimento na família, pontuado com um bónus inesquecível: um desses meus tios, Luís Megre Bessa, que toca percussões com Os Azeitonas [grupo a que Miguel Araújo também pertence], por coincidências da vida é amigo do Rui Veloso; que estava a tocar em Amares, lá ao lado. Então o meu tio convidou-o para ir ao piquenique que nós fazíamos.” Rui Veloso aceitou o convite e foi. “Com um boné da Gibson”, recorda Miguel. “Depois houve jantarada e ele tocou várias músicas do Mingos e outras. Foi uma noite absolutamente inesquecível, que eu tenho gravada em vídeo.” Miguel estava na altura a aprender a tocar guitarra e a experiência foi fulcral: “Todos estes acontecimentos fizeram fervilhar em mim uma paixão pela música.”

O disco entrou lá em casa, sim, mas em cassete dupla. “Andava pelos carros, ouvia-se dias a fio. E, para além de a música me cativar muito, porque era assim uma espécie de música anglo-saxónica ao jeito daquela que eu gostava (solos de guitarra e tal), só que cantada em português e com referência geográficas que eu conhecia, como a Areosa, que era ao pé da minha casa, ou de Matosinhos, coisas que me diziam respeito. Era como se de repente fosse possível que a música de que eu gostava fosse mais próxima ainda e não uma coisa distante, a falar dos Estados Unidos ou de Inglaterra, de Liverpool. Tudo isso teve em mim um efeito bombástico.” E parte considerável desse efeito foi a composição de canções em português: “A língua portuguesa empregue nas letras das minhas canções era, e é, a do Carlos Tê [letrista e parceiro de Rui Veloso], mas também do João Monge e de outros assim. Através do Rui Veloso fui conhecendo outros portugueses, de que também gostava e adoro, como o Jorge Palma, o João Gil, o Sérgio Godinho. Mas a voz primordial, os meus orixás na música, foram o Carlos Tê e o Rui Veloso, essa dupla.”

Ao Sol, com convidados

Com três discos a solo (Cinco Dias e Meio, 2012; Crónicas da Cidade Grande, 2014; e Giesta, 2017), além de várias colaborações e parcerias, Miguel Araújo está a percorrer vários palcos, de Janeiro a Dezembro. Esta sexta-feira, dia 17, estará no Sol da Caparica, no segundo dia do festival, com um espectáculo para o qual foi desafiado. “Propuseram-me fazer um concerto com convidados. E eu vou convidar o Tiago Nacarato, que está agora a dar os primeiros passos (o primeiro single dele foi gravado no meu estúdio); o João Só, que também é meu amigo de longa data nestas andanças; e Os Azeitonas.”

Esta digressão coincide com o lançamento, em CD+DVD, da gravação do espectáculo com que Miguel Araújo e António Zambujo encheram 28 coliseus, em Lisboa e Porto. “Foi uma coisa avassaladora, única e inesquecível, até na convivência das equipas, minha e dele. Musicalmente, foi melhorando de noite para noite. Ao ouvir o CD fartei-me de rir, com saudades. O álbum reflecte na íntegra aquilo que a gente fez naquelas noites.”