São Tomé e Príncipe

De Lisboa a São Tomé. Vinte anos que valem 20 milhões em apoios

Ao longo de 20 anos, foram atribuídos mais de 20 milhões de euros a projectos na área do combate à pobreza e formação profissional em São Tomé e Príncipe.
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Vieira da Silva esteve em São Tomé no âmbito do apoio do Estado português a vários projectos na área de acção social Liliana Valente

Estão os três a rodear um frigorífico. Apertam parafusos de um lado, desapertam de outro. Sandro, Manuel e Manuel estão a aprender a reparar frigoríficos e aparelhos de ar condicionado. Numa ilha com temperaturas quentes o ano inteiro, acreditam que é uma profissão que lhes pode dar futuro. São três dos 15 alunos da turma de instalação e reparação de aparelhos de refrigeração e dos 480 formandos que saem por ano do Centro de Formação de São Tomé e Príncipe em áreas tão diversas como acção educativa, informática ou o mais recente curso de informática para cegos e amblíopes.

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"Precisamos de mais materiais e de mais tempo de aprendizagem", queixam-se. Os três amigos querem mais tempo de curso e melhores condições e o formador, Augusto Fernandes, diz que é preciso "mais formação técnica para os formadores". Apesar das dificuldades, dizem que têm sorte por estarem no leque de formandos e que isso é meio caminho para terem um trabalho. Num país em que as estatísticas são muito falíveis - o peso da economia informal é muito forte - os dados apontam para um desemprego na ordem dos 12,3%, mas que não há quem acredite que não é muito superior.

A vida no Centro de Formação não é fácil e é feita com o que há e com o que vai sendo fornecido pela Cooperação Portuguesa. Foi criado em 2002 e é um dos projectos mais apoiados pela parte da cooperação do Ministério do Trabalho e Solidariedade Social. 

Ao longo das últimas duas décadas, Portugal tem desenvolvido em São Tomé e Príncipe vários projectos na área de acção social, entre elas a área da formação profissional. No início deste mês, o ministro do Trabalho e Segurança Social, Vieira da Silva, foi a São Tomé assinar o novo protocolo de cooperação com aquele país, que vai até 2020, e atribui a projectos na área do combate à pobreza e formação profissional cerca de um milhão de euros por ano.

Além do carácter humanista, de ajudar instituições com carácter social, a ideia da cooperação "justifica-se no âmbito da estratégia portuguesa de cooperação e de ajuda ao desenvolvimento. Não é uma verba desgarrada do que são as opções governativas em matéria de cooperação. Temos um objectivo e interesse político e estratégico de reforçar o quadro PALOP e com a CPLP", explica o ministro no balanço que fez de uma visita de três dias àquele arquipélago. 

Ao longo de dois dias, Vieira da Silva visitou lares de idosos, centros de acolhimento para crianças em risco, creches e outras instituições que apoiam crianças, pessoas com deficiência e idosos, de organizações como a Santa Casa da Misericórdia de São Tomé ou dos Leigos para o Desenvolvimento, que são duas das cinco organizações apoiadas pela Cooperação Portuguesa. "Apoiamos instituições, que genericamente, são não-governamentais, sem fins lucrativos e que desenvolvem actividades no âmbito do combate à pobreza, promoção da coesão social", disse. Organizações que estão no terreno e não que vêem de fora. 

Ao contrário de outros países que têm cooperação com São Tomé, a opção da diplomacia portuguesa é a de apoiar projectos concretos em vez de fazer donativos em bolo para o governo daquele país. Uma estratégia que há quem considere continuar a ser uma espécie de tutela sobre a ex-colónia, mas que para o Governo se explica pela cooperação mais de perto, não criando apenas infra-estruturas, mas apoiando o seu desenvolvimento ao longo dos anos, garantindo que continuam a funcionar. "A experiência que fomos desenvolvendo ao longo dos anos mostrou-nos que era mais eficaz e mais interessante este trabalho em triângulo: governo português, governo de são Tomé e uma ou várias instituições que se assumem como parceiras, de ambos".

Mas para o ministro, há outro laço que se cria. Com o apoio às crianças e à formação profissional, "estamos a ajudar a que a nossa cooperação a que essas crianças cresçam num ambiente de aproximação à língua portuguesa e isso é estrategicamente importante", defende. 

Até 2020 há um protocolo reforçado com aquele país nestas áreas, como há com vários países dos PALOP. Angola, por exemplo, já não quer ter apoios ao abrigo da Cooperação Portuguesa nesta área.

O PÚBLICO viajou até São Tomé e Príncipe a convite do Gabinete de Estratégia e Planeamento do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social.