Igreja Católica

Pároco do Barreiro celebra 50 anos de sacerdote ao som de Teresa Salgueiro e Rão Kyao

A ânsia de infinito e perfeição leva o pároco do Barreiro que tem sempre a igreja cheia a procurar o “domínio do simbólico” na poesia e música. Teresa Salgueiro e Rão Kyao juntam-se às comemorações dos seus 50 anos como sacerdote.
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O padre Rodrigo Mendes, pároco de Santa Maria, no Barreiro, prepara-se para celebrar 50 anos como sacerdote com um programa de fazer inveja a muitos promotores de concertos e em que Teresa Salgueiro e Rão Kyao são cabeças-de-cartaz. As comemorações do jubileu sacerdotal do padre Rodrigo, na Igreja de Santa Maria, uma das maiores do distrito de Setúbal, incluem duas noites pouco habituais: a interpretação de louvores marianos, por Teresa Salgueiro, no dia 17 de Agosto, e animação, em ambiente de confraternização, com a música de Rão Kyao, no dia 18.

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Santa Maria é a igreja com maior participação de fiéis em todo o distrito de Setúbal, reunindo entre 1200 e 1500 pessoas por fim-de-semana. Nas cidades de Almada e Setúbal há também paróquias concorridas, mas esta, do Barreiro, é a mais dinâmica da Diocese de Setúbal.

Para este sucesso contribui, e muito, o amor pela música do padre Rodrigo. A Paróquia de Santa Maria tem hoje cinco grupos corais. O mais recente foi fundado pela comunidade africana, mas há também o coral das crianças, ligado à catequese, dos Jovens Sem Fronteiras, de cariz missionário, o coral dos escuteiros e o coral tradicional, também de crianças e jovens, que é o mais antigo. Cada grupo é formado por entre 20 a 30 pessoas e envolve muitos mais elementos, até com relações entre gerações. Por exemplo, o coral das crianças mais pequenas é organizado pelos jovens.

“São grupos corais humildes, mas que prestam um serviço à comunidade e ao mesmo tempo utilizam melhor o seu tempo e desenvolvem mais as suas capacidades musicais”, diz Rodrigo Mendes.

De Paris para o Barreiro

Natural de Bitarães, concelho de Paredes, José Rodrigo da Silva Mendes, hoje com 74 anos, foi ordenado padre a 18 de Agosto de 1968, em Amarante, mas escolheu o Barreiro para desenvolver a sua missão porque queria “uma zona onde houvesse muitos trabalhadores”.

Essa proximidade ao proletariado começou em França, onde concluiu os estudos e viveu o Maio de 68. Partiu para Paris como os cerca de 100 mil jovens que deixaram o país “por razões financeiras” mas já era seminarista no Porto e concluiu a licenciatura em Teologia na capital francesa.

Foi em Paris que integrou a congregação religiosa Filhos da Caridade e passou a acompanhar os padres que trabalhavam com os operários nos grandes arrabaldes da metrópole francesa e essa experiência, desenvolvida posteriormente em funções idênticas em muitas outras zonas do mundo, deu-lhe uma espiritualidade que traduz numa frase: “O padre deve ser um bom pastor e não um fulano autoritário que impõe a sua moral às pessoas”.

Chegou ao Barreiro antes do 25 de Abril de 1974, esteve na Paróquia do Lavradio vários anos, foi responsável pelo Seminário de Almada de 2002 a 2014, e actualmente é pároco de Santa Maria.

A maior diferença que vê no Barreiro, 50 anos depois, é que “agora respira-se melhor”, e num duplo sentido. Porque há mais liberdade e menos poluição.

“Quando vim para aqui vivia-se uma espécie de ambiente de ‘cortar à faca’, bastante opressivo para os trabalhadores. Hoje é mais sadio, muito mais democrático, com mais liberdade política e sindical. Por outro lado, havia uma consciência mais forte de classe e dos direitos dos operários, e isso, neste momento, é muito mais difuso.”

O ar da cidade também está muito mais respirável. “O Barreiro e o Lavradio eram uma zona extremamente poluída, sobretudo a poluição do ar, que era terrível, com a produção de amoníaco”, recorda, sublinhando, no entanto, “as vantagens de haver muitos postos de trabalho”. Os tempos eram outros e “as pessoas nem reparam muito nisso, porque achavam que era normal”, mas agora a cidade “voltou um bocadinho a ser o que era antes da industrialização, bonita, do ponto de vista paisagístico, com o rio e as praias”.

Outra diferença que o padre Rodrigo constata em meio-século de Barreiro é o declínio demográfico. “Naquela altura era uma demografia galopante, havia crianças por todos os lados, agora as crianças tornaram-se uma coisa rara e o centro da cidade é quase só terceira idade.

A tendência para a desertificação “nota-se bastante”, até pela actividade da igreja. “Na paróquia, agora, é funerais, funerais, funerais. O dobro dos funerais, metade dos baptizados e os casamentos já tenho bastante poucos. Naquela altura era o contrário. Baptizados é que dominavam, os casamentos e os funerais eram raros, neste momento é exactamente o contrário.”, refere.

“Os poemas de Teresa Salgueiro são um pórtico para o cristianismo magnífico”

Absolutamente rendido à arte de Teresa Salgueiro, o padre Rodrigo Mendes, eleva o dom da cantora ao estatuto de chave de acesso ao esplendor maior da fé em Jesus Cristo.

“Os poemas dela são um pórtico para o cristianismo magnífico”, suspira o pároco.

A admiração pela artista, e também por Rão Kyao, levou a uma estreita ligação a ambos, através do Seminário de Almada, depois de o padre Rodrigo lhes ter lançado o desafio, que aceitaram, para que tocassem e cantassem música litúrgica.

Pelo seminário passaram, em idêntica relação, outros nomes da arte e do espectáculo, como Mafalda Veiga, mas foi com Rão Kyao e Teresa Salgueiro que a semente da amizade vingou com mais vigor. De tal maneira que foi Rodrigo Mendes quem ajudou a cantora a encontrar e comprar a quinta que adquiriu na margem sul para transformar no seu estúdio de trabalho

O padre poeta, autor, por exemplo, da música e refrão (a letra é de frei Agostinho da Cruz) de um dos cânticos que vai ser interpretado na festa das celebrações dos 50 anos como sacerdote, procura a harmonia entre a religião e a arte.

“Tive a graça de, no Seminário de Almada, consolidar esta relação que existe entre a arte e a religião”, afirma, e defende que “o domínio da poesia e da música é aquele que nos atira para o simbólico, não é a técnica, é o significado profundo das coisas, esta ânsia de infinito e de perfeição”.