Em Ponte de Lima, os cogumelos shitake dão para todos os gostos

Pelas cestas de Ana e Nuno Malheiro, naturais de Ponte de Lima, passam cerca de 100 quilos de cogumelos shitake por semana. Na cozinha de casa, transformam-nos em alheiras, paté, compotas, marmelada e até chocolate.

Fotogaleria
Ana e Nuno Malheiro começaram a produzir cogumelos shitake no ano passado, depois de uma formação na área. Paulo Pimenta
Fotogaleria
Actualmente, colhem, em média, 100 quilos de cogumelos por semana. Paulo Pimenta
Fotogaleria
Para além dos cogumelos frescos, o casal produz também alheiras, farinha, paté, compotas e marmelada de cogumelo. Paulo Pimenta
Fotogaleria
Os produtos com certificação biológica estão à venda em lojas biológicas, gourmet e em grandes superfícies. Paulo Pimenta

Numa estufa escondida algures em Vitorino de Piães, em Ponte de Lima, Ana e Nuno estão à nossa espera para apanhar cogumelos shitake. À nossa esquerda, estão empilhadas 130 toneladas de madeira de carvalho, à direita, outras tantas de madeira de eucalipto. Os cogumelos nascem ao fundo, na sala de frutificação, explicam-nos antes de calçar as luvas e pôr mãos à obra. São arrancados pelos pés, um a um, e colocados nas cestas assim mesmo, com os pés virados para baixo.

Até ao ano passado, Nuno era motorista de máquinas de terraplanagem, na construção civil, hoje dedica-se à produção de cogumelos biológicos a tempo inteiro, com a ajuda da mulher, Ana Malheiro. A ideia surgiu depois de Nuno ter recebido “um saquinho com sementes de cogumelos shitake” numa formação na área e não perderam tempo. Ao chegar a casa, inocularam 15 troncos de madeira, esperaram oito meses e ali estavam eles. “Deu para nós, deu para os amigos, deu para várias pessoas”, conta.

Repetem o processo desde então e rapidamente perceberam que a pequena estufa ao lado de casa não seria suficiente para dar resposta aos pedidos de familiares, amigos e conhecidos. De uma estufa de 70 metros quadrados passaram para uma de 1000. E de inocular seis toneladas de madeira para inocular 130 toneladas.

Foto
Os cogumelos shitake são colhidos de dois em dois dias. Paulo Pimenta

Nuno não esconde o gosto pela agricultura, mas a verdade é que até ali nenhum deles tinha qualquer ligação aos cogumelos. “Nesta zona os terrenos são muito ocupados pela pecuária e queríamos pôr em marcha um projecto agrícola que ocupasse o mínimo de terreno possível. Pensámos em framboesas, cogumelos e até caracóis”, afirma Nuno Malheiro.

A construção da estufa arrancou no início de 2017 e a produção da Etnoglamour avançou em Setembro do mesmo ano. Hoje não têm mãos a medir para os cogumelos shitake que aparecem, ora nos troncos de carvalho, ora nos troncos de eucalipto, e contam com a ajuda de dois funcionários. Colhem, em média, 100 quilos por semana.

A produção implica cuidados diários, como combater pragas e controlar a temperatura e humidade do interior da estufa, mas o processo não é difícil. “Compramos a madeira, furamos a madeira, introduzimos as sementinhas e depois deixamo-la em repouso. Depois de nove meses de repouso, a madeira vai para choque térmico, ou seja, mergulhamos as pilhas de madeira em água, num tanque com 18 metros quadrados, deixamo-las durante 24 horas e retiramos”, explica Nuno Malheiro. Transportada para a sala de frutificação, não são precisos mais de cinco dias para começarem a nascer cogumelos.

A oferta não se esgota nos cogumelos

Para além dos frescos, a Etnoglamour oferece também uma vasta gama de produtos transformados, que vão desde as alheiras, farinha e paté, às compotas e marmelada de cogumelo. As “experiências” começaram na cozinha de casa e, desde aí, têm vindo a apresentar novos produtos de cada vez que marcam presença numa feira. “As pessoas vêm sempre ter connosco a perguntar qual é a novidade daquele dia”, diz Ana Malheiro.

Às compotas, de três sabores diferentes - mel, moscatel e anis -, seguiu-se a marmelada de cogumelo, mas não tardaram os pedidos salgados. Assim surgiu o paté, os cogumelos em conserva de azeite e a farinha de cogumelo. Para “tentar pôr os miúdos a comer cogumelos”, criou também cogumelos com chocolate.

Foto
Ana Malheiro faz questão de apresentar uma novidade em cada feira. Paulo Pimenta

O desafio para produzir alheiras vegan foi lançado pouco depois. “Começaram a perguntar-nos como se podia confeccionar o cogumelo de forma a substituir uma refeição e então surgiu a alheira vegan. Levámos para a primeira feira, achámos que não íamos vender nada, mas no fim do primeiro dia já não tínhamos alheiras para vender”, ri. Hoje junta também aos cogumelos carne de galinha e peru, “para agradar a todos”.

Os produtos com certificação biológica estão à venda em lojas biológicas, gourmet e em grandes superfícies nos concelhos de Ponte de Lima, Maia, Barcelos, Viana do Castelo e Arcos de Valdevez. Podem ainda ser adquiridos online, através das plataformas Reforma Agrária e SmartFarmer ou da página de Facebook.

O projecto, com um investimento de 110 mil euros, foi financiado a 50% pelo Programa de Desenvolvimento Rural (PDR 2020). Para o futuro, o casal de Ponte de Lima tem como objectivos ampliar a estufa em 800 metros quadrados, possuir pontos de venda na capital e ainda atingir o mercado da Galiza.

Texto editado por Ana Fernandes