Costa pressiona privados a aumentarem salários

Uma das preocupações é a necessidade de subida dos salários no privado, apesar do aumento do salário mínimo e de melhorias nos últimos meses. Primeiro-ministro volta a pressionar empresas a pensarem nas suas estruturas salariais.

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Costa deu o exemplo da EDP para mostrar o que não deve ser feito Rui Gaudencio

Por várias vezes nos últimos meses, o primeiro-ministro tem-se referido à necessidade de as empresas aumentarem os salários que pagam aos seus trabalhadores. Voltou a fazê-lo numa entrevista que deu ao Expresso, pressionando para que o sector privado diminua a desigualdade salarial dentro da mesma empresa. O que defendeu foi exactamente o que disse Catarina Martins em Junho e que constará de uma proposta do Bloco de Esquerda no Parlamento.

A ideia passa por reduzir o hiato entre o trabalhador (ou administrador) mais bem pago de uma empresa e o trabalhador com salário mais baixo. Na entrevista ao Expresso deste sábado, o primeiro-ministro defendeu que é necessário "as empresas alterarem radicalmente as suas políticas salariais", para que possam captar os novos quadros, uma vez que, disse, a "política salarial das empresas hoje não é aceitável". Referindo o caso da EDP, disse que "o salário de topo é 210 vezes o salário mínimo. 

Mas ainda é cedo para perceber se este discurso terá reflexos na prática. O primeiro-ministro assumiu que iria apresentar um pacote fiscal "muito agressivo" para fazer regressar jovens que emigraram, mas que têm de ser as empresas a perceber que "têm de alterar estas estruturas salariais". "Não é possível pagarem tanto a quem está no topo e tão baixo a quem está nos outros escalões", reforçou.

Este tem sido um debate recorrente nos últimos tempos. No encerramento do congresso do PS, António Costa referiu-se a este problema defendendo que era necessário fazer um debate com as empresas, para que estas aumentassem os salários e se tornassem mais competitivas no mercado aberto, uma vez que muitas competem com outros países e perdem para lá jovens portugueses por causa do salário. Mas no programa de Governo nada consta sobre esta desigualdade; ficaram, isso sim, inscritas várias medidas para reduzir as divergências que acontecem em termos salariais.

A JS já tinha apresentado uma moção sectorial ao congresso neste sentido, defendendo que o rácio proposto era de 1:20, ou seja, que o salário de topo só poderia ser até vinte vezes mais alto que o mais baixo. Mas até já Marcelo Rebelo de Sousa considerou "chocante" a disparidade salarial, sobretudo nas 20 grandes empresas do PSI-20, quando foi conhecido um estudo que mostrava que um gestor poderia ganhar cem vezes mais que um trabalhador. "É preciso debater seriamente o problema, de uma forma que tenha presente a realidade nacional em termos de justiça social", defendeu o Presidente em Maio do ano passado.

Esta posição mais forte do primeiro-ministro acontece numa altura em que negoceia à esquerda o Orçamento do Estado para 2019, o último da legislatura. E anunciando a novidade que haverá uma medida fiscal para atacar este problema, Costa verá do outro lado da mesa o BE mostrar-lhe uma proposta que vai ao encontro das críticas que fez, sobretudo às grandes empresas.

Em Junho deste ano, Catarina Martins tocou no mesmo ponto e disse que o partido iria apresentar uma proposta que pretende retirar benefícios a empresas que tenham uma grande disparidade salarial dentro dos seus quadros. A proposta pretende colocar "na lei um princípio muito simples: se existe uma empresa em que o salário mais alto é muito superior ao salário mais baixo, essa empresa não pode fazer contratos com o Estado ou receber benefícios e apoios públicos ", disse. Entretanto, a medida ainda está a ser estudada pelos bloquistas e ainda não deu entrada no Parlamento.

Apesar desta vontade do primeiro-ministro, os últimos dados relativos à evolução dos salários e do impacto do aumento do salário mínimo mostram uma melhoria, já que a maior parte do emprego criado no arranque do ano foi superior ao salário mínimo (cifrou-se em 25,2% o número de novos trabalhadores a receber o SMN, quando no ano anterior o valor ascendia a 73,9%).

O mesmo relatório dá conta que as remunerações declaradas à Segurança Social tiveram um aumento moderado no arranque do ano (1,9% em termos nominais e 0,7% se descontarmos a inflação). Contudo, quando se olha para os 2,1 milhões de trabalhadores que permaneceram no mesmo posto de trabalho entre Outubro de 2016 e Outubro de 2017, os aumentos salariais nominais ficaram próximos dos 4%.