UE

Merkel e Sánchez querem fundos para Marrocos e uma política migratória comum

A chanceler alemã passa o fim-de-semana na Andaluzia, agora que Espanha se tornou na principal porta de entrada de imigrantes e requerentes de asilo da Europa. O eixo contra a vaga xenófoba conta ainda com Portugal e França.
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Pedro Sánchez está a solidificar o seu estatuto de aliado privilegiado de Angela Merkel por causa da imigração e da chegada à Europa de requerentes de asilo: este ano, Espanha tornou-se na principal entrada de estrangeiros em situação irregular no continente, com mais de 22 mil pessoas até ao fim de Julho. A chanceler alemã chegou sábado a Doñana, com o marido, e foi recebida por Sánchez e pela sua mulher – à reunião de trabalho seguir-se-á um dia de férias, com uma visita em casal ao centro de conservação do lince ibérico.

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Depois de um encontro na Andaluzia, precisamente onde chegam mais barcos, ambos pediram um reforço nos fundos de apoio a Marrocos (de onde partem muitas embarcações, agora que a Líbia começa a deixar de ser opção, com a recusa italiana em receber barcos) e defenderam a necessidade de uma política comum para lidar com os requerentes de asilo na União Europeia.

Pouco depois de chegar ao poder, o novo primeiro-ministro socialista resolveu a crise humana criada pela recusa do Governo xenófobo italiano em deixar desembarcar nos seus portos o navio Aquarius, na altura com 629 resgatados no Mediterrâneo a bordo. Sánchez ofereceu-se para os receber, apagando o pequeno incêndio de uma crise sem fim à vista – a maioria dos países da UE recusa receber refugiados ou imigrantes.

Com o encerramento dos portos de Itália já houve requerentes de asilo devolvidos à Líbia, uma medida ilegal já que o país não é considerado um “porto seguro”.

“Estamos a tratar de desbloquear fundos europeus para dar mais meios a Marrocos”, disse o líder espanhol na conferência de imprensa conjunta. Sánchez já tinha enviado para Bruxelas uma lista dos meios que quer disponibilizar a Rabat – a ideia é ajudar ao desenvolvimento, tentando diminuir o fluxo de marroquinos para a Europa, mas acima de tudo melhorar as capacidades de controlo fronteiriço do reino (com barcos, helicópteros ou sistemas de visão nocturna). Fontes do Governo, citadas pelo jornal El País, falam em 180 milhões de euros, com a Alemanha como grande financiador, e o apoio de França.

“Marrocos é um sócio essencial com o qual não falamos só de imigração, também queremos aumentar a cooperação económica. Actuaremos de forma coordenada com Espanha. Estou muito contente por partilhar com Espanha o mesmo ponto de vista sobre uma política migratória comum”, sublinhou Merkel.

O encontro aconteceu no dia da entrada em vigor do acordo em que Madrid se compromete a acolher em 48 horas refugiados que alcancem a Alemanha depois de terem feito o pedido de asilo em território espanhol – não se espera que tenha consequências significativas, mas serviu a Merkel para acalmar as preocupações dos seus aliados da CSU bávara, que ameaçavam a coligação no poder em Berlim por defenderem uma política de “portas fechadas”.

Neste momento, para além de Espanha e Alemanha, só Portugal e França recusam entrar no discurso populista e duro contra imigrantes e requerentes de asilo, assegurando que continuarão aliados contra a vaga xenófoba que ameaça varrer a UE, da Áustria a Itália. Os quatro países contam apresentar uma proposta comum de revisão da política migratória na cimeira europeia marcada para 20 de Setembro, em Salzburgo.

“Ninguém pode fugir às suas responsabilidades”, disse Merkel na Andaluzia. A União, defendeu, tem de encontrar forma de fazer “uma repartição justa” de quem chega, dos que não podem permanecer no território e têm de ser devolvidos aos seus países, e dos que têm direito a asilo. “É um desafio para todos”, sublinhou.

A tarefa avizinha-se quase impossível. Nos últimos anos, quando o número de refugiados e deslocados no mundo alcançou o recorde de 65 milhões (a maioria foge para países em desenvolvimento; a UE acolhe uma ínfima minoria), sucessivas propostas do Parlamento e da Comissão Europeia têm sido rejeitadas, desde as quotas de recolocação dos refugiados que entram sempre pelo Sul (Grécia, Itália, Espanha) nos vários países da União até às ideias de “centros controlados” em território europeu ou “plataformas de desembarque” no Magrebe.