Passeios

Os castelos que guardam o coração da raia beirã

Histórias de invasões que se cozinham com memórias da resiliência que as terras da raia exigem dos seus habitantes, temperadas com lendas fantásticas. Uma viagem pelo coração da Beira Interior.
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A canícula atinge sem dó todo o país em Agosto. Mas, na zona da raia beirã, entre os distritos de Castelo Branco e da Guarda, o calor intenso chega bem mais cedo, começando a pintar os campos de verde seco quando ainda se avistam tapetes primaveris, com o vermelho das papoilas, o branco das camomilas e o roxo das soagens. É debaixo de um sol que não revela qualquer misericórdia que se tem o primeiro vislumbre de como seria difícil tanto atacar como defender estas fortalezas que, estrategicamente localizadas, montavam guarda à fronteira: Penamacor, ainda no distrito de Castelo Branco; Almeida, Longroiva, Marialva, Meda, Pinhel, Sabugal e Trancoso, no distrito da Guarda.

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De castelo em castelo, calcorreia-se a região, desmontando parte da história da edificação do país ao mesmo tempo que se desvendam segredos e se percorrem lendas que, de tão repetidas, vão ganhando vida própria, gozando de uma veracidade angariada mais pela fé que pela prova. É o caso da história que reza que foi no Sabugal que ocorreu o milagre das rosas com a Rainha Santa como protagonista. Mas já lá vamos.

Primeiro, há que reunir energias e nada melhor do que começar qualquer visita pelo estômago, numa região que sabe mesmo prender-nos por aí, com os seus produtos de fumeiro, os queijos e vinhos de qualidade respeitável. E, acima de tudo, com a simpatia de quem recebe amigos em sua casa, como acontece no Moinho do Maneio, um turismo rural onde Anabela e Rui, que trocaram a azáfama de Lisboa por um projecto de plantação de framboesas, tratam de nos servir coragem numa mesa de iguarias para, sob o sol implacável, escalar ao castelo de Penamacor.

É que, se a história era o foco desta incursão pela região, a gastronomia viria a transformar-se numa espécie de fio condutor e na oportunidade para testar uma nobre capacidade em receber. Porque se é verdade que há falta de gentes, numa zona que sofre com a desertificação do interior, também é real o esforço para transformar a capacidade de dois braços no trabalho de quatro.

De Penamacor a Almeida

Com a visita às fortificações como mote, iniciamos o passeio, ainda no distrito de Castelo Branco, percorrendo as ruas de Penamacor e as origens da cidade, sobre as quais há mais dúvidas que certezas. Sabe-se, porém, que existiu aqui um castro pré-histórico e alguns historiadores dizem ter sido aqui que nasceu Vamba, o último rei dos Godos, regente entre 672 e 682 d.C.. Indiscutível é a conquista do território por D. Sancho I, já em finais do século XII, tendo doado as terras à Ordem dos Templários, que ficaram com a missão do povoamento. Mas poucos queriam vir para região tão inóspita e a solução passou por angariar residentes entre os condenados, explicam-nos. Ao mesmo tempo, começavam a ser edificadas as estruturas medievais que chegaram aos dias de hoje, como o pelourinho, “o único no distrito com ganchos e argolas dos enforcamentos”, garante o nosso guia. Além do pelourinho, ainda se pode vislumbrar a Domus Municipalis e a Torre de Menagem.

Mas o que mais marcou a história da localidade durante o século XX não foi o conjunto patrimonial, mas o contrabando que imporia um ritmo de vida. É de volta à mesa, desta feita na Casa da Esquila, localizada no Casteleiro, que exploramos aventuras de homens e mulheres que desafiavam as leis portuguesa e espanhola para combater a fome e assustadoras histórias de bruxas. Num conjunto de menus de degustação, onde imperam produtos frescos e locais, dedicado a estes e outros temas, o chef Rui Cerveira recupera lendas e tradições e até a carta chega em gíria quadrazenha, o dialecto contrabandista, inventado para enganar os guardas de ambos os lados da fronteira. Veja-se só com que nomes os pratos que desfilam à nossa frente se apresentam: salada de vaginas (vagens frescas), bolinhos de badeio (bacalhau), nadante (peixe) de escabeche, saltante (coelho) com o fusco (carabineiro)...

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Em Almeida, o Picadeiro D'el Rey é uma das atracções para visitantes Humberto Mouco

Se o primeiro dia ficaria marcado por histórias de bruxas e contrabandistas, o último, a cerca de cem quilómetros, em Almeida, propor-nos-ia momentos de fidalguia, com passeios de charrete pelo interior da fortaleza em forma de estrela de 12 pontas, candidata à categoria de Património Mundial da UNESCO. Classificada como Monumento Nacional desde 1928, a Praça-forte de Almeida foge da linha de todos os outros espaços visitados. Aqui a história não remonta ao nascimento do país nem à linha de defesa de fronteiras contra Castela do século XII. A actual estrutura foi edificada somente a partir do século XVII e foi essencial durante os conflitos sucessórios do século XVIII, na Guerra Peninsular, esteve sob o domínio do Exército napoleónico e, nas Guerras Liberais (1832-1834), foi palco de disputa entre absolutistas e liberais.

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A reabilitação do Castelo de Trancoso, já neste século, foi assinada pelo arquitecto Gonçalo Byrne Humberto Mouco

O mistério da rosas

Chegados à praça do castelo do Sabugal, um azulejo a descrever o milagre das rosas chama-nos à atenção e serve de isco para turistas, criando uma certa mística à cidade. Único senão: não há provas de que a monarca alguma vez tenha estado no Sabugal.

Enquanto nos vai conduzindo pelas muralhas da fortificação, de onde sobressai a torre de menagem, de invulgar planta pentagonal regular (em Portugal, há apenas mais uma de cinco quinas, em Tomar, mas irregular e em ruínas), o nosso guia defende a tese que diz que D. Isabel de Aragão nunca esteve nesta cidade portuguesa, existindo algum aproveitamento do facto de o casamento entre D. Dinis, de 21 anos, e a mui jovem D. Isabel, com apenas 12, ter tido Trancoso, ali pertinho, como palco — esta localidade foi, aliás, integrada no dote entregue à rainha. Mas há outra razão para que se associe Sabugal à monarca: o facto de ter tido no reinado de D. Dinis a sua época de glória. É que, apesar de existirem registos de ter sido conquistada por D. Afonso Henriques, em 1160, a região seria perdida logo a seguir para o reino de Leão, que aí edificou um projecto defensivo. Só mais de cem anos depois o rei-lavrador se encarregaria de levar adiante a conquista do território de Ribacôa, decretando Carta de Foral ao Sabugal em 1296, e reforçando o castelo: foi ordenada a criação de um fosso à volta, a construção de um barbacã, a colocação de seteiras cruciformes e a edificação da Torre de Menagem. Para garantir que a estrutura aguentaria quaisquer intenções vindas de leste, foi usado o granito em zonas estratégicas, sendo o enchimento composto por fragmentos de granito e xisto. Porém, o investimento revelou-se inútil: o castelo do Sabugal não viria a ser palco de nenhuma batalha relevante e, um ano depois, ficaria sob o domínio lusitano, após a assinatura do Tratado de Alcanizes, firmado entre aquele rei português e D. Fernando IV de Leão e Castela. E, à medida que foi perdendo o seu propósito defensivo, foi progressivamente abandonado, acabando por servir outras funções não-militares (viria a ser transformado em cemitério após o decreto de Rodrigo da Fonseca Magalhães que, em 1835, tornava obrigatórios os enterros em espaços exclusivamente destinados para esse fim).

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As Portas d'El Rei são a principal entrada para a Trancoso amuralhada Humberto Mouco

A herança judaica

Por terras de Ribacôa, onde não faltam histórias bélicas, há outra rota que se desenha: a da herança judaica. Ainda no Sabugal, impõe-se uma visita ao Centro Interpretativo do Património Judaico, onde, numa casinha em pedra, a escassos metros do castelo, se demonstra como os judeus terão conseguido escapar a um destino trágico, ocultando as suas crenças. Há quem defenda, porém, que no Sabugal “não houve judiaria”. Mas, a contrariar tal teoria, encontram-se algumas evidências, aceites pela comunidade judaica e pela Rede de Judiarias de Portugal, que atestam a presença judaica nesta localidade desde o século XIII: caso de dois Hekhál (receptáculo ornamentado que contém os Sifrei Torá de uma sinagoga) ou da documentação de 143 processos da Inquisição.

Também em Trancoso, voltamos à história da judiaria, com a visita a uma sinagoga, servindo o espaço sobretudo como testemunho do passado. Mas nem sempre foi assim. No século XV, a comunidade judaica já era tão importante que foi pedida a ampliação do espaço de culto a D. João II, o rei que, aliciado provavelmente pelas riquezas desta comunidade, abriu o país quando Castela impôs a conversão ao catolicismo. Mas o porto de abrigo para milhares de judeus depressa se transformou numa experiência de terror. E piorou após a morte daquele monarca. É que o herdeiro da coroa, D. Manuel I, até simpatizava com a causa judaica, mas precisava do casamento com D. Isabel de Castela. E a condição era peremptória: deveria expulsar todos quantos não aceitassem a conversão à fé de Roma. E, a partir da publicação de tal édito, em 1496, iniciou-se um calvário que levaria a Santa Inquisição a instalar-se em Trancoso, atraída pelas Trovas do Profeta Bandarra.

Nascido em 1500, Gonçalo Annes Bandarra foi autor de trovas messiânicas e, por causa delas, acusado e processado pela Inquisição de Lisboa, desconfiada de que as suas trovas contivessem marcas de judaísmo. A sua sentença incluiu a participação na procissão do auto-de-fé de 1541: escapou à fogueira, mas ficou impedido de voltar a escrever.

Na Casa do Bandarra, monta-se um pouco da história do herói local, com um visionamento de um filme de época que mistura ficção com momentos documentais. Curiosidade: foram As Trovas do Bandarra que viriam a moldar a filosofia sebastianista por detrás das obras de figuras proeminentes como D. João de Castro, Padre António Vieira ou Fernando Pessoa. O último descreveu o sapateiro, na Mensagem (1934), desta forma: “Sonhava, anónimo e disperso,/ O Império por Deus mesmo visto, / Confuso como o Universo / E plebeu como Jesus Cristo. / Não foi nem santo nem herói, / Mas Deus sagrou com Seu sinal / Este, cujo coração foi / Não português mas Portugal”.

Trancoso, jóia medieval

Protegida por imponentes muralhas, Trancoso impressiona pelas suas ruas bem tratadas e limpas, de casinhas que parecem saídas de um conto de fadas, tornando menos penosa a íngreme subida até à torre. Seja como for, esta é uma escalada amplamente compensada pela vista. É no topo da Torre de Menagem que se tem uma perspectiva do planalto e da imensidão de território que este castelo teria sob a sua protecção. “Trancoso, edificada no ponto mais alto da região, beneficiou desde sempre da sua posição estratégica”, explicam-nos, enquanto enfrentamos a escadaria de acesso e vamos, degrau a degrau, percorrendo a história da localidade, com os principais acontecimentos gravados para que o visitante possa, ainda antes de cruzar as ameias, iniciar a viagem ao passado.

Não se sabe ao certo quando foi lançada a primeira pedra, apenas que as primeiras referências à fortaleza datam de 936 d.C., sendo indicado no testamento de D. Chamôa Rodrigues, mais conhecida por Flâmula Rodrigues, sobrinha de Mumadona Dias, a fundadora do castelo de Guimarães.

Com um pequeno posto de informação logo à entrada da fortaleza, o empedrado desorganizado que se pisa noutros castelos foi substituído pela relva rasteirinha que lhe confere uma envolvência quase onírica. Reabilitado em 2010, segundo um projecto do arquitecto Gonçalo Byrne, o castelo difere de outras reabilitações pela forma como assume sem pudor as áreas intervencionadas, nas quais foram usados materiais modernos. Um contraste que, se por um lado pode chocar, por outro permite identificar sem nenhum engano se o que estamos a ver é de origem ou não.

De Longroiva a Marialva

A viagem prossegue pelos chamados castelos de segunda linha, isto é, os que serviriam para defender o território já depois de os mais avançados, como o caso de Pinhel, terem sucumbido. E, em Longroiva, a história não cabe nos 875 anos de Portugal, tendo a fortificação tido um papel importante durante a reconquista cristã da Península Ibérica. Acabaria por ser definitivamente conquistada aos mouros, em 1059, por Fernando Magno, e integrou o rol do dote de D. Teresa, fazendo parte primeiro do Condado Portucalense e, mais tarde, do primeiro esboço do país independente. Recebeu Carta de Foral em 1126, mas as terras (e castelo) de Longroiva acabariam por ser doados à Ordem dos Templários. Com o passar dos anos, e ao mesmo tempo que Trancoso ganhava projecção, Longroiva foi perdendo a sua importância, sendo mais procurada pelas propriedades curativas das suas águas sulfurosas, indicadas para tratamento de doenças reumáticas, assim como perturbações das vias respiratórias. E, entre os que a procuraram ao longo da história, volta a surgir o nome de D. Isabel de Aragão: “Era lá que se banhava quando veio para casar com D. Dinis a Trancoso”, garante o nosso guia ao mesmo tempo que, ao contrário da história relatada um dia antes, jura a pés juntos que o milagre das rosas se deu no Sabugal.

São as lendas que voltam a dominar a conversa quando chegamos a Marialva, nome que nada tem a ver com o marquês de má-fama, mas com Maria Alva, a Dama Pé-de-Cabra, história que “só é mentira para quem não acredita”. E, neste grupo, a veracidade dos acontecimentos parece ser aceite de forma unânime, ainda que a estória entre no capítulo do fantástico. Uma jovem de uma beleza avassaladora que prometia casamento a quem, sem nunca lhe ver os pés, lhe fizesse os sapatos à medida. Um sapateiro ladino que, para conseguir o molde, convenceu a criada a espalhar farinha pelo chão do quarto durante a noite, revelando no dia a seguir as marcas de cascos de uma cabra. E, por fim, um desfecho trágico: o sapateiro, despeitado, foi para a rua gritar “Maria Alva tem corpo de gente e pés de cabra!” e a rapariga, não suportando a humilhação, subiu ao alto da torre e atirou-se...

Marialva fica a poucos minutos da cidade de Meda, onde se impõe a Torre do Relógio, e ainda ao longe distingue-se uma certa aura que nos leva a acreditar ser um lugar único. Erigida no topo de um penedo granítico, não é só uma fortificação defensiva; é um complexo medieval que testemunha o povoamento desta região, mas também episódios trágicos, como a acusação de tentativa de regicídio que ditou a sentença de morte do marquês de Távora, por essa altura alcaide de Marialva. O ataque a D. José I não só extinguiu quase toda a linhagem dos Távoras, num dos processos mais violentos da História do país, como resultou no abandono de Marialva durante um longo período. Hoje, o conjunto histórico, assim como a conservação da traça original da povoação, vale-lhe a distinção de Aldeia Histórica. Já a abertura das Casas do Côro, um projecto de enoturismo sustentável e de luxo, acabaria por ajudar a chamar o mundo a Marialva. Ainda assim, há quem resista e continue a dotar a aldeia de vida (e de alma). E, mesmo que se tenha transformado num paraíso turístico, há qualquer coisa de genuíno que se pode observar pelas roupas alinhadas num estendal ou pelos canteiros a florirem as janelas, contrariando a austeridade do granito.

Pinhel, viagem no tempo

Sendo o último castelo antes da fronteira natural que é o rio Côa, e ocupando uma posição altaneira na serra da Marofa, Pinhel foi repovoada por D. Afonso Henriques, dada a necessidade de manter aí uma defesa que se desejava impenetrável (mas que, demasiadas vezes, se entregava ao domínio castelhano). Até que, tal como sucedeu com outros pontos fronteiriços, com o Tratado de Alcanizes, ficou sob a alçada da coroa portuguesa, com D. Dinis a proceder à fortificação do castelo. No entanto, a paz não seria definitiva e, ao longo dos séculos, sobretudo durante a crise dinástica de 1383, que se arrastou durante dois longos e sangrentos anos, Pinhel teve de lidar com as invasões regulares. Mas, entre momentos verdadeiramente beligerantes, também viveu períodos de crescimento, sobretudo depois de D. Manuel lhe ter atribuído Foral Novo. Por esta altura, já Pinhel contava com um número considerável de judeus — que viriam a assumir-se como cristãos-novos, fixando-se na localidade e promovendo o crescimento económico da urbe —, e começa a suscitar o interesse de gentes abastadas. Hoje, Pinhel destaca-se pelo impressionante conjunto de magníficos solares, construídos fora da muralha, mas também pelas suas castas de vinho, motor da economia local.

Com a sensação de seguirmos numa viagem pelo tempo, é ainda em Pinhel, no seu Museu Municipal, que subitamente conseguimos contextualizar todas as visitas anteriores, como se as inúmeras peças de um gigantesco puzzle subitamente encontrassem o encaixe perfeito, e passado e presente se encontrassem, delineando um possível futuro tão insuflado e suave quanto as cavacas de Pinhel, tão doce e colorido como as sardinhas de Trancoso, tão espirituoso quanto o licor de ginja de Almeida.

A Fugas viajou a convite de Territórios do Côa, Associação de Desenvolvimento Regional