JUAN JOSE SAEZ

A fortaleza voadora que agora é um coral

Muito perto da costa, acessível a iniciados mas sem deixar de atrair mergulhadores experientes, o golfo de Aqaba, na Jordânia, está a transformar-se num parque de aventuras subaquático. Um tanque, um cargueiro e agora um imponente C-130: os “naufrágios” fazem as delícias de todos.

Quando um avião é velho de mais para voar não costuma ter um destino particularmente garboso. Na melhor das hipóteses, se tiver valor histórico ou tecnológico, poderá prolongar a sua existência em terra, numa qualquer exposição temporária ou permanente. Mas na esmagadora maioria dos casos espera-o um soturno e solitário cemitério de aviões e o esquecimento. Uma terceira hipótese é reinventar-se e voltar ao estrelato no fundo do mar.

Esta é a história de um Hércules C-130 que alcançou a eternidade nas águas do mar Vermelho.

Pouco passa das 9h mas o sol já escalda na praia de Aqaba (numa manhã de Novembro). No centro do areal ergue-se uma grande tenda branca cheia de cadeiras de plástico para abrigar convidados VIP. Ao lado, uma fanfarra militar enfrenta o calor com estridentes acordes e muito suor nos rostos. Atrás dos músicos, um palco improvisado está ladeado por dezenas de jornalistas nacionais e internacionais.

Um pouco mais afastados, para lá dos cordões de segurança, muitos populares acotovelam-se para garantir o melhor ângulo de visão. Vão assistir a um espectáculo raro.

As atenções convergem para uma enorme barcaça que baila lentamente na água a cerca de 300 metros da costa. Transporta uma gigantesca grua e um majestoso Hércules C-130 da Força Aérea jordana. Um avião imponente que dentro de uma hora repousará no fundo das águas deste estreito do golfo do mar Vermelho, a única faixa costeira da Jordânia, entalada entre Israel e a Arábia Saudita.

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A cerimónia do afundamento foi preparada meticulosamente durante meses, mas há sempre imprevistos e atrasos. O maior problema passa por encontrar o local preciso onde o aparelho irá repousar e perpetuar a sua existência, agora como atracção turística subaquática.

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Por enquanto o estranho bailado continua na superfície. Faz-se um novo compasso de espera. Acabou de ser confirmada a presença do príncipe Hamzah, o irmão mais novo do rei Abdullah II.

A fanfarra volta a fazer-se ouvir mas é subitamente interrompida por um voo rasante de outro Hércules C-130, escoltado por dois jactos militares. É evidente a excitação entre os jordanos presentes. O príncipe chegou a Aqaba, uma pequena cidade costeira do Sul do país – a capital da província autónoma com o mesmo nome que é também uma zona económica especial. Dentro de instantes o representante da realeza estará no lugar para si preparado, na tenda branca. A cerimónia pode prosseguir.

Uma estrela submarina

Nas águas calmas diante da assistência, a grua faz subir lentamente a inusitada carga para a baixar ainda mais vagarosamente em direcção ao mar cristalino. Vai demorar antes de desaparecer por completo. E é quando o bico da extensa cauda mergulha, deixando um remoinho na superfície, que começa a festa propriamente dita.

A última e mais inesperada viagem do gigante dos ares terminou. Agora é uma das estrelas submarinas deste golfo, uma das grandes atracções dos mergulhadores que procuram estas paragens, cada vez mais transformadas num parque marinho para mergulhadores iniciados ou mais experientes.

Menos de 24 horas após a cerimónia, são já muitos os barcos de recreio estacionados no local do afundamento. Alguns mergulhadores saem da água, outros entram. A excitação é grande. A Fugas terá de aguardar algumas horas até a zona ficar menos apinhada. A experiência será compensadora.

O nascimento de um coral

Primeiro levitamos sobre uma enorme sombra que rapidamente ganha contornos mais definidos. É de suster a respiração. Estamos em cima do Hércules. As suas dimensões são impressionantes: 20 metros de comprimento; 40 de envergadura. Em breve caminharemos numa das suas asas.

Um dia depois de ter sido instalado no seu novo habitat, a 17 metros de profundidade, já não é um estranho para a fauna curiosa que o rodeia. Uma estrutura metálica que irá tornar-se num recife artificial, atraindo a vida marinha em benefício de todo o sistema marítimo do golfo de Aqaba.

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Todos os materiais tóxicos potenciadores de riscos biológicos, como combustíveis, óleo, tinta ou borrachas foram removidos ainda em terra. Mesmo despojado de ornamentos não deixa de ser majestoso. Desde os anos 1950 que estas fortalezas voadoras circulam nos céus de todo o mundo, como transporte táctico com capacidade para levar grandes quantidades de cargas e passageiros (nomeadamente forças militares). Nunca nenhuma tinha sido adaptada a esta nova realidade subaquática.

“Todo o ecossistema marinho vai beneficiar da criação deste recife artificial que o Hércules C-130 irá produzir. Sempre que pudermos adicionar uma nova estrutura como esta, toda a área será beneficiada com o habitat adicional e com a diversidade de espécies que irá atrair”, explica à Fugas Sharhabeel Madi, comissário do Turismo e Assuntos Económicos de Aqaba.

Milhares de turistas

Os benefícios que as autoridades desta província jordana antecipam não se resumem aos ambientais marinhos. Os económicos são igualmente fundamentais e as expectativas são que este novo ponto de atracção subaquático atraia milhares de turistas de todo o mundo, interessados em mergulhar nestas águas.

O projecto deste parque temático, que já conta com outras atracções em matéria de “afundamentos”, tem sido liderado pelo próprio rei Abdullah II. Um esforço para potenciar e diversificar a oferta turística num país que tem escapado relativamente incólume aos ventos de instabilidade que afectam muitos dos seus vizinhos árabes.

Esta é também uma oportunidade de captar para a Jordânia o turismo de mergulho que era mais habitual na famosa estância egípcia de Sharm el-Sheik. Um ponto de paragem obrigatório no mar Vermelho para os amantes das profundezas que atravessa uma crise após o ataque terrorista que levou à queda de um avião russo, no final de Outubro de 2015, provocando a morte a 224 pessoas.

Os desafios que se colocam aos mergulhadores mais experientes no golfo de Aqaba não são tão exigentes, mas as suas condições naturais são particularmente atraentes para aqueles que dão os primeiros passos neste desporto. Os “naufrágios” fazem as delícias de todos.

Uma surpresa macabra

Com a excelente visibilidade característica do mar Vermelho, o Hércules é praticamente observável da superfície das águas. Mas estar em cima dele é algo assombroso.

Descemos um pouco mais e contornamos o cockpit por fora, seguindo por um dos lados até encontrar uma porta. Entramos sem grande esforço para o interior bem iluminado e prosseguimos lentamente até ao acesso para a cabine dos pilotos. A passagem para lá entrar é estreita, em especial com a botija de ar às costas.

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Lá chegados, instalamo-nos nos comandos do lado direito e é quando um movimento nos atrai a atenção para o banco contrário, onde nos espera uma surpresa macabra. Um esqueleto fardado com o equipamento de piloto, capacete incluído, mexe-se lentamente. O humor negro dos jordanos poderá ser mais provocador para os mergulhadores menos experientes que escolham a noite para uma visita.

Independentemente da altura em que se mergulhe será sempre uma aventura divertida para mergulhadores com todos os níveis de experiência. E até para quem prefere o snorkeling (mergulho de apneia) será fácil reter a respiração e arriscar uma incursão até à aeronave.

Cedar Pride

Não muito longe do Hércules estão dois dos seus vizinhos, bem mais antigos. Um velho tanque do exército equipado com bateria antiaérea (M42 Duster) tem uma presença mais modesta. A poucos metros de distância, surge a outra grande atracção destas águas, capaz de rivalizar com o majestoso C-130. Este também é o reino do Cedar Pride.

Trata-se de um velho barco da marinha mercante. Apesar da dimensão e aspecto misterioso, a sua presença surge como mais natural no fundo do mar do que acontece com o seu novo companheiro da Força Aérea.

Com 74 metros e mais de mil toneladas, esta embarcação foi “naufragada” a 16 de Novembro de 1985 – exactamente 32 anos antes do Hércules C-130 – por ordem de Abdullah II, na altura ainda herdeiro da coroa jordana.

Três anos antes, em 1982, a embarcação aportara em Aqaba, de onde não voltou a sair devido a um violento incêndio que a danificou fatalmente, matando dois dos tripulantes. Durante três anos, o cargueiro manteve-se no porto sem ninguém assumir responsabilidades pela sua manutenção ou pelo pagamento das taxas portuárias.

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O Governo jordano acabou por reclamar a embarcação, que afundaria propositadamente para a transformar num grande recife artificial, muito perto da costa, a apenas nove metros de profundidade. Rapidamente se tornou uma imagem de marca do fundo submarino deste golfo.

É imponente. Assente em dois recifes, abre uma passagem por baixo do casco para os mergulhadores atravessarem.

Os mais experientes são autorizados a explorar o seu interior, onde existe um pequeno compartimento que guarda uma bolha de ar, permitindo respirar sem o regulador da botija na boca. Não é aconselhável, segundo os guias, já que o ar se encontra viciado, mas muitos não resistem à tentação.

Dois protagonistas

O seu afundamento terá sido bem mais discreto do que aconteceu com o Hércules C-130 que agora tem por companhia. Os tempos são outros e os objectivos das autoridades para aumentar os lucros do turismo estão bem definidos. Desta vez, convidaram-se jornalistas, editores de revistas de mergulho e os jordanos que puderam não deixaram de aparecer.

A fanfarra que anunciou o príncipe e acompanhou a cerimónia deu o tom para um espectáculo diferente. Um avião gigante no fundo do mar não é o mesmo que um navio, por melhor que seja a experiência de mergulho que este proporciona.

Lançado às águas em 1964, em Gijón, Espanha, o Cedar Pride vive o capítulo mais glorioso da sua história no fundo do mar. Reparte agora o protagonismo com o seu inesperado novo vizinho.