V.S. Naipaul, o Nobel da Literatura que queria "entender o mundo como ele é"

O escritor tinha 85 anos.

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pedro cunha arquivo publico
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BORIS ROESSLER/ reuters

O escritor britânico Vidiadhar Surajprasad Naipaul, vencedor do Prémio Nobel da Literatura em 2001, morreu este sábado, na sua casa em Londres. Tinha 85 anos. A notícia foi avançada pela família, em comunicado. 

"Era um gigante em tudo o que o fazia e morreu rodeado dos que amou”, anunciou Nadira Naipaul, mulher do escritor, citada pelo britânico Guardian. 

Vidiadhar Surajprasad Naipaul (que usava "V. S." para assinar todos os seus livros) nasceu no dia 17 de Agosto de 1932, na ilha de Trindade (Antilhas), no seio de uma família de imigrantes indianos. Com 18 anos partiu para Inglaterra para continuar os estudos no Queens Royal College, antes de ingressar em Oxford para estudar Literatura Inglesa. Depois de Oxford, trabalhou como jornalista na BBC. Foi aí que começou a escrever o seu primeiro livro, The Mystic Masseur (1957), publicado quando o escritor tinha apenas 25 anos. 

Em cinco décadas de actividade, Vidiadhar Surajprasad Naipaul foi autor de mais de 30 livros: desde novelas cómicas passadas na Trindade e Tobago natal, a memórias, diários de viagens e ensaios. Crítico acérrimo do colonialismo, descreveu, nos seus livros, os países que ia conhecendo. Percorreu todo o mundo (Índia, Antilhas, América Latina, África e Oriente) e procurou compreendê-lo "como ele é". E as experiências ficariam imortalizadas nos seus livros, entre os quais Guerrillas (1975), A Curva do Rio (1979), O Enigma da Chegada (1987), Para Além da Crença (1981), India: A Million  Mutinies  Now (1990) e A Way  in  the  World (1994) e Uma Vida pela Metade (do ano em que foi premiado com o Nobel) são algumas das suas obras maiores.

Armado cavaleiro pela rainha Isabel II em 1989, viria a ser distinguido com o Nobel da Literatura doze anos depois, em 2001. Na atribuição do galardão, a Academia das Ciências Sueca salientou a capacidade de união entre a "narrativa perceptiva e uma descrição pormenorizada incorruptível" do autor em trabalhos "que nos compelem a ver a presença de histórias reprimidas". 

Em 2016, o escritor esteve no Folio - Festival Literário Internacional de Óbidos para uma apresentação. Seria a última em território português. Paulo Moura, jornalista do PÚBLICO, esteve presente e relatou que o escritor “chegou a Óbidos de cadeira de rodas, e, mal começou a falar, suscitou logo, na audiência que enchia o recinto, suspiros ambíguos, entre a indignação e a troça. Talvez estivesse já demasiado cansado”. Mas não era o caso — quando questionado se pensava continuar a escrever, Naipaul foi peremptório: “Mais do que nunca”. “Porque sinto que me empurram para o repouso, para uma atitude de não fazer nada, como se já tivesse escrito tudo. Mas eu sinto uma preocupação constante. Sinto que tenho de escrever mais e mais. E outra vez, e outra vez. É terrível.”