Artes

Um artista turco que embirra com nacionalismos

Volkan Diyaroglu inaugurou esta quinta-feira no espaço portuense Maus Hábitos Eu nunca emergi / emergir para afundar, uma exposição que também fala do que o novo Porto turístico perdeu pelo caminho
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“Não gosto muito de bandeiras”, reconhece o artista turco Volkan Diyaroglu, comentando o modo como desconstruiu a bandeira portuguesa numa pintura de grandes dimensões realizada expressamente para a exposição Eu nunca emergi / emergir para afundar, e inaugurada esta quinta-feira no espaço portuense Maus Hábitos, onde poderá ser vista até 22 de Setembro.

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Depois de ter exposto pela primeira vez no Maus Hábitos em 2009, Diyaroglu regressou agora para uma residência artística, tendo-lhe sido proposto que trabalhasse a ideia de emergência. “É um tema muito amplo, mas eu foquei-me mais na emergência social”, explica o artista, que nasceu em Istambul em 1982, mas que deixou o país quando tinha 20 anos para estudar, como bolseiro, na Faculdade de Belas Artes da Universidade Politécnica de Valência e vive desde então nesta cidade espanhola.

Com 20 exposições individuais, obras em colecções de vários museus e algumas distinções importantes no currículo, como o prémio da fundação valenciana Bancaja, que venceu em 2008 na categoria de pintura, Volkan Diyaroglu é um dos mais consagrados jovens artistas turcos. No entanto, receia hoje voltar ao seu país, onde, de resto, a sua pulsão para intervir artisticamente em bandeiras é um desporto bastante arriscado. “Fiz um trabalho que consistia em lavar a bandeira turca com lixívia, para lhe tirar o vermelho do sangue, e só essa obra podia custar-me, com as leis actuais, até 35 anos de prisão.”

A Turquia “é um país muito nacionalista": "Agora temos islamistas nacionalistas, mas antes tínhamos um estado laico militarizado e fascizante que era igualmente nacionalista”, observa. “Eu próprio tive uma educação ultranacionalista.”

E mesmo que a barrela à bandeira, uma performance a que chamou Detox History, tivesse passado despercebida, Diyaroglu chamou decididamente a atenção sobre si próprio em 2015 quando cancelou uma grande retrospectiva que deveria inaugurar numa galeria detida por uma próspera empresa turca de equipamentos médicos. Após dois anos de preparação, e a um mês e meio da abertura, informaram-no de que tinha de retirar duas peças: uma tela com uma frase aparentemente anódina – “Se eu não existisse, também tu não existirias” –, mas que tinha a particularidade de estar escrita em curdo, e um vídeo da sua própria circuncisão, quando tinha nove anos de idade. “Era um vídeo semelhante ao que todos os turcos guardam em casa como recordação”, nota. Só que o pequeno Volkan fora filmado a espernear e a chorar, pedindo que o largassem e gritando que não era muçulmano. 

Na exposição que Volkan Diyaroglu agora tem no Porto, uma das peças evoca esse episódio traumático: colocado sobre uma pilha de tijolos, um pequeno cubo de mármore tingido de um tom sanguinolento tem gravada uma data que assinala justamente o dia em que, no final de uma festa de família, uns homens o levaram para um quarto e lhe removeram o prepúcio à força.

Confrontado com a impossibilidade de mostrar as duas obras em causa, o artista pediu aos responsáveis da galeria que lhe enviassem um e-mail a explicar os motivos da decisão, e estes fizeram-no, argumentando que na actual situação política não podiam expor peças que abordassem temas religiosos ou utilizassem o idioma curdo. “Respondi que então não queria expor lá, mas divulguei o e-mail e entrei numa polémica bastante mediática com eles, de modo que agora estou fichado e toda a gente sabe quem sou e o que penso”, explica Diyaroglu.

O que nos últimos anos mudou na Turquia em termos de liberdade artística, conclui, é que “antes havia censura e perseguição, mas agora chegou-se a um ponto em que já não precisam de censurar nada, porque o medo leva os artistas a autocensurarem-se, e já nem sequer se ouve falar de censura”.

A impossibilidade de voltar ao país nos próximos tempos inviabilizou-lhe também o que prometia ser uma fulgurante carreira paralela na cena pós-rock do seu país. Vocalista e guitarrista dos Ulan, o grupo impressionou o suficiente a Sony Music da Turquia para a editora lhes encomendar, em 2015, um álbum com temas cantados em turco. “Só que agora não posso ir lá dar concertos, e para que é que vou cantar em turco se os discos não vão ser divulgados na Turquia?”, questiona o artista, cuja banda lançou entretanto vários trabalhos cantados em inglês.

Uma reconstrução que destrói

Diyaroglu tem relutância em reconhecer-se como artista político, preferindo ver-se simplesmente como “activista”, já que, defende, “a arte é um mundo pequeno, que não afecta a vida real das ruas”. E dá um exemplo: “A Guernica de Picasso mudou alguma coisa? Continuamos a ver, todos os dias, vários tipos de Guernicas”.

No entanto, a exposição que concebeu para o Maus Hábitos, que reúne pintura, arte digital, fotografia e escultura, não parece esforçar-se por ocultar a sua dimensão política. Um par de obras digitais, por exemplo, mostra a palavra “Crisis” com as letras esticadas até ao limite – “é uma maneira de falar destas crises alargadas em que estão sempre a meter-nos e que nunca mais acabam”, explica o artista – junto a uma mal reconhecível nota de dez euros que se dissolve num fio ténue e que corresponde, diz Diyaroglu, “ao salário mensal de um trabalhador congolês”.

Outra das obras de Eu nunca emergi / emergir para afundar é uma escultura que se compõe de dois elementos: uma pedra grande na qual foi pintada uma setinha, semelhante a um cursor, e diante dela, como um rato diante de um computador, uma pedra bastante mais pequena. “Tenta mexê-la”, desafia o artista, apontando para esta última. E como o seu movimento não produz qualquer impacto na pedra maior, cuja seta se mantém no sítio onde foi pintada, observa: “Estás a ver como isto não funciona?”.

Os perigos do nacionalismo, as disfunções do sistema capitalista ou a dependência acéfala da tecnologia são alguns dos tópicos para os quais Volkan Diyaroglu quis chamar a atenção. “Estamos sempre a ver o ecrã de um computador, e já vivemos em função das fotos que vamos depois meter na Internet”, diz. “É algo que não é a realidade, mas que ao mesmo tempo é muito real, e que afecta o nosso comportamento, a nossa linguagem, o nosso cérebro.”

Vários dos seus trabalhos ironizam também com os meios institucionais da arte e com a condição do artista. Uma das suas peças mais conhecidas intitula-se Certificado de Boa Crítica e é uma tela em que reproduz um documento com o aspecto dos certificados académicos, sem esquecer o habitual rebordo decorativo, e cujo texto reza assim: "Certifica-se por este meio que esta é uma excelente obra de arte, perfeitamente vendável e suficientemente contemporânea". Diyaroglu até conseguiu que um crítico real assinasse a declaração, tornando-se tecnicamente co-autor da obra. 

A convicção do artista é que o mundo da arte não escapa à actual vaga populista. "O que interessa aos museus hoje em dia é fazer crescer os seus seguidores no Instagram – estão todos a contratar gente para gerir as redes sociais – e fazer competições de visitantes", descreve. "É o mesmo populismo que vemos na política", acusa, acrescentando: "E nos jornais passa-se a mesma coisa, já não se podem ler, eu já desisti de tentar seguir pela imprensa o que se passa na Turquia".   

Já nesta exposição, um tema que se deixa adivinhar em várias peças é o do processo de gentrificação que a pressão do turismo está a provocar em muitas cidades. Num dos estaleiros de obras espalhados pela Baixa portuense, o artista encontrou duas tábuas sujas e toscamente pregadas numa terceira. Expôs o conjunto como uma espécie de ready-made, mas pintando parte de uma das tábuas com um motivo azul que se repete noutras peças expostas, e que porventura aludirá ao convidativo céu azul dos prospectos turísticos do Porto.

“Gosto muito do Porto, já cá estive várias vezes, e há uns quatro ou cinco anos ainda estava tudo bastante decadente, o que me agradava, porque era muito poético – a minha mulher, que é polaca, até me dizia que eu queria viver no Porto porque era igual a Istambul, decadente e com gatos e gaivotas, e ainda por cima sem turcos”, ri-se. “Mas agora", prossegue, aclarando o título que escolheu para esta exposição, "está-se a viver aqui o mesmo que em muitas cidades: a economia melhora com o turismo e o dinheiro que vem de fora, mas ao mesmo tempo que algo está emergindo, alguma coisa se está também afundando".

E conclui com uma nota melancólica: “Há uma reconstrução, sim, mas que também destrói: eu gostava muito, no Porto, das pequenas tascas de bairro, que agora encontro cada vez menos.”