Skepta

No tempo e no lugar certos

Nasceu Joseph Junior Adenuga em 1982. Figura de proa da cena grime, flirtou com o sucesso e sentiu que se perdia. Com Blacklisted e Konnichiwa redescobriu-se e transformou-se numa das vozes mais importantes da música britânica. De Londres para o mundo.

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Ouve-se e percebe-se que Skepta não podia andar feliz com aquilo em que ameaçava transformar-se. Ele, Joseph Junior Adenuga, filho do norte de Londres, bairro de Tottenham, estivera lá no início, nas produções difundidas em rádios pirata, nas batalhas de MCs marcadas para as ruas e espalhadas depois online. Joseph Junior Adenuga, Skepta como nome de guerra, estava lá no momento em que começava a fervilhar algo novo, o grime, ou seja, o hip hop a ramificar-se e transformar-se em expressão clara e indiscutivelmente britânica. Skepta estava lá, Skepta viu Dizzee Rascal ou Wiley transformarem-se em estrelas e viu também como o protagonismo mediático e o interesse da indústria discográfica começou a exercer o seu efeito, suavizando arestas, diluindo a vitalidade da cultura num mar de auto-tune mal amanhado ou de refrães genéricos de pop electrónica.

Skepta assistiu de perto a todo o processo. Skepta fez parte dele e é fácil perceber que não podia estar feliz. Basta ouvir, por exemplo, aquilo que é Rescue me, um dos singles que antecipou em 2010 o seu terceiro álbum, Doin’ it  Again. Uma guitarra acústica e um cantor a entoar versos de banalidade confrangedora, em confrangedor auto-tune, com uma penosa emotividade de concurso de talentos. Na canção, Skepta há-de surgir para rappar e resgatar alguma dignidade para a canção, mas o resultado, descontando possíveis saudosos dos Linkin Park, é esclarecedor – ali não se aprendia nada.

Não, Skepta não podia andar feliz. Esse, porém, não é o Skepta que dia 17 de Agosto, sexta-feira, actuará às 0h45 no palco principal de Vodafone Paredes de Coura. O ano passado, o festival teve na inglesa Kate Tempest a sua dose de realidade, sem subterfúgios, com poética hip hop a dar-nos conta de um mundo em tumulto. Este ano, teremos o também inglês Skepta para fazer o mesmo. “Não sou um rapper, sou um activista”. Assim se definiu o ano passado à Time  Out londrina. Está certo e errado. Skepta, nascido em Londres em 1982, filho de imigrantes nigerianos, é um rapper e um activista, e, neste momento, é-lhe impossível ser um sem ser o outro. “See, I  grew  up  in London / Where  the  oldest  talk / but  the  youngest  ain’t  listening”, dizia na primeira canção de Blacklisted, regresso em som e palavra às origens. Editado em 2012, foi o momento de viragem. O momento em que Skepta recomeçou a falar para todos ouvirem a sério.

No momento em que chega a Paredes de Coura é um dos maiores nomes da música inglesa. Considerado uma das vozes mais influentes do país, ajudou a colocar o grime no centro da cultura popular e a estender-se para além dela – Drake não esconde a sua admiração, Pharrell Williams igualmente. A sua relevância e credibilidade cresceu quando percebeu que não podia trair-se a si próprio. “Skepta traçou o seu sucesso sobrepondo a dignidade ao capital”, resumia o Guardian. Blacklisted foi o álbum catarse, o momento em que voltou a tomar controlo total das operações – nada de suavizar arestas, precisamente o contrário, o regresso aos ritmos sintéticos e ao minimalismo eficiente criado apenas com o estritamente necessário: as curtas linhas de piano, os sintetizadores de um futurismo desencantado e ameaçador, os beats secos, quais ecos dub reverberando pelas paredes dos gigantescos prédios onde a população se acumula, as rimas feitas retrato de um percurso de vida e da vida a que ele conduziu. “It’s  the  simple  life  that  I’m  dreaming  of / No more sleepless  nights  looking for the  way to survive”, anunciava então em Blacklisted: “Please, keep  it  simple, don’t act like a leech / I don’t wanna hear your ‘I’m  not a groupie, tell me your real name’ speech / My real name is Skepta, and I do this for my  niggas  that  breach / I do this for the  girl  with  green  eyes  sun bathing topless on a beach”.

No momento em que chega a Paredes de Coura, Skepta já editou o single That’s  not me, afirmação de independência pessoal e criativa chegada em 2014, já nos mostrou o portentoso Konnichiwa, álbum editado em 2016 que, com Corn  on  the  curb, Crime riddim, Man, Shutdown ou a supracitada That’s  not me, deu corpo definitivo ao desejo de criar música que reflectisse, em todos os aspectos, a cidade em que se move, Londres - os americanos Pharrell Williams e A$AP Nast surgem como convidados, mas são um entre iguais ao lado da comunidade grime presente, representada por Wiley, D Double E ou Novelist. É essa especificidade, essa ideia de lugar, essa identidade tão vincada, que fez os olhos e ouvidos de tantos, dentro e fora do Reino Unido, se virarem na sua direcção.

Ferozmente independente, depois do flirt mal sucedido com o jogo das multinacionais e da celebridade – “sem editora, sem relações públicas, sem publisher, sem manager, sem PA, sem designer de moda”, como lemos na biografia do irmão mais novo JME, co-fundador do colectivo responsável pelas edições de Skepta, Boy Better Know  -, e consciente do seu lugar e das suas convicções – “a internet fez com que passes por idiota perante todos se não mostrares compaixão por aquilo que não compreendes; antes as pessoas podiam contar piadas racistas ou sexistas e podiam ser homofóbicas, agora têm um perfil, têm um nome, sabemos o que andam a dizer” -, Joseph Junior Adenuga surge como figura maior da sua comunidade musical, como guia para quem chegou depois, como Stormzy, por exemplo, que vimos recentemente no Super Bock Super Rock. Assim o descreviam recentemente na imprensa britânica: “É um curador da identidade musical da cidade e uma figura de proa inconformada, sem medo de se erguer e de se destacar entre a multidão”.

“Entre 2012 e 2014, senti que me tornei verdadeiro. Concentrei-me em ser o Junior em vez de ser Skepta e foi assim que cheguei a That’s  not me. Já não tive que pensar em quem era. Foi um período importante para mim, fazer o Blacklisted”, confessava ao Guardian. “Foi o meu álbum da crise de meia-idade. Ouço-o e compreendo que foi ali que me fiz homem. É tudo emoção”.

O passo seguinte demorou três anos até ganhar a forma e o tom desejados. Quando chegou, era Skepta completo. Konnichiwa, o título, é uma saudação japonesa que significa “olá” ou “bom dia”. Desde Londres, Skepta para o mundo inteiro. Em boa hora chega a Paredes de Coura.