Reportagem

Às portas de Silves, Enxerim resistiu

As chamas a um metro das casas, as autoridades a retirarem a população, a ansiedade e o medo com o destino de aldeia… após horas de ansiedade, Enxerim regressou à vida.

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Rui Gaudencio

Do alto de Enxerim, por entre o casario baixo, tem-se uma vista deslumbrante sobre o castelo de Silves, cidade que está praticamente colada a esta povoação de uma só rua. Mas na quarta-feira à tarde as atenções estiveram viradas para a encosta oposta, por onde o fogo desceu até roçar as casas. Uma parte da população foi retirada e os bombeiros só conseguiram controlar a situação já perto das nove da noite, partindo de imediato para outra frente do incêndio, que voltou a ganhar força por entre os montes.

Em Enxerim, as chamas chegaram a estar a menos de um metro de algumas habitações. Ao fim da tarde, o combate ao incêndio fazia-se no pátio de uma casa, onde era grande a confusão de bombeiros, militares da GNR, médicos, jornalistas e mirones. “Malta, saiam daqui! Deixem os bombeiros trabalhar”, pedia um voluntário que ali andava, enquanto o fumo negro se erguia inclemente a pouquíssima distância, consumindo pasto e canavial.

Na açoteia estavam uns dez homens que se limitavam a olhar em volta, como que impotentes. O negrume cobriu toda a paisagem ao redor, a serra deixou de ser verde e as colunas de fumo tomaram o lugar das árvores. “Com o vento assim, eu esperava por isto”, desabafa Rosalina Marques, com os braços cruzados, enquanto meia dúzia de lágrimas lhe aparecem nos olhos. Ao longo do dia, o vento foi subindo de intensidade e mudou várias vezes de direcção, até bater à porta de Enxerim. Quando os bombeiros estavam a ir embora, o vento soprava forte da serra para o mar e o fumo crescia atrás dos montes.

O dia até tinha começado com a vaga promessa de que o incêndio, que lavra há sete dias, pudesse abrandar, mas pelas 15h tornou-se evidente que tal não iria acontecer. No alto da Fóia, a poucos quilómetros de Monchique, onde o fogo começou na sexta-feira, houve violentos reacendimentos a que as equipas do GIPS procuraram responder. Mal actuavam num local, despejando água e batendo no chão com utensílios próprios, logo corriam para outro, um pouco mais acima da encosta, onde a população civil não podia chegar. Por toda a estrada só se viam casas e restaurantes vazios, deixados à pressa com o fogo a aparecer. E, com o vento forte a fustigar as árvores, muitas caíram mesmo à beira do caminho.

O cenário repetia-se noutros locais do concelho, mas foi a aproximação a Silves que deu mais dores de cabeça às autoridades. Em Enxerim, foi pelas 18h30 que a GNR começou a pedir às pessoas para se irem embora. Muitas foram, mas hora e meia mais tarde a terra ainda estava cheia de gente. Dezenas de habitantes passaram todo o tempo a regar os telhados e as paredes das casas, outros tentaram reunir num saco os objectos básicos para levar na fuga. Pelas ruas circulavam cães à solta, que ninguém parecia saber de onde tinham saído.

“Esta noite nem dormi, nem fui à cama. De vez em quando vinha aqui ver. Às três horas da manhã pus-me aqui a ver o fogo. As labaredas estavam ali ao fundo”, conta Rosalina Marques, com o dedo apontado para a serra, uma distância que parecia segura. Ali perto, em duas ou três protuberâncias do terreno, bombeiros e população estão de vigia, para garantir que não vem aí nenhuma surpresa. Na noite de terça-feira, relata a moradora de Enxerim, “vinham os bombeiros daqui e dali e era eu que tinha de ir ao encontro deles dizer-lhes por onde é que haviam de ir para a frente”.

Um vizinho mete-se na conversa. “Eles vêm de longe e não têm ninguém que lhes diga os caminhos, como é que são os terrenos”, critica. Por isso é que o incêndio tomou tais proporções, opina este habitante de um monte fronteiro a Enxerim que tem um moinho no topo – e onde o fogo também passou perto.

“Eu enchi os baldes todos, todos, todos que eu tinha. Uns 20 e tal baldes. E pus duas mangueiras na rua para quem quisesse usar”, diz Rosalina Marques, a quem a GNR pediu para sair de casa. Recusou. “Eu gastei alguns sete mil euros depois do tornado de há três anos, levou-me um telhado de zinco e um abacateiro tão grande como um sobreiro, nunca mais o vi”, diz. Não lhe passou nunca pela cabeça ir embora. Tem respeito à força do vento por causa desse episódio, tão diferente do de agora, mas que mostra bem como ele pode ser um pesadelo.

Com o cair da noite, Enxerim ficou novamente uma terra pacata, mas o constante silvar de máquinas e carros de bombeiros nas redondezas tornou quase impossível qualquer descanso. “Se ontem não dormi, hoje faço ideia. É outra igual”, suspira Rosalina Marques.