Museu Britânico devolve artefactos ao Iraque e Chile pede estátua moai de volta

Algumas peças foram roubadas de um templo no Iraque, em 2003, depois da queda de Saddam Hussein. Na Ilha de Páscoa, uma das estátuas foi roubada pelos navegadores ingleses há 150 anos, para a oferecem à rainha Vitória.

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A estátua em exibição no Museu Britânico pertence às esculturas da Ilha de Páscoa, no Oceano Pacífico Arian Zwegers/WIKICOMMONS
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As escavações num templo em Tello, no sul do Iraque, de onde se acredita que terão sido levados os artefactos em 2003 MUSEU BRITÂNICO

É um dos mais antigos e visitados museus do mundo. O Museu Britânico, fundado em 1753, conta hoje com mais de oito milhões de antiguidades, das mais diversas e remotas culturas. Mas vê-se agora pressionado por alguns países para devolver vários artefactos da sua colecção. 

Ao Iraque serão devolvidas peças com cinco mil anos, roubadas em 2003, depois da queda de Saddam Hussein, anunciou esta quinta-feira o Museu Britânico. São oito pequenos objectos, entre os quais dois selos antigos, um pendente de mármore com a figura de um touro, pedras e três peças de cerâmica em forma de cone, com gravuras. Foram apreendidos pela polícia de Londres a um vendedor, que não sabia qual a sua origem, e depois encaminhados para uma equipa de especialistas do Museu Britânico que analisou as peças e concluiu que tinham sido roubadas do Iraque.

Algumas indicavam o nome do rei que as mandou fazer, Gudea, assim como o Deus a quem eram dedicadas, chamado Ningirsu (também conhecido por Ninurta), que era, na religião mesopotâmica, o Deus da antiga cidade de Girsu (hoje Tell Telloh) na Suméria, ligado à agricultura e às chuvas da Primavera. “O que é excepcional é que no momento em que a polícia enviou esses objectos para o Museu Britânico para os identificar, nós estávamos precisamente a revistar o templo de onde eles foram roubados”, disse à agência France-Presse (AFP) Sebastien Rey, que faz parte da equipa de arqueólogos do Museu Britânico que se encontrava a investigar esse mesmo templo, no Sul do Iraque.

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Uma das três peças em forma de cone, que faz parte da colecção a ser devolvida ao Iraque MUSEU BRITÂNICO

Passados 15 anos, os artefactos serão formalmente devolvidos esta sexta-feira ao embaixador do Iraque no Reino Unido, Salih Husain Ali, e depois enviados para o museu de Bagdad. Salih Husain Ali agradeceu ao Museu Britânico os “esforços extraordinários para identificar e devolver as antiguidades roubadas no Iraque”, cita a AFP. "Tal colaboração entre o Iraque e o Reino Unido é vital para a preservação e protecção do património iraquiano", sublinhou o embaixador.

O director do Museu Britânico, Hartwig Fischer, garantiu, segundo a estação BBC News, que a instituição está “absolutamente comprometida na luta contra o comércio ilícito e a danificação de património cultural”. 

Hoa Hakananai'a'a: “amigo oculto ou roubado”

Os residentes da Ilha da Páscoa têm vindo também a reunir esforços, agora apoiados pelo Governo do Chile, para recuperarem uma das estátuas daquela ilha, às quais chamam moais, que se encontra em exibição no Museu Britânico desde 1869.

Hoa Hakananai'a'a, que na língua dos habitantes de Rapa Nui (como os locais chamam à Ilha da Páscoa) significa, segundo informação disponível no site do Museu, “amigo oculto ou roubado”, é o nome da estátua, que tem 2,4 metros de altura. É diferente das mais de 900 esculturas que ainda permanecem em Rapa Nui, isto porque é feita de basalto quando a maioria das outras estátuas é feita de tufo vulcânico. Além disso, possui símbolos esculpidos associados a Tangata Manu (homem-pássaro), um título atribuído ao vencedor de uma antiga competição tradicional da Ilha da Páscoa. “Dos 14 moais que estão identificados fora da ilha, este é o mais importante”, explica Felipe Ward, ministro do Património Nacional do Chile citado pelo diário espanhol El País. “Foi retirado [do local de origem] em circunstâncias questionáveis pelos navegadores europeus”, acrescentou.

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A estátua em exibição no Museu Britânico pertence às esculturas da Ilha de Páscoa Arian Zwegers/WIKICOMMONS

Em Julho, o presidente do Conselho de Anciãos de Rapa Nui, Carlos Edmunds, junto com quatro membros da Comissão de Desenvolvimento da Ilha da Páscoa, entregaram uma carta a Felipe Ward. “Como representantes do povo Rapa Nui, vimos solicitar os seus bons ofícios para que o Governo do Chile possa iniciar negociações com o Reino Unido com o objectivo de recuperar o nosso moai e o devolver à sua terra”, sublinha o documento. Caso seja aceite, a sua repatriação seria um “símbolo importante para encerrar o triste capítulo de violação dos nossos direitos pelos navegadores europeus” que chegaram àquela ilha no século XIX, diz a carta citada pelo mesmo diário espanhol.

Há 150 anos, a tripulação da Marinha Real Britânica, a comando do capitão Richard Powell, desembarcou na Ilha da Páscoa e retirou a estátua da aldeia de Orongo, um centro cerimonial no sul de Rapa Nui, que depois levou para o Reino Unido para a oferecer à rainha Vitória. Em 1869, foi doada ao Museu Britânico, onde passou a estar em exibição.

“Solicitou-se, em várias ocasiões, o retorno do moai, embora não formalmente. As autoridades do museu, no entanto, responderam sempre que este está melhor em Londres do que em qualquer outro lugar”, revela Felipe Ward. Porém, o ministro garante que as condições para a conservação do monumento estão asseguradas desde que a comunidade indígena polinésia Ma'u Henua assumiu a administração e preservação do parque nacional Rapa Nui. Assegura ainda que o Governo chileno está a desenvolver, junto com a comunidade, um plano de restauração do parque. “É um museu ao ar livre, e o moai que hoje está em Londres poderia, sem dúvida, estar melhor em Rapa Nui”, conclui Ward. O documento a solicitar a devolução da estátua à Ilha da Páscoa será entregue na próxima semana ao Ministério das Relações Exteriores do Chile, que irá entrar em negociações com o museu de Londres. 

A Ilha da Páscoa, situada no Oceano Pacífico a 3700 quilómetros da costa chilena, foi descoberta pelos europeus em 1722 e visitada várias vezes, antes de ser anexada pelo Chile em 1888. Além do seu valor inestimável, existe uma outra razão, sugere o diário britânico The Guardian, para a população desejar o retorno da estátua à sua terra: a força espiritual que protege os habitantes da ilha residiria nos moais e noutros objectos sagrados.

Texto editado por Nicolau Ferreira