Hong Sangsoo no hotel das barafundas

Com Locarno 2018 a aproximar-se do fim, o novo filme do realizador sul-coreano, Hotel by the River, é o bálsamo de que uma competição abaixo da média precisava e um candidato instantâneo ao Leopardo de Ouro.

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Hotel by the River é um dos melhores filmes de Hong Sangsoo DR

Que o sul-coreano Hong Sangsoo tenha mais um filme num festival não é surpresa nenhuma, até porque Hong filma como quem lava os dentes. Além do mais, não foi assim há tanto tempo que Sítio Certo, História Errada venceu o prémio máximo de Locarno (e depois disso já fez óptimos filmes como O Dia Seguinte, Claire’s Camera e Grass). Mesmo que o novo Hotel by the River, com estreia mundial em Locarno 2018, fosse apenas Hong em piloto automático (e é muito mais do que isso), já se ergueria acima de uma selecção que, apesar de Ray & Liz, de Richard Billingham, ou M, de Yolande Zauberman, tem estado em “ano não” – não se percebe, por exemplo, o que veio fazer ao concurso internacional Glaubenberg, do suíço Thomas Imbach, história de incesto familiar que parece só ter agradado aos “nativos”. Ou Genèse, do canadiano Philippe Lesage, interminável saga de entrada na idade adulta entre os adolescentes benzocas do Quebeque que nunca nos consegue interessar pelos problemas românticos das suas personagens. Ou Menocchio, do italiano Alberto Fasulo, sobre um moleiro de uma aldeia montanhosa italiana apanhado nas garras da caça fundamentalista aos “hereges” no século XVI, “filme de tema” que não entusiasmou ninguém.

Houve, ainda assim, espaço para uma pequena surpresa asiática com A Land Imagined, de Yeo Siew Hua. Neo-noir insone cujo onirismo nocturno o torna ainda mais néon-noir, é uma peculiar variação sobre o Chinatown de Roman Polanski ambientada numa Singapura que passa o tempo a reclamar terra ao mar, território simultaneamente imaginado e imaginário, construído a partir do zero por gente vinda de todo o lado, com materiais vindos de todo o lado. A areia vem da Malásia e do Vietname e do Camboja, os operários da China e do Bangladesh – e o desaparecimento de um operário chinês lança uma investigação que parece estar constantemente em loop temporal entre o passado e o presente, com o inspector responsável e o operário desaparecido estranhamente ligados através dos sonhos ou do mundo virtual da Internet. As intimações do filme negro funcionam às mil maravilhas com o lado de suspensão atmosférica dado pela câmara de Hideko Urata e pela montagem de Daniel Hui (o autor da surpresa do Doclisboa que foi Snakeskin), sublinhando ao mesmo tempo a dimensão política de uma história que questiona igualmente como a expansão do território de Singapura parece excluir os “outros” que o constroem.

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A Land Imagined DR

A mesma ideia de loop temporal surge num outro filme asiático apresentado na competição paralela Cineasti del Presente, Suburban Birds, desigual primeira longa do chinês Qiu Sheng, onde um engenheiro que investiga desabamentos de terras encontra numa escola muito parecida com a sua própria escola o diário de um adolescente que parece reflectir a sua própria vida. Tudo muito curioso, mas a esgotar-se muito rapidamente no seu próprio formalismo, com o cruzamento de memórias, realidade e ficção contado entre a câmara à mão e planos fixos com recurso ao zoom rápido – à la Hong Sangsoo – de modo sistemático.

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Suburban Birds DR

Talvez por isso o próprio não recorra assim tanto ao zoom em Hotel by the River. Já sabíamos que o cinema de Hong funciona muito por “acumulação” de referências – quantos mais filmes se virem mais se consegue apreciar os jogos formais e narrativos de um cineasta que parece estar sempre a fazer variações sobre o tema. Mas algo parece ter mudado: Grass, que esteve no Festival de Berlim deste ano, tinha algo de “resumo”, “síntese” ou “súmula” da sua obra. Hotel by the River, rodado a preto e branco com apenas seis actores da sua companhia recorrente, parece anunciar a espaços os truques habituais do realizador – a ideia de que tudo pode não passar de uma “invenção” ou de uma “história” contada pela personagem principal, ou que vamos ver a mesma história de pontos de vista diferentes – para logo a seguir nos dizer: “Ah era disso que estavam à espera? Pois desta vez não é nada disso.”

A tradicional colossal bebedeira de soju ocupa muito menos tempo de projecção (há muito café, no entanto, e até queijo e vinho), e as tentativas de sedução do artista em crise não levam a relações nem sequer a engates de uma noite. E é verdade que este hotelzinho à beira-rio é local de mil barafundas, com um lado de comédia de enganos – o poeta em crise existencial combina encontrar-se com os seus dois filhos e passam o tempo a desencontrar-se, ao mesmo tempo que a amiga de uma simpática hóspede que veio lamber as feridas de uma relação amorosa percebe que esteve num acidente com o carro de um dos filhos do poeta.

Mas, como dizíamos, algo mudou no cinema de Hong. Os desencontros acabam por não levar a lado nenhum, e esta história de um poeta que parece estar a despedir-se da vida, que nunca se entendeu com a mãe dos seus filhos (que o considerava “um monstro sem qualquer virtude humana redentora”), tem uma outra gravidade, um outro peso existencial. Parece ter passado o tempo dos jogos de amor e sedução, substituído por uma meditação sobre a vida, sobre o que vale a pena realmente e o que resta quando tudo acabou, em tom menor, melancólico, arrebatadoramente tocante. Não se enganem: Hotel by the River é visivelmente um filme de Hong Sangsoo, uma miniatura de emoções, mas não é o mesmo filme do costume de Hong Sangsoo. Para nós, é um dos seus melhores de sempre – e, de muito longe, o melhor que vimos até agora na competição de Locarno, candidato instantâneo ao Leopardo de Ouro. Mesmo que ainda falte falar de La Flor, de Mariano Llinás – mas isso fica para outra crónica.

O PÚBLICO está em Locarno a convite do Festival de Locarno