Combater alterações climáticas e incêndios? A gestão florestal é o caminho

Estudo com investigadora portuguesa evidencia a importância das florestas no combate às alterações climáticas – mais do que outras alternativas para capturar carbono da atmosfera. O ideal é gerir e preservar as florestas, o que é crucial para evitar incêndios.

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O incêndio de Monchique queimou mais de 21 mil hectares de floresta Rui Gaudêncio

Terão os incêndios de Monchique sido alimentados pela acumulação de resíduos e por uma má gestão florestal? “Basta haver condições meteorológicas favoráveis para termos incêndios, que são tanto maiores quanto mais combustível houver para arder. A zona de Monchique ardeu em 2003 e, agora, 15 anos depois, volta a arder porque é o tempo que a vegetação leva a crescer”, responde afirmativamente a investigadora Ana Bastos ao PÚBLICO. A portuguesa é autora de um estudo publicado na revista científica Nature Communications, que defende a importância da protecção das florestas não só para reduzir a intensidade dos incêndios, mas também para combater o aumento da temperatura global do planeta.

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A investigadora da Universidade de Munique, Ana Bastos DR

Isto porque uma das soluções apontadas para mitigar o aumento de temperatura passa pela remoção de dióxido de carbono da atmosfera, o que é possível através de centrais de energia de biomassa com captura e armazenamento de carbono (ou BECCS, acrónimo em inglês). Apesar do longo nome, a sua função pode ser resumida como a produção de energia através da queima de biomassa, que pode ser composta por resíduos florestais ou agrícolas, acumulando o dióxido de carbono em reservatórios selados, “o que faz com que esse carbono não volte à atmosfera durante algumas centenas de anos”, explica Ana Bastos, que é investigadora da Universidade de Munique, Alemanha. 

Mas o problema destas centrais é que criá-las para cumprir o Acordo de Paris (explicado mais abaixo) implicaria a conversão de grandes extensões de terreno para produzir biomassa. O terreno ocupado “teria o dobro do tamanho da Índia” e tiraria espaço a zonas de cultivo, que por sua vez tornaria necessário “cortar floresta para plantar zonas agrícolas de BECCS”. Por isso, para este grupo de investigadores de universidades do Reino Unido, EUA e Alemanha, estas centrais não são viáveis a grande escala, ainda que funcionem como retentoras de dióxido de carbono e fontes de energia. O objectivo do estudo, ressalvam, não é vilipendiar as BECCS, mas apenas mostrar que há zonas em que não é vantajoso aplicá-las e que os projectos devem ser feitos com prudência.

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Exemplo de biomassa João Matos

Ao fim de alguns anos, segundo os cenários simulados pelos cientistas, tudo isto seria contraproducente e resultaria num aumento das emissões de dióxido de carbono. A melhor opção é mesmo proteger as florestas, que “acumulam mais carbono no longo prazo” e exigem menos transformações do solo.

“É ter uma floresta gerida de forma a recolher os resíduos para queimar nas tais centrais e produzir energia”, explica a investigadora. O que seria uma fonte de benefícios: “A gestão das florestas para produção de bioenergia, por exemplo, compensaria a emissão de combustíveis fósseis e, além disso, preveniria a ocorrência de incêndios desta magnitude como acontece em Portugal, já que são recolhidos os resíduos florestais.”

“Pegada de carbono gigantesca”

“As florestas são o maior reservatório de carbono activo que temos”, mas quando ardem tornam-se parte do inimigo: “Quando há incêndios, esse reservatório é emitido directamente para a atmosfera”, explica a investigadora. “Quando deixamos que estes incêndios aconteçam, estamos a ter uma pegada de carbono gigantesca a nível nacional. É a biodiversidade, é a vida das pessoas, mas é também o impacto que temos no ciclo de carbono e a contribuição para as alterações climáticas.”

Ana Bastos, que analisou os incêndios de Monchique de 2003 quando estudava na Universidade de Lisboa, reconhece que “a zona do Mediterrâneo sempre teve e sempre terá incêndios porque o nosso clima tem Verões quentes, secos, com ventos fortes” e que tudo isso é agravado pela fraca gestão dos territórios.

“Já começamos a ter bem presente que muitos dos fenómenos extremos que têm ocorrido têm uma marca humana”, acredita Ana Bastos, dando como exemplo as ondas de calor prolongadas, as secas intensas e frequentes, os incêndios na Califórnia e no Mediterrâneo.

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Monchique RUI GAUDÊNCIO

É para travar essas consequências nefastas que foi estabelecido o Acordo de Paris. O compromisso foi assumido por 195 países (ainda que os EUA tivessem anunciado a sua saída em 2017) para conter o aquecimento global do planeta ao reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, limitando a subida da temperatura bem “abaixo dos dois graus Celsius” e a prosseguir esforços para “limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus Celsius” até 2100 em relação aos níveis pré-industriais. O acordo prevê também a protecção dos sistemas naturais, incluindo florestas, uma vez que conseguem remover dióxido de carbono da atmosfera.

“É importante perceber que nós agora estamos a viver mais um grau Celsius acima da temperatura média global de 1850”, explica a investigadora. “E quando falamos de mais 1,5 ou dois graus estamos a falar de uma amplificação desse tipo de fenómenos [como secas e incêndios] e de um aumento de temperatura média global, mas que em Portugal provavelmente será muito maior.”

“Quanto mais pudermos fazer para manter o dióxido de carbono o mais baixo possível, melhor”, conclui Ana Bastos. “Isso implica uma gestão activa das florestas, de maneira a garantir que cumprem o seu serviço de captura de carbono.”