Reportagem

O fogo parece ter memória, mas os homens não

Em Monchique, os erros do passado repetiram-se. As chamas estão a percorrer os mesmos lugares dos incêndios ocorridos em 2003, 2004 e 2006. Na Serra de Monchique, o cenário é escuro e desolador.
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O fogo ganhou asas e saltou, sem barreiras, de Monchique para os concelhos vizinhos de Silves e Portimão. A humidade que caiu na terça-feira à noite favoreceu o combate, mas os ventos podem provocar uma reviravolta na situação. Ao fim de cinco dias no terreno, os bombeiros começam a ficar exaustos — pelo combate às chamas mas também pela falta de alguma coordenação no comando. Na operação estão empenhados mais de 1283 operacionais, apoiados por 401 veículos e 13 meios aéreos. O presidente da Câmara Municipal de Monchique, Rui André, desabafa: “Temos de acabar rapidamente com este inferno."

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O fogo parece ter memória, mas os homens não aprendem com os erros do passado. Esta uma das conclusões que se podem tirar. As chamas que lavram desde sexta-feira ao princípio da tarde estão a percorrer as mesmas zonas que tinham sido atingidas pelos grandes de incêndios ocorridos em 2003, 2004 e 2016. A novidade foram as medidas de prevenção — só no concelho de Monchique foram abertas faixas de gestão de combustível, com 250 quilómetros. Tudo o resto veio ao de cima. Os telefones ficaram mudos, e a rede de internet desapareceu. Uma das empresas de telecomunicações, a Altice, foi impedida pela GNR de passar com a viatura que transportava o equipamento para reparar e substituir os aparelhos danificados pelo fogo. “Só há ordem para deixar circular veículos prioritários”, justificou o agente da autoridade. O bloqueio viria a ser levantado, decorridas meia dúzia de horas, após uma intervenção do presidente da câmara, justificando a necessidade de dar prioridade ao restabelecimento das redes de comunicação. 

A população de Monchique está habituada a lidar com os fogos de Verão e as cheias de Inverno, mas cada vez que surge uma catástrofe parece sempre maior do que anterior: “Nunca se viu uma coisas destas”, é o que mais se ouve. “Perdi tudo, só fiquei com a roupa que tinha vestida e mais duas ou três peças que tenho na mala”, lamenta Mariette, uma cidadã suíça que vive em Monchique há 40 anos. A sua casa, no sítio do Barranco dos Pisões, ficou completamente destruída. E não foi por falta de cuidado: “Mandei limpar tudo em redor”, enfatiza.

Os guardas da GNR, relata, chegaram ao monte e ordenaram: “Tem de fugir." A mulher obedeceu e arrancou de carro para lugar seguro. “A minha bonita casa, de madeira, desapareceu”, lamenta. Ontem, dois dias após a tragédia, no reencontro com uma amiga francesa, as palavras de desolação foram substituídas pelas lágrimas. Mariette, de olhar pousado na paisagem, negra e cinzenta, diz: “Não quero pensar no que aconteceu.”

A amiga Evilinne, ofereceu-lhe alojamento  e apoio moral: “Coitada, estamos muito aborrecidas." A casa de Evilline, no sítio da Palmeira, ficou intacta.” Os meus cavalos é que ficaram a sofrer, a GNR mandou-me sair, mas nada fez para resgatar os animais que ficaram presos”, diz.

As localidades de Casais e Marmalete, atingidas nos incêndios de 2003, 2004 e 2016, ao quinto dia de incêndio, não escaparam. No concelho de Silves, Falacho também está a arder. Na frente oeste, o fogo deslizava ontem à noite pelo vale do Rasmalho, em direcção a Portimão. Poucas são as bolsas de carvalhos e outras espécies raras que ficaram intactas no concelho de Monchique. Do alto das montanhas, olhando no ângulo de 365 graus, o que se observa é uma paisagem de terra queimada e árvores carbonizadas. Perto da barragem de Odelouca, Maria da Conceição Afonso, de 62 anos, procura na terra queimada, manchas de pasto para o gado. A casa, no sítio do Zebro, escapou às chamas, mas o tractor ardeu.

Subindo pela estrada, rumo a Alferce, a meia dúzia de quilómetros de distância da sede da freguesia, encontra-se uma casa de tecto caído. Tudo em redor está queimado. O proprietário foi levado para o centro de assistência social, em Silves. Ficaram na rua os três cães, com uma bacia com água. À entrada, o animal mais velho ladra, como se estivesse a pedir ajuda. O mais jovem abana o rabo e pede festinhas. Nas redondezas não há quem responda, nem sinais de vida. O quadro repete-se noutros lugares, e noutros momentos, pela serra de Monchique. As pessoas foram levadas, para evitar perda de vidas humanas, como sucedeu o ano passado em Pedrógão, mas as animais ficaram esquecidos. A veterinária municipal, Ana Silva, comenta: “Deviam dar formação à GNR para que soubesse lidar com as pessoas e os animais, nestas situações de stress. Tem de haver civismo, e não é isso que tenho encontrado”, diz 

À entrada da freguesia de Alferce, está uma mulher indignada: “Quem salvou a minha casa, foi o meu filho – a GNR só nos mandou ir embora." Saiu com o marido numa carrinha. O filho, mecânico, residente em Portimão, veio procurar salvar os bens. A electricidade estava cortada e não havia maneira de puxar água do furo com a bomba, para apagar as chamas. O que valeu foi um tanque que existia nas proximidades: “O meu filho, com água tirada a baldes do tanque, substitui os bombeiros.". Para matar a sede, diz, “valeram-lhe as melancias que eu tinha semeadas, porque a água do tanque não servia para beber”.