Com Pablo Casado, futuro do Partido Popular passa para as mãos dos tribunais

O caso do “mestrado” novo líder cria incerteza e pode paralisar a maior formação da oposição durante meses

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Pablo Casado arrisca-se à agonia de ser um líder em descrédito FERNANDO ALVARADO /EPA

Uma vez mais, a política espanhola está refém dos tribunais. Pablo Casado, recém-eleito Presidente do Partido Popular (PP), poderá ficar politicamente neutralizado durante semanas ou, mais provavelmente, meses, numa altura crucial para o seu partido. Na segunda-feira, a juíza de instrução Carmen Rodrígues-Medel decidiu fazer seguir as suspeitas de que obteve o seu mestrado de forma fraudulenta para o Supremo Tribunal, o que constitui um forte golpe na credibilidade do líder do PP.

O caso passa para o Supremo porque Casado goza de imunidade parlamentar e só o mais alto tribunal o pode investigar. A magistrada entendeu que o alegado mestrado feito na Universidade Rei Juan Carlos terá sido uma “prenda” oferecida a Casado, no ano lectivo de 2008-2009, quando ele era deputado autonómico em Madrid. A juíza viu “indícios de criminalidade”, de “prevaricação administrativa” e “suborno”.

Casado foi dispensado de ir às aulas e teve apenas de apresentar trabalhos escritos em quatro das 22 cadeiras. Fê-los em 15 dias, o que a juíza considerou estranho, e obteve a classificação máxima. Isto enquadra-se num esquema em que um catedrático da universidade convidava “alunos VIP” a fazerem mestrados expeditivos. A primeira figura política a cair foi Cristina Cifuentes, presidente da Comunidade de Madrid.

Casado nega quaisquer irregularidades e alega não ter sequer recebido um diploma. Argumenta que não tem qualquer mestrado e que os cursos eram uma etapa preparatória para um doutoramento de que desistiu por “falta de tempo”. No entanto, ostentou o título no gordo currículo que apresentou no Parlamento.

O presidente do PP garante que não se demitirá e que o alegado mestrado é um “facto irrelevante”. Mas o processo no Supremo pode arrastar-se por três meses ou mais. A primeira decisão do tribunal será averiguar o presumível delito está ou não prescrito. Se for dado como prescrito, o processo acaba. Mas as suspeitas de “prevaricação” e “suborno”, invocadas pela juíza, poderão jogar no sentido oposto, adiando a prescrição para 2019.

Se se confirmarem os “indícios de delito”, o Supremo designará um juiz instrutor para investigar o caso. Se tal acontecer, Casado deverá pedir para ser ouvido. Só passa a ser imputado se o Supremo pedir ao Congresso o levantamento da sua imunidade parlamentar. “O que equivaleria praticamente à sua morte política”, anota um jornalista.

Efeitos políticos

Depois da sua eleição, em 22 de Julho, Casado deu sinais de pretender fazer uma viragem à direita para efeitos eleitorais. O inquérito de Julho do Centro de Investigações Sociais (CIS), realizado no momento mais “negro” do PP e na “lua de mel” de Pedro Sánchez, dava aos “populares” o pior resultado de sempre, 20,4%, e colocava o PSOE no topo, com 29,9. Para alguns analistas estes números marcariam “o tecto” do PSOE e o mínimo do PP. Com quatro partidos em cena, é irrealista que qualquer deles supere os 30% e tenha veleidades de uma maioria absoluta. O bipartidismo acabou. O que está por definir é quem será governo e com que alianças.

O Outono será portanto um momento político decisivo. Não se exclui sequer a hipótese de Sánchez ser levado a antecipar as eleições para Outubro ou Janeiro, de forma a evitar o desgaste de um governo bloqueado no Congresso.

O PP tem urgência em definir a sua estratégia e de restabelecer a coesão interna após a desorientação e a divisão nas primárias. O PSOE e o PP preparavam-se para tentar um realinhamento das forças políticas espanholas. Têm um interesse comum em reduzir o espaço do Cidadãos e do Podemos. Mas todos os cálculos podem ser desfeitos pelo “caso Casado”.

Disse alguém que, na Espanha, há muito que desapareceu a presunção de inocência para os políticos. Pablo Casado arrisca-se a uma prolongada agonia, a de um líder sob suspeita e com escasso crédito.