Antigo braço direito de Manafort diz que cometeu crimes a seu pedido

Rick Gates não só incriminou o seu antigo chefe, com quem trabalhou na campanha de Donald Trump, como admitiu ter também desviado dinheiro.

Paul Manafort (à esquerda) e Rick Gates tinham uma parceria de sucesso a aconselhar políticos
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Paul Manafort (à esquerda) e Rick Gates tinham uma parceria de sucesso a aconselhar políticos Reuters/JOSHUA ROBERTS

Durante mais de uma década, Paul Manafort e Rick Gates formaram uma das duplas mais bem-sucedidas no competitivo mundo da consultoria política. Mas a confissão de Gates na segunda-feira, em pleno tribunal, de que cometeu crimes a pedido do seu ex-chefe parece ter posto um ponto final na amizade e tornado ainda mais complicada a vida do antigo director de campanha de Donald Trump.

Duas respostas positivas marcaram o interrogatório de Gates, a testemunha-chave do julgamento de Manafort, acusado de 18 crimes financeiros. “Envolveu-se em alguma actividade criminosa com o senhor Manafort?”, começou por inquirir o procurador Greg Andres. “Cometeu algum crime com o senhor Manafort?”, continuou.

O julgamento que decorre em Alexandria, na Virgínia, é o primeiro que põe Manafort no banco dos réus desde que o procurador-especial Robert Mueller lançou uma investigação para saber se houve algum tipo de conluio entre a campanha de Trump e o Governo russo. Este caso está fora do âmbito da investigação de Mueller, mas o seu desfecho será relevante para estabelecer que tipo de ligação tinha o ex-chefe da campanha de Trump e vários oligarcas ucranianos com boas relações com o Kremlin.

O julgamento incide sobre as acusações de que Manafort não declarou milhões de dólares que recebeu enquanto trabalhou para o ex-Presidente ucraniano Viktor Ianukovich, que ajudou a eleger em 2010 – e que quatro anos depois seria deposto na sequência de uma revolta popular.

Ao longo da sua intervenção, Gates confirmou que durante os anos em que trabalhou com Manafort, sobretudo ao serviço das campanhas eleitorais na Ucrânia, ajudou-o a cometer várias ilegalidades no âmbito fiscal. Os dois consultores abriram 15 contas em bancos fora dos EUA sem comunicar às autoridades fiscais norte-americanas, com o objectivo de não declarar os seus rendimentos.

De forma ainda mais surpreendente, Gates confessou ele próprio ter falsificado recibos de despesa que apresentou a Manafort para desviar dinheiro para o próprio bolso, em somas que ascenderam a “várias centenas de milhares de dólares”, de acordo com o consultor.

Durante três meses em 2016, Manafort e Gates estiveram à frente da campanha de Donald Trump, e é esse período que interessa à investigação de Mueller sobre se houve realmente algum tipo de conivência com o Governo russo. Foi nesta altura que Manafort participou na célebre reunião na Trump Tower com um grupo de pessoas com ligações ao Kremlin que se mostraram dispostas a fornecer informações comprometedoras sobre a adversária de Trump, Hillary Clinton.

Manafort acabou por ser demitido da campanha a poucos meses das eleições presidenciais, mas Gates chegou a integrar a equipa de transição de Trump – foi nesta altura que membros deste grupo se reuniram com o então embaixador russo em Moscovo, Serguei Kisliak.

Trump tem-se mostrado cada vez mais incomodado com as ramificações da investigação de Mueller. Quando o julgamento de Manafort começou, na semana passada, o Presidente norte-americano pediu ao procurador-geral Jeff Sessions que “ponha fim” àquilo que qualifica como “caça às bruxas”.

Manafort irá ainda responder num segundo julgamento, com início marcado para Setembro em Washington, por acusações de ter violado uma lei que o obrigaria a registar-se como lobista ao serviço de um Governo estrangeiro, obstrução à justiça e conspiração para lavar dinheiro, entre outras.