Tourada

Arruda dos Vinhos candidata tertúlias móveis a património nacional

O dia 14 de Agosto passa, a partir deste ano, a ser conhecido como “O Dia das Tertúlias Móveis” nas festas anuais da vila em Honra de Nossa Senhora da Salvação
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Arruda dos Vinhos tem muitas tradições no campo da tauromaquia, tal como dezenas de outros concelhos espalhados sobretudo pelo centro e sul do país. Mas neste concelho do Oeste, vizinho da aficcionada Vila Franca de Xira, há uma tradição completamente distinta de todos os outros: existem onze tertúlias tauromáquicas móveis, que somam já cerca de 1500 associados. E são tertúlias móveis porque funcionam, todas elas, em antigos autocarros recuperados e adaptados para o efeito. Começou tudo em 1979 e, desde então, esta vertente muito própria da vida de Arruda não tem parado de crescer, ao ponto da câmara local se preparar para inaugurar um monumento alusivo e ir candidatar as tertúlias móveis e os festejos taurinos locais a património nacional.

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No dia 14 de Agosto, uma delegação de autarcas e de dirigentes de tertúlias vai estar na Direcção-Geral do Património Cultural (DGPC) para entregar o dossier de candidatura das tertúlias móveis e dos festejos taurinos arrudenses a integrarem o Inventário do Património Imaterial Português. Este dia passa, a partir deste ano, a ser conhecido como O Dia das Tertúlias Móveis nas festas anuais da vila em Honra de Nossa Senhora da Salvação. E, para além de um almoço convívio e da habitual largada de touros nas ruas da vila, há também a inauguração de um monumento na rotunda que liga a Estrada Nacional 248-3 à auto-estrada 10.

“As tertúlias móveis é um fenómeno que se vê sobretudo em Arruda dos Vinhos. Há várias tertúlias tauromáquicas noutros locais e noutros eventos semelhantes a este, mas não são móveis”, sublinha Mário Anágua de Carvalho, vereador da câmara, frisando que o dossier de candidatura foi preparado ao longo de mais de um ano, com a recolha de muita informação sobre o historial e o funcionamento destas tertúlias móveis.

“Entendemos que pela singularidade das tertúlias móveis e dos festejos taurinos populares que se realizam em Arruda, pelo seu significado e pela sua originalidade a nível nacional, faz todo o sentido apresentarmos esta candidatura a Património Cultural Imaterial. As largadas de touros têm pelo menos 500 anos em Arruda. Há registos da sua realização quando o Rei D. Manuel I aqui esteve (refugiado da peste que assolava Lisboa). As tertúlias móveis são uma tradição mais recente, mas as largadas ganharam outra dimensão com o desfile e com o colorido das tertúlias móveis”, sustenta, por seu turno, André Rijo, presidente da câmara de Arruda, considerando que esta será uma forma de preservar e de valorizar mais estas tradições do concelho.

Origens em 1979     

A primeira tertúlia móvel surgiu em Arruda em 1979, quando um grupo de amigos resolveu recuperar e pintar um velho autocarro e colocá-lo dentro do recinto das largadas de touros, no centro da vila. Nasceu, assim, a “Tertúlia Ambulante”. A ideia pegou e, nestes 39 anos, já foram criadas mais dez tertúlias ambulantes em Arruda, todas fruto da recuperação e adaptação de antigos autocarros, que são decorados e preparados para receber dezenas de convivas e de amigos convidados. Muitas delas estão dotadas também de fogareiros gigantes onde se assam a carne e o peixe, de frigoríficos para as bebidas, de televisores, de mesas e dos mais variados apetrechos característicos de uma tertúlia. Todos os anos, as onze tertúlias desfilam pelas ruas da vila e estacionam na Rua Cândido dos Reis, dentro do recinto das largadas de touros, que são, assim, vividas de maneira diferente numa relação directa com estas tertúlias ambulantes.

Nos últimos anos, o entusiasmo em torno das tertúlias móveis tem crescido bastante, assim como o número de associados. António José Narciso, presidente da tertúlia “Amigos da Galera” é, este ano, o porta-voz das tertúlias móveis arrudenses. “Penso que todas estas iniciativas valorizam as tertúlias de Arruda, que continuam a atrair muita gente. Em certos momentos não conseguimos mesmo deixar entrar mais ninguém, porque não temos espaço para mais”, constata, sublinhando que há também muitos jovens a envolverem-se e a renovarem o funcionamento destas tertúlias. “Há cada vez mais jovens dentro das tertúlias, o que é muito bom e permite manter esta dinâmica. Começou tudo em volta das largadas de touros, mas acho que já vai muito para além dos touros. Não faria sentido que houvesse tertúlias se não houvesse touros, mas creio que as tertúlias são cada vez mais espaços de amizade e de convívio entre as pessoas”, conclui.

Certo é que, para além das largadas de touros e do almoço convívio, o programa das Festas de Agosto ligado às tertúlias já é muito mais vasto. Este ano integra, ainda, a apresentação das t-shirts de cada uma das onze tertúlias para 2018, jogo de futebol, missa e vários momentos de animação musical. Nalguns casos, as actividades assumem o objectivo de angariar fundos para os Bombeiros locais.  

Monumento na rotunda da A10 

Durante esta edição 2018 das Festas de Arruda será inaugurada, na rotunda de acesso à 10, junto à localidade de À-do-Barriga, a cerca de 1,5 quilómetros de Arruda, um monumento alusivo às tertúlias móveis. Trata-se de um antigo autocarro de onze metros cedido pela empresa Barraqueiro, que tem sido decorado de acordo com o espírito das tertúlias móveis, que será colocado no interior da rotunda, juntamente com algumas figuras alusivas às largadas. “Será uma réplica de uma tertúlia móvel, um autocarro transformado que ali irá ficar”, simbolizando tudo o que se passa aqui nestes dias no recinto das largadas. É um autocarro decorado. Temos dois artistas a transformar o autocarro e a adaptá-lo ao que é uma tertúlia. E vamos ter figuras que simbolizam o movimento das próprias largadas, também com uma réplica de um toiro”, explica Mário Anágua de Carvalho.