Opinião

Disrupção tecnológica e trabalho: uma dupla (in)conciliável?

A 4.ª revolução industrial terá certamente um impacto severo na forma como nos organizamos enquanto sociedade.

O início da silly season trouxe para a discussão pública a problemática do horário de trabalho semanal e o “severo” impacto que uma alteração às “imutáveis” 40 horas teria na sobrevivência deste “retângulo à beira mar plantado”.

Não querendo, numa ótica de curto prazo, menosprezar a importância desta questão, estranho o facto de não se dar pelo menos a mesma importância à profunda disrupção tecnológica a que estamos a assistir (revolução 4.0) e que, num futuro não muito longínquo, nos colocará uma questão bem mais complexa: teremos trabalho?

Quando analisamos a história nos últimos 300 anos, constatamos que as revoluções industriais anteriores conduziram à destruição de inúmeros empregos nos setores afetados pelos processos de automação, gerando enormes preocupações e até a revolta, como é exemplo histórico o movimento de trabalhadores ingleses do ramo da fiação e tecelagem (movimento ludista) que, no início do século XIX, se notabilizou pela destruição de máquinas como forma de protesto contra as novas tecnologias.

Contudo, a realidade veio a demonstrar que as melhorias tecnológicas criaram pelo menos tantos empregos como aqueles que destruíram, com mais qualidade e valor acrescentado e, na maioria das vezes, menos perigosos do que os anteriores.

De igual forma, as revoluções industriais anteriores permitiram (implicaram?) uma alteração profunda na relação trabalho/lazer, em claro favor do segundo. Com efeito, o número de horas de trabalho decaiu de forma significativa nos últimos 150 anos enquanto o número de dias de férias e feriados subiu de forma significativa.

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A título de exemplo, em 1870 um trabalhador do “Velho Mundo” (i.e., Europa) trabalhava em média 3063 horas por ano (64,4 horas por semana) e no ano 2000 esse valor era de 1868 horas (36,4 horas por semana), ou seja, menos 39% de tempo de trabalho. Com tendência inversa, o número de dias de férias e feriados passou de 16 em 1870 para 36 em 2000 (+ 125%).

Será que a “revolução 4.0” terá os mesmos efeitos benéficos sobre a sociedade?

Não havendo uma resposta definitiva e única a esta questão, parece existir, contudo, uma certeza: a 4.ª revolução industrial desenvolve-se a um ritmo claramente superior às que a precederam e terá, certamente, um impacto severo na forma como nos organizamos enquanto sociedade.

Esta alteração é aliás muito bem descrita por Alvin Tofler na sua obra Terceira Vaga (1980). Segundo ele, “avança uma forte vaga que cria um ambiente novo e frequentemente estranho para se trabalhar, divertir, casar, criar filhos ou reformar”, acrescentando que os “sistemas de valores estoiram e desmoronam-se, enquanto os salva-vidas Família, Igreja e Estado são loucamente arremessados de um lado para o outro”.

Sem procurar ser exaustivo, e no que respeita à questão do trabalho, um conjunto de tendências são hoje evidentes.

Uma primeira tendência prende-se com a flexibilização dos horários de trabalho. Ao contrário do passado, em que os trabalhadores estavam agarrados aos ritmos das máquinas, a “revolução 4.0” desafia a “sincronização mecânica” a que estamos sujeitos antecipando o fim das “nove às cinco”. Se a isto associarmos o trabalho à distância e/ou o trabalho a tempo parcial, caminhamos para uma sociedade que opera globalmente ao longo das 24 horas e em que novos riscos sociais emergem.

Uma segunda tendência está associada ao desaparecimento da ideia de “emprego para a vida”. Na realidade, num quadro de crescente incerteza, onde a velocidade a que os empregos, atividades e funções desaparecem/aparecem, as transições de emprego, função e até local de trabalho a que os trabalhadores estão sujeitos acentuam-se de forma extrema, fazendo-nos recordar as palavras de Darwin: “Não é o mais forte que sobrevive mas aquele que melhor se consegue adaptar à mudança.”

Associado ao anterior, um terceiro desafio se coloca e que tem a ver com as competências. Hoje, com o “Dr. Google” na mão, para responder aos novos desafios do mercado de trabalho os tradicionais “hard skills” (competências técnicas) são insuficientes, cabendo um papel acrescido aos denominados “soft skills” (competências comportamentais e sociais). Como diria Fernando Pessoa, “não é o trabalho, mas o saber trabalhar, que é o segredo do êxito no trabalho”.

Uma quarta tendência, inevitável tendo em consideração a história dos últimos 150 anos, prende-se com a inexorável trajetória da relação entre o tempo de trabalho/lazer em favor claro deste último.

Se as quatro tendências anteriores parecem visíveis, implicando uma inevitável alteração na organização do trabalho, a resposta à questão inicial (teremos trabalho?) parece menos evidente.

Keynes, em 1930, quando manifestou uma séria preocupação relativamente ao risco associado à “descoberta de novos mecanismos que economizem trabalho mais rapidamente do que a descoberta de novas utilizações para esse trabalho”, também não tinha a resposta.

Ainda assim, esperemos que esta inquietação, lucidamente atualizada por Yuval Noah Harari na sua notável obra Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã, permita que, após a silly season, a discussão política se recentre naquilo que verdadeiramente interessa, sob pena de a ficção de Fritz Lang, projetada para 2026 na sua obra-prima Metropolis, se tornar realidade.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico