Crítica

O regresso à normalidade nos Dirty Projectors

Ao nono álbum, regressam para reafirmar que são dos grupos mais fascinantes do nosso tempo.
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O novo álbum respira uma jovialidade radiante JASON FRANK ROTHENBERG

O anterior álbum dos Dirty Projectors de David Longstreth, um registo homónimo editado em 2017, era um pouco estranho. Não tanto sonicamente. Nesse campo, era a habitual dose de surpresa e familiaridade. Do ponto de vista lírico, com tradução no ambiente geral, é que ressoava um pouco desarticulado, respirando a ressaca da dissolução da relação intima entre Longstreth e Amber Coffman (“I don’t know why you abandoned me / You were my soul and my partner”, lamentava-se ele logo no tema de abertura, Keep your name), que acabou por deixar também a formação que integrou ao longo de anos, para se lançar num percurso solitário.

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Dir-se-ia que o nono álbum do projecto é o regresso à normalidade, sendo que isso no caso dos Dirty Projectors é sempre relativo. David Byrne, que há uns anos colaborou com o grupo e de quem é admirador, tinha uma boa frase para definir a sua música: “Soa muitas vezes como se fosse pop, mas feita por alguém que leu sobre a sua estrutura, sem a ter ouvido.” O que até não é verdade, porque Longstreth tanto é capaz de se inspirar em Beyoncé, como em Mahler. “Gosto de coisas que não conheço realmente, e a pop mais comercial, alguma clássica, ou sonoridades não-ocidentais, têm esse efeito de me provocar curiosidade”, dizia-nos em entrevista.

O novo álbum respira uma jovialidade radiante que já não se lhes reconhecia desde Bitte Orca, álbum de 2009. As primeiras palavras do tema de abertura, Righ now, ainda fazem temor o pior, quando Longstreth recita que “The sky has darkened, earth turned to hell”, mas no final percebe-se que se trata, afinal, de um virar de página, com ele a cantar no registo de falsete: “you pulled me up when you took my hand / There is silence in my heart and now i’m striking up the band.”

Há alguns convidados – Syd (The Internet), Empress Of, Amber Mark ou Robin Pecknold (Fleet Foxes) – mas é Longstreth que domina as atenções, com vocalizações recheadas de inflexões, letras que respiram optimismo, orquestrações luminosas e a habitual sonoridade desconcertante, feita de investidas de guitarras, coros e melodias acetinadas que resultam numa amálgama sonora tão instável quanto estimulante, capaz de repescar elementos às mais diversas tipologias (R&B, rock, pop, electrónicas, folk).

A maior parte são canções a quem reconhecemos alguns traços clássicos, mas distorcidas, como se aderissem à norma por um momento para lhe serem desferidos golpes de seguida, movendo-se naquele terreno ambivalente onde a vontade de comunicar de forma inteligível nunca prescinde de o fazer experimentando novas soluções, numa mistura de dissonâncias rítmicas e riquezas harmónicas, como se a organização do caos fosse concretizada de maneira afectuosa. Ou seja, ao nono álbum, os Dirty Projectors, que nunca deixaram de ser um dos grupos mais fascinantes do nosso tempo, regressam para o reafirmar ainda com mais engenho e intensidade do que o habitual. E isso são excelentes notícias.