Nelson Garrido
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Nelson Garrido

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Eu não quero ir à máquina zero!

Não sejamos párias com uma cultura de morte. Se o serviço militar chegou ao fim, por alguma razão o foi: por não ser preciso. Porque o mundo evoluiu, e as mentalidades evoluíram.

O ministro da Defesa, Azeredo Lopes, admite a possibilidade do retorno do serviço militar obrigatório, o que deixou os meus cabelos em pé. E ainda bem, sinal de que ainda os tenho. Infelizmente, e em caso de retorno do serviço militar, não poderei dizer o mesmo.

Nem eu, nem milhares de outros jovens, temerosos da recruta, quando nos rapam o cabelo todo seguido de um calduço bem aplicado na nuca, sinal para dar lugar ao próximo mancebo.

Senhor ministro, Portugal não está em guerra e não quer estar em guerra. As guerras, hoje em dia, não existem, são provocadas em função dos interesses de terceiros, à custa do sofrimento dos povos, das mães. Isto num mundo que se quer habituar a resolver os conflitos à volta da mesa, em diálogo. E já morreu tanta gente... Por isso a crise dos refugiados, por isso a montanha russa do petróleo, por isso a xenofobia, o medo e a discriminação de quem é nosso igual.

Porque, senhor ministro, o regresso ao serviço militar obrigatório nunca terá uma função de defesa, mas de ataque, o ataque a populações indefesas culpadas de apenas serem quem são, pessoas a viver no sítio errado à hora errada, e portanto chacinadas, deslocadas, refugiadas, exiladas.

Pense, senhor ministro, no 25 de Abril. Sim, houve mortes, mas numa revolução onde se dispararam mais cravos que balas, por aqui se vê o poder de uma flor, de um símbolo, na mudança, para melhor, de um país, uma nação inteira. Aprendamos com o passado de modo a seguir os nossos exemplos, exemplos para outros povos e outros países.

O retrocesso ao serviço militar obrigatório não é senão um convite ao armamento, ao recrudescimento militar em benefício de quem produz, e vende, armas, a começar pelos Estados Unidos, onde até em casa já querem fabricar material militar.

Não sejamos párias com uma cultura de morte. Se o serviço militar chegou ao fim, por alguma razão o foi: por não ser preciso. Porque o mundo evoluiu, e as mentalidades evoluíram.

E continuemos a ser o exemplo de um país onde se viveu uma revolução pacífica. Sim, já agora podíamos ter prendido o Marcello, mas deixemos esta conversa para outra ocasião.