Apple, Facebook e YouTube fecham portas ao "discurso de ódio" de Alex Jones

Empresas retiram ligações para podcasts, deitam abaixo páginas e encerram canais de vídeo ligados ao site Infowars, onde Jones difunde as suas teorias da conspiração.

Alex Jones é um dos mais influentes criadores de teorias da conspiração nos Estados Unidos
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Alex Jones é um dos mais influentes criadores de teorias da conspiração nos Estados Unidos Reuters/Lucas Jackson

Há quase duas décadas que o activista norte-americano Alex Jones faz chegar as suas controversas teorias da conspiração a milhões de pessoas através da Internet, mas a partir desta semana essa missão vai deixar de contar com a contribuição de alguns gigantes da tecnologia e das redes sociais. Numa decisão tão surpreendente quanto radical, a Apple, o Facebook, o YouTube e o Spotify decidiram banir a maioria dos vídeos e podcasts de Jones e dos seus colaboradores.

A lista de teorias da conspiração criadas por Alex Jones é longa e inclui episódios como a acusação de que a cantora Lady Gaga realizou magia demoníaca durante o espectáculo de intervalo do Super Bowl em 2017 para se apresentar à assistência como a deusa de Satanás.

Mas a teoria da conspiração que deu origem às críticas mais sérias foi a acusação de que o tiroteio na escola primária de Sandy Hook, a 14 de Dezembro 2012, foi encenado pelo Governo e não fez vítimas. Por causa disso, os pais de uma das 20 crianças que foram mortas a tiro nesse dia acusaram-no de difamação, depois de essa teoria da conspiração ter incentivado vários seguidores de Jones a perseguirem-nos e a ameaçarem-nos.

A influência de Jones aumentou de forma significativa em Dezembro de 2015, quando o então candidato presidencial Donald Trump lhe concedeu uma entrevista – a primeira a um candidato desde que Jones fundou o site Infowars, em 1999. Durante essa conversa, Trump elogiou Jones, dizendo que a sua influência é "fantástica" e prometendo que não iria desiludi-lo se viesse a ser eleito Presidente.

É por isso que a atenção sobre Jones e as suas teorias da conspiração tem crescido nos anos mais recentes, e que empresas como o Facebook têm vindo a ser pressionadas para o banirem das suas páginas. Mas até agora nenhuma empresa tinha ido mais longe do que suspender Jones durante um mês ou retirar alguns dos seus vídeos mais controversos.

"Linguagem desumanizadora"

A primeira a banir Alex Jones foi a Apple, no domingo à noite – cinco dos seis podcasts ligados ao site Infowars foram retirados do iTunes e da aplicação para telemóveis e tablets, incluindo o mais famoso de todos, o Alex Jones Show, que o activista grava todos os dias. Os podcasts de Jones podem continuar a ser ouvidos no seu site e noutros serviços que disponibilizam ligações para podcasts, mas a decisão da Apple vai limitar-lhe o alcance – o serviço Apple Podcasts é de longe o mais popular em todo o mundo e continua a crescer de forma significativa, com mais de 50 mil milhões de downloads e audições em tempo real em 2018, um aumento de quase 40 mil milhões em relação a 2017.

"A Apple não tolera discurso de ódio, e temos critérios claros que os criadores têm de seguir para garantirmos um ambiente seguro para os nossos utilizadores", disse a empresa num comunicado enviado ao Washington Post. "Os podcasts que violem esses critérios são retirados e deixam de estar disponíveis para download ou streaming. Acreditamos que devemos representar vários pontos de vista, desde que as pessoas respeitem quem tem opiniões diferentes."

Horas depois, o Facebook anunciava que tinha retirado quatro páginas ligadas a Alex Jones, citando também o discurso de ódio como motivo da decisão. Tal como a Apple, o Facebook fez questão de sublinhar que não estavam em causa notícias falsas, mas sim discurso de ódio – se isso não tivesse ficado claro, as empresas teriam de explicar porque não apagam outras contas, incluindo as do Presidente Donald Trump, muitas vezes acusado pelos seus críticos de partilhar informações falsas.

"Após termos feito uma reavaliação, retirámos as páginas que foram denunciadas porque glorificavam a violência, o que viola os nossos critérios sobre violência explícita, e por empregarem linguagem desumanizadora para descrever pessoas que são transgénero, muçulmanas e imigrantes, o que viola os nossos critérios sobre discurso de ódio", disse o Facebook.

Depois da Apple e do Facebook, seguiram-se o Spotify e o YouTube – o serviço de música retirou alguns podcasts de Alex Jones, por violarem os critérios sobre "conteúdo de ódio", e o serviço de vídeos deitou abaixo os canais onde o activista da direita norte-americana explanava as suas ideias. Uma pesquisa pelo canal principal de Jones, o The Alex Jones Channel, termina agora com uma nota do YouTube: "Esta conta foi extinta por violar os critérios de comunidade do YouTube."

Jones não tem respondido aos pedidos dos media norte-americanos para reagir a esta onda de proibições. Em vez disso, o caso é discutido no episódio desta segunda-feira do seu programa principal, o Alex Jones Show: "O Facebook baniu de forma permanente o Infowars e a Apple removeu vários podcasts do iTunes sob o disfarce de 'discurso de ódio'. A guerra contra a vossa mente está agora em força, com os globalistas e banirem canais de liberdade e de verdade, começando com o seu ponta de lança: Alex Jones."