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Santana e Duarte são a silly season do PSD ou o princípio do fim de Rui Rio?

Saída formal de Santana Lopes e anúncio de Pedro Duarte de que quer ir a eleições contra Rui Rio até ao fim do ano agitam PSD. Marcelo responde aos dois: "o partido é uma família" e "é preciso que a oposição não se fragmente de tal maneira que deixe de ser alternativa de poder".
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Pedro Duarte (à esq) desafiou Rio a convocar eleições até final do ano Nelson Garrido

Para quem achava que a contestação a Rui Rio se ficava pelo Parlamento, em poucas horas a resposta ficou dada e veio de outras paragens. De uma assentada, Pedro Santana Lopes formalizou a sua saída do PSD e Pedro Duarte, antigo líder da Juventude Social-Democrata, deu o passo até à boca do palco para desafiar Rui Rio a ir a eleições apresentando-se como candidato numa entrevista ao Expresso. Se de Santana só faltava saber a data e os argumentos que daria aos militantes para deixar o partido, já a atitude de Pedro Duarte terá apanhado boa parte dos sociais-democratas desprevenidos.

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Já Marcelo Rebelo de Sousa, que está de férias pelas zonas afectadas pelos incêndios do ano passado, começou por dizer que “não pode nem deve imiscuir-se” na vida dos partidos (tem a militância suspensa desde que é Presidente). Mas não resistiu a dar alguns recados. Para ambos.

Embora não tenha lido a carta de Santana Lopes a Rui Rio e aberta aos militantes, onde aquele se diz desiludido depois de 40 anos de militância, Marcelo admite que é uma “opção” e uma “mudança de vida drástica”. “Para mim o partido é uma família e não se muda de família. Mas tenho grandes amigos que pensam o contrário – que é uma opção como outra qualquer – e que se muda de partido quando se entende que já não corresponde àquilo que se pretende. Eu tenho uma visão diferente.”

No partido não se quer acreditar que Santana tenha revelado a carta de saída na sexta-feira à noite para exponenciar os efeitos do anúncio de Pedro Duarte (que foi seu secretário de Estado em 2004) no sábado e mostrar ao eleitorado um partido extremamente debilitado e uma direcção isolada. Embora se admita, porém, que esse caos lhe possa servir como alavanca para o partido que pretende formar e que terá nas europeias o primeiro teste – e onde se deverá querer transformar numa espécie de Marinho e Pinto, apostando num discurso populista, com um partido desconhecido, mas acabando por ser a surpresa da noite eleitoral. Depois se verá se esses resultados conseguirão ser a rampa de lançamento que Santana ambiciona para poder vingar nas legislativas e o seu novo partido se tornar indispensável para que PSD e CDS cheguem ao poder numa coligação a três.

Marcelo quer oposição que seja realmente "uma alternativa"

Aparentemente sobre a ambição de Pedro Duarte, o Presidente disse que deve ser garantida a “coesão” nos partidos de poder, seja para que o Governo funcione, seja para que “quem está na oposição seja forte para dar uma alternativa”. “A mim, o que me preocupava e preocupa é que a oposição não se fragmente de tal maneira que deixe de ser uma alternativa de poder”, acrescentou – ideia que passou à comitiva do PSD na audiência desta semana.

Pedro Duarte, que foi director da campanha presidencial de Marcelo, não lhe terá contado sobre a entrevista e o que ia anunciar, garante o Presidente, que acrescenta que o “natural é que a legislatura vá até ao fim, e que quem lidera os partidos se apresente aos eleitores e seja uma alternativa forte” – o que também não invalida uma renovação da cúpula do PSD até lá.

O antigo líder da JSD quer ser essa “estratégia e liderança” alternativa para o partido porque Rui Rio se tem limitado a querer ser o “vice-primeiro-ministro” de um futuro Governo de António Costa. Por isso, até ao final do ano o presidente do PSD deve fazer o debate e marcar eleições internas. “Sim, estou preparado para liderar uma nova estratégia no PSD”, desafia Pedro Duarte em entrevista ao Expresso. Porém, nunca as distritais se levantaram contra o líder para marcar um congresso e Rio também não é homem de convocar eleições para um duelo desses – e essas são as duas formas de mudar a liderança.

Contactada pelo PÚBLICO, a assessoria de Rui Rio respondeu que não vai haver qualquer comentário do presidente do PSD sobre os dois assuntos do dia.

A saída formal de Santana e o anúncio de Duarte vieram minar ainda mais a situação dentro do PSD. E depois do estrondo deverá seguir-se um longo período de silêncio da direcção de Rui Rio, que está de férias: já não há Festa do Pontal e a rentrée da universidade de Castelo de Vide será daqui a exactamente cinco (longas) semanas. Ora, o timing de Pedro Duarte é o que se estranha do lado de Rui Rio, onde se ironiza que abriu a silly  season no PSD para que as figuras de segunda linha, com “agendas próprias e até em competição umas com as outras”, tenham tempo de antena.

Duarte foi o primeiro a assumir uma futura candidatura à liderança depois de Luís Montenegro, que no congresso prometeu estar atento ao rumo do PSD e disponível para o que for preciso, há apenas semana e meia ter também insistido na necessidade de Rio mudar de estratégia. O presidente do PSD veio responder que não é preciso – e, a avaliar pelos seus conselheiros, não será mesmo. Montenegro, visto como um sucessor lógico de Passos Coelho, de quem foi um fiel líder parlamentar, também não estará à espera de um dia ir sozinho a eleições, mas terá que fazer contas para, se enfrentar Rui Rio e Pedro Duarte, não sucumbir à canibalização pelo eleitorado deste último.

Luís Filipe Menezes e José Eduardo Martins apressaram-se a apoiar Pedro Duarte

O cenário de conflito interno não é novo – afinal, desde que Rui Rio chegou à presidência do partido, há cinco meses e meio, não conheceu outro –, mas o que será novidade é o aumento do activismo dos opositores, já com balizas temporais delineadas. Porque o calendário eleitoral de 2019 assim exige – europeias em Maio, legislativas e regionais da Madeira no fim do Verão – e porque é dado adquirido que a pré-campanha eleitoral arranca no dia a seguir à aprovação do orçamento pela esquerda, no final deste Novembro.

Pelas redes sociais foi passando algum apoio a Pedro Duarte, como de José Eduardo Martins, que o elogiou por “dizer o que deve ser dito”. “E, hoje como antes, quando ele for candidato, não terei outro. Gosto de clareza. E de lealdade”, acrescentou, numa referência ao apoio que deu a Pedro Duarte quando este se candidatou pela primeira vez à JSD e perdeu.

E especialmente do ex-líder do PSD, Luís Filipe Menezes, que escreveu na sua página no Facebook: "Pedro Duarte teve uma atitude brilhante. Porque o país e o PSD adoram estes actos 'heróicos', porque não se ficou em meias tintas." E ainda porque disse "o que a maioria dos militantes e até dos eleitores pensam do actual PSD. Fê-lo com a autoridade de pertencer a uma verdadeira geração de renovação."

"Penso que o consulado, este consulado de Rio, acabou", afirma Menezes, que avisa que "se continuar a esbracejar neste mar alterado ficará exangue." Defende a convocação imediata de um congresso para o fim do Verão - a única "saída honrosa" - em que o actual presidente "desafie os oponentes a apresentarem as suas alternativas". 

O antigo presidente do PSD em 2007 e 2008 apontou o "embaraço" que este passo à frente de Pedro Duarte - que foi seu director de campanha na corrida à Câmara do Porto, que perdeu para Rui Moreira - terá provocado em "outros putativos candidatos". Principalmente no "mais forte e bem posicionado deles todos, Luís Montenegro", que "tem exército e boa imagem pública". Ainda "tem espaço para recuperar", mas "tem que ser genial, na velocidade, na forma", advertiu Menezes. "É nestes momentos e nestas circunstâncias que se forjam as lideranças mais carismáticas", acrescentou.

Sobre o novo partido de Santana Lopes, o antigo dirigente aconselhou: o projecto "seria credível com um núcleo central de independentes credíveis e de militantes do PSD que sempre mostraram simpatia por um cisma deste género". E pressagiou: "Belos tempos de verdadeiro combate político vêm aí."