Com mais dez milhões de investimento, DefinedCrowd tem o desafio de duplicar a equipa

Empresa tem uma plataforma com 45 mil pessoas que ajudam a melhorar a informação usada em sistemas de inteligência artificial. EDP, Mastercard e Amazon estão entre os investidores.

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A Amazon, que comercializa as colunas Alexa, é um dos investidores Elijah Nouvelage/Reuters

Amanhã vai estar calor? Como estará o tempo amanhã? Qual é a previsão de temperaturas? A máxima vai ser de quanto? Em princípio, um humano é capaz de compreender múltiplas formas de perguntar sobre o estado do tempo. Mas um computador pode ficar confuso se não forem usadas palavras específicas. O mesmo é válido para uma imagem de um animal numa fotografia: uma pessoa distingue com facilidade um gato de uma cabra; um computador, nem sempre.

Os sistemas de inteligência artificial têm-se tornado cada vez mais capazes de entender o que “ouvem” e o que “vêem”. Em muitos casos, para que isso aconteça, as máquinas são treinadas com grandes quantidades de dados: muitos ficheiros áudio com perguntas sobre o estado do tempo ou muitas fotografias de gatos e cabras. Mas este tipo de dados nem sempre estão disponíveis com a quantidade e a qualidade necessárias, argumenta a empresária Daniela Braga. Foi isto que a levou criar a DefinedCrowd, em 2015.

Braga estava então a trabalhar nos EUA, numa empresa de inteligência artificial especializada em voz. “Mesmo com um grande orçamento disponível, apercebi-me que não existia nenhuma empresa que oferecesse dados com a qualidade necessária, em tempo útil, e com escalabilidade”, explicou ao PÚBLICO, por email. Na altura, Braga – que é licenciada em língua e literatura portuguesa e tem uma tese de doutoramento na área do processamento de linguagem natural – começou a dar aulas na Universidade de Washington. “Foi aí que percebi que existia uma grande oportunidade de mercado numa área que de repente estava a ter uma grande adopção: a inteligência artificial.” A DefinedCrowd foi criada em Seattle, mas a maior parte da empresa funciona em Portugal, onde estão cerca de 30 dos 40 funcionários.

Esta semana, a startup conseguiu 11,8 milhões de dólares (10,2 milhões de euros) de investimento, numa ronda liderada pela firma de capital de risco Evolution Equity Parters, e na qual participaram também a EDP, a Portugal Ventures (que gere o capital de risco público), a Mastercard, a Amazon e a Sony, entre outros. Em 2016, alguns destes investidores, incluindo a Portugal Ventures, já tinham participado numa ronda de investimento mais pequena, em que a empresa conseguira 1,1 milhões de dólares. E outros, como acontece com a Mastercard e a EDP, também estão na lista de clientes da startup.

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Daniela Braga, fundadora da DefinedCrowd Kayako Sareen/DefinedCrowd

Uma parte do trabalho da DefinedCrowd implica analisar e catalogar dados para clientes. Em alguns casos, estas tarefas são feitas por pessoas que se inscrevem numa plataforma online da empresa e que são pagas por cada tarefa desempenhada. Tem cerca de 45 mil pessoas inscritas e é uma espécie de Amazon Mechanical Turk, a plataforma de biscates da Amazon, numa versão para serviços na área da inteligência artificial. A DefinedCrowd disse não conseguir quantificar quanto recebe cada uma destas pessoas, explicando que os valores variam consoante o tipo de tarefa. Mas frisou que tenta fazer com que os pagamentos fiquem ligeiramente acima do salário mínimo dos países dos utilizadores.

Numa era em que a inteligência artificial se está a alastrar, este é um mercado com concorrência. A rival Figure Eight, por exemplo, que também se dedica a melhorar os sistemas de aprendizagem usados em tecnologias de inteligência artificial, foi fundada em 2007 em São Francisco, e conseguiu até agora 58 milhões de dólares de investimento, segundo a base de dados Crunchbase.

Com a entrada de quase 12 milhões de dólares na conta da DefinedCrowd, Daniela Braga planeia duplicar o tamanho da empresa. E admite que o recrutamento, num sector onde a competição por pessoas é acesa, não será uma tarefa fácil: “Um dos nossos grandes desafios é a contratação de talento, uma vez que temos um plano de recrutamento bastante ambicioso – planeamos dobrar a equipa até ao final do ano.”

A empresa continuará a ter boa parte dos seus funcionários em Portugal, nota Braga. “Vamos focar grande parte deste recrutamento em Portugal, com cerca de 30 das 40 vagas entre os escritórios do Porto e Lisboa.”