Reportagem

“Ela traz-me os remédios, marca-me as consultas”

Em Alfândega da Fé, diversas entidades articulam-se para levar cuidados primários de saúde às aldeias. Segunda de uma série de reportagens sobre estratégias para envelhecer em casa.
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O andar lento, as costas curvadas, as roupas pretas da cabeça aos pés, os cabelos grisalhos presos num ó, a voz sumida. Infância Albina Cabelo alegra-se ao ver chegar a enfermeira Aurora Martins. “Ela é informada connosco. Ela traz-me os remédios, marca-me as consultas, dá-me muitos apoios.”

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Veio lá do centro da vila de Alfândega da Fé. Primeiro, uma recta. Depois, curva contra curva até chegar à aldeia de Vales, bem no Nordeste Transmontano, na zona de transição das chamadas terras frias para as chamadas terras quentes, com verões escaldantes e invernos gélidos.

Entram na cozinha. Sentam-se à volta de uma pequena mesa coberta com uma toalha de crochet que saiu das mãos hábeis de dona Infância. Uma tira a braçadeira e o medidor de pressão arterial e a outra oferece o braço. “Hoje, está bem. Está a 12.7”, anuncia Aurora. “Toma os medicamentos direitinhos.”

Às vezes, são sete da manhã e o telefone de Aurora já está a tocar. Alguém que apanhou uma constipação ou uma gripe, alguém que precisa que lhe marque uma consulta no médico de família, alguém que precisa que lhe peça uma receita, alguém que precisa que lhe traga medicamentos da farmácia, alguém que precisa de orientação na toma de um novo medicamento…

Tem uma agenda. Cada dia, uma aldeia diferente. Seguindo esse ritmo, consegue parar em cada um de 15 em 15 dias, a fazer educação para a saúde, a controlar diabéticos e hipertensos, a ensinar estratégias de autocontrolo de tensão arterial e de glicémia capilar, a vigiar pés, a verificar peso e perímetro abdominal, a desinfectar feridas e a mudar pensos, a dar injecções….

Tudo começou com uma linha de financiamento da União Europeia. Muitas misericórdias e instituições particulares de solidariedade social do país aproveitaram a oportunidade para comprar unidades móveis. Em 2011, durante a crise da dívida, a de Alfândega da Fé foi encostada a um canto com o argumento de que no orçamento da Unidade Local de Saúde não havia dinheiro para pagar a um enfermeiro ou a uma enfermeira para andar de um lado para outro.

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Uniram-se várias entidades em torno da Unidade Móvel de Saúde. A viatura continua a pertencer à Santa Casa da Misericórdia, mas as contas de combustível e de manutenção são cobradas à câmara, o material clínico é cedido pelo centro de saúde, o salário da enfermeira é pago pela Liga dos Amigos do Centro de Saúde, com o apoio da autarquia e de algumas juntas de freguesia.  

A presidente da câmara, Berta Nunes, julga que este é “um serviço importante”. A população está a diminuir desde a década de 50. Os que restam estão dispersos e muitíssimo envelhecidos. Pelas estimativas do Instituto Nacional de estatística, por cada cem jovens há 384 idosos.

“Nós trabalhamos para o envelhecimento activo, mas também sabemos que as pessoas adoecem e temos de lhes dar condições para ficarem nas suas casas”, enfatiza. “A institucionalização é um risco. As pessoas mais velhas, doentes e fragilizadas, têm dificuldade em adaptar-se a ambientes novos. Não pedem para beber, não pedem para comer, não pedem para trocar a fralda. Ficam mais desorientados. Caem com mais facilidade. Temos tido muitos casos de pessoas que estavam mais ou menos bem na comunidade e que foram para um lar e duraram muito pouco.”

Não fala de cor. É médica de família. Foi directora do centro de saúde de Alfândega da Fé, coordenadora da Sub-Região de Saúde de Bragança, directora do Agrupamento de Centros de Saúde do Nordeste. Sabe que os munícipes se queixam de doenças crónicas, típicas da muita idade. Precisam de frequente acompanhamento de enfermagem e de ocasionais idas ao médico. E os serviços estão concentrados na vila. O clima é agreste. A rede de transportes públicos é fraca. Fora do período escolar, autocarro só em dia de feira, isto é, de 15 em 15 dias.

Alguns idosos vivem sozinhos, como a mulher a quem deram o nome de Infância. Conta 84 anos. “Não tarda que chegue a 85.” Não ouve lá muito bem. E por isso tem tendência para repetir o que se lhe pergunta. “Vivo sozinha? Pois. Não tenho ninguém. Tinha um marido. Foi-se embora… Para onde foi? Foi para o cemitério. Ele foi para o cemitério e eu fiquei aqui, sozinha…”

A falta que o homem lhe faz. Foram 63 anos de casamento. “Nunca nos demos mal. Uma vez, disse-lhe um senhor: ‘Vós dais-vos bem. A tua mulher é boa.’ Disse ele: ‘Ó. A minha mulher nem sabe ralhar.’” Ainda tiveram dois filhos, mas não vingaram. “Sobrinhos, tenho muitos. Já nem sei contá-los!”

Quando o marido era vivo, de 15 em 15 dias, iam os dois pela estrada fora até à junta de freguesia e ficavam lá com a vizinhança a dizer umas lérias e uma graçolas enquanto esperavam por Aurora. Quando ele morreu, ela perdeu o intento. Nem levar comida à boca queria, quanto mais vigiar a pressão arterial. E Aurora veio à procura dela. “De vez em quando, ela vinha cá fazer uma sopinha...”

A enfermeira, de 37 anos, conhece os mais velhos pelos nomes e pelas mazelas. Percebe quando algum fica mais abatido ou incapaz. Visita vários que não têm forças para ir até ao ponto de paragem da unidade móvel. E não se pense que não lhe acontece observar melhorias.

Infância arrebitou. “Ando entretidinha. Às vezes, faço um bocadinho de renda. Tenho uma hortinha.” Planta umas batatas, uns feijões, uns tomates, umas couves. Se o terreno fosse longe, ela não ia, mas é mesmo ali, ao lado da casa. “Faço um bocadinho. Sento-me um bocado. Torno a pegar um bocadinho. Canso-me muito, mas vou fazendo. Penso que seja bom. Ando distraída. Se fico na cama, lembro-me das coisas que não me havia de lembrar. Assim, não sofro tantos os dias.”

Acontece arranhar-se ou mesmo cair. E Aurora vem, limpa-lhe as feridas, desinfecta-as. “E dou-lhe uma palavra amiga, que às vezes é o que ela precisa mais”, diz. “Ela sabe que pode contar comigo.”

A presença de jornalistas desperta temor nos idosos que aguardam Aurora nas instalações da junta de freguesia. “Não podem tirá-la”, apressa-se uma mulher. “Ela é que nos vale”, atalha outra. “Não é por outros não terem que nós também não podemos ter. Os outros é que deviam ter, como nós temos”, torna a primeira. “Se tirarem, fazemos greve. É mais uma greve. Greve nos Vales!”

No alarido sobressai a voz de Zélia Lopes, de 80 anos. Nem gosta de imaginar a atrapalhação que seria. “Estas pessoas todas tinham de ir à vila só para medir a tensão ou a diabetes. Deus me livre! Eram dez euros de táxi para ir, dez euros de táxi para voltar. As pessoas não ganham para isso.”

Zélia Lopes até tem outra hipótese. Mantém casa em Vila Nova de Gaia. Fez carreira nos serviços administrativos da reitoria da Universidade do Porto. “Agora, só vou lá para as consultas. De resto, passamos aqui o tempo. Eu gosto mais de estar aqui. É a minha terra. Tenho aqui as minhas raízes.”

Não é o único serviço móvel, sublinha o presidente da Liga dos Amigos do Centro de Saúde, António Simões. Noutra parceria com a Câmara Municipal e a Unidade Local de Saúde, funciona uma unidade domiciliária de cuidados paliativos, com médico, enfermeiro, psicólogo e assistente social. Na sede, há um gabinete de reabilitação psicomotora que também faz domicílios.

“Nós, câmara, estamos a apoiar muito estes cuidados na comunidade e a pagar para isso”, declara Berta Nunes. “Já disse à Unidade Local de Saúde que têm de pagar mais. Não tem a câmara de andar a pagar médicos e enfermeiros e psicólogos. Isso é uma responsabilidade dos serviços de saúde. Acabamos por apoiar, porque de outro modo não temos o serviço e o serviço faz falta.”

Lembra António Simões que não há, ali, no Nordeste transmontano, histórias de idosos que morrem e entram em decomposição sem que a vizinhança perceba. Ainda há espírito de entreajuda.

Uma antiga chefe de secção de contabilidade da câmara, Ana Maria Cordeiro, de 78 anos, faz voluntariado ao domicílio. Todas as quartas-feiras, depois do almoço, visita Maria Jesus Martins, que está com 86 anos e não anda, gatinha. “Tomara tê-la sempre ao pé de mim. É como se fosse minha família. Vivo aqui sozinha. Não tenho aqui ninguém”, emociona-se a visitada, convidando a entrar na sua casa pejada de imagens de santos que foi coleccionando ao longo da vida. “Sofro muito… Tenho muita dor….”

O carteiro, por exemplo, é que paga as facturas do telefone, da água e da luz de Maria de Jesus. “Não vou dar dez euros por um carro. Faz-me ele isso.” Há um primo que também está atendo. É ele quem lhe faz as compras na mercearia, por exemplo. “Ainda hoje me mandou alfaces!”

Há quem se recuse a parar. Carlos Simões adora viajar, deu aulas de inglês na universidade sénior, de vez em quando organiza tertúlias. Servindo-se do Skype, põe estrangeiros a falar com a comunidade local. “Nem todos os jovens pensam assim. Jovens é como quem diz, porque tenho 76 anos. Nós temos de ter uma actividade. Dá-me impressão que o cérebro está exercitado.”