Rússia dá vistos a milhares de trabalhadores norte-coreanos

Mais de dez mil norte-coreanos foram autorizados a viver e trabalhar na Rússia, segundo Moscovo, o que contraria o pacote de sanções da ONU contra Pyongyang.

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Relatórios de uma ONG revelam que o Governo russo vendeu à Coreia do Norte mais petróleo do que a quantidade que tinha sido declarada Reuters/SERGEI KARPUKHIN

Moscovo está a autorizar a entrada de milhares de norte-coreanos em território russo e a garantir-lhes vistos de trabalho. A decisão viola as sanções impostas pelas Nações Unidas em relação à Coreia do Norte. De acordo com o Wall Street  Journal, que cita dados do Ministério do Interior russo, pelo menos dez mil norte-coreanos entraram no país desde Setembro de 2017.

Foi também nesse mês que o Conselho de Segurança da ONU aprovou sanções contra a Coreia do Norte devido aos programas balísticos e nucleares. O nono pacote de sanções foi aplicado na sequência do testes nucleares realizados por Pyongyang. As sanções incluem a limitação da importação de petróleo e congela as exportações de têxteis a partir da Coreia do Norte.

A entrega de vistos de trabalho a milhares de norte-coreanos pelo Governo de Vladimir Putin pode por isso constituir uma violação às sanções impostas pelas Nações Unidas — desde sempre mal recebidas por Moscovo. O Wall Street Journal diz ainda que, em 2018, foram atribuídos pelo menos 700 vistos de trabalho a cidadãos norte-coreanos na Rússia. Além disso, os documentos aos quais o jornal norte-americano teve acesso revelam parcerias com empresas norte-coreanas, que estão a expandir negócios.

De acordo com um responsável de construção civil russo ouvido pelo Wall Street Journal, e cuja identidade não é revelada, os trabalhadores norte-coreanos estão “a trabalhar até cair”. Chegam às 7h e trabalham mais de 14 horas seguidas (e em alguns dias chegam a 17 horas de trabalho). Pelo meio há apenas duas pausas de meia hora para comer arroz e peixe seco.

“É absolutamente claro que a Rússia precisa de fazer mais. A Rússia diz que quer melhores relações com os Estados Unidos, que quer cooperar connosco, que não está a trabalhar contra nós, nesta ameaça a todas as nações”, declarou à agência Reuters um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano (o equivalente ao Ministério dos Negócios Estrangeiros).

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Norte-coreanos cumprimentam o líder Kim Jong-un KOREAN PRESIDENTIAL OFFICE/HANDOUT

A maioria do dinheiro pago a estes trabalhadores acaba nos cofres do regime de Kim Jong-un. A mesma fonte diz ainda que se estima que estes trabalhadores norte-coreanos enviem, por ano, entre 150 a 300 milhões de dólares para Pyongyang. “Está na altura de a Rússia agir e de Moscovo respeitar as sanções impostas pelas Nações Unidas”, vincou.

Para tal, os trabalhadores norte-coreanos devem sair do país em Setembro deste ano. Já os trabalhadores com vistos de períodos superiores a um ano devem sair até ao final do próximo ano.

A entrada de funcionários norte-coreanos é também assinalada num relatório da organização não-governamental C4ADS conhecido esta semana. “Durante um tempo, tanto a Rússia quanto a China pareciam estar a expulsar os trabalhadores norte-coreanos antes do limite dos prazos impostos pela ONU, mas relatos mais recentes sugerem que a Coreia do Norte pode ter novamente começado a enviar mão-de-obra para os dois países", concluiu o relatório.

Um segundo relatório do Instituto de Estudos Políticos de Seul, na Coreia do Sul, revela ainda que entre 2015 e 2017 a Independent Petroleum Company (IPC), empresa sediada em Moscovo, vendeu mais petróleo para a Coreia do Norte do que aquele que foi oficialmente divulgado.

O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo recusou responder ao Wall Street Journal.

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