Mnangagwa eleito Presidente para refazer o Zimbabwe

Vitória do candidato do partido no poder no Zimbabwe foi confirmada esta manhã. Conferência de imprensa do líder da oposição foi perturbada pela polícia.

Apoiantes da ZANU-PF festejam em Harare a eleição de Emmerson Mnangagwa
Fotogaleria
Apoiantes da ZANU-PF festejam em Harare a eleição de Emmerson Mnangagwa Reuters/PHILIMON BULAWAYO
Fotogaleria
Emmerson Mnangagwa foi eleito Presidente do Zimbabwe Reuters/PHILIMON BULAWAYO

Muitos esperavam a emergência de um novo Zimbabwe após as primeiras eleições sem Robert Mugabe, o homem que governou com mão-de-ferro o país durante quase 40 anos. Emmerson Mnangagwa usou as suas primeiras palavras como novo Presidente para pedir união, mas a recusa da oposição em aceitar os resultados de eleições que diz terem sido manipuladas vem tornar o desafio da nova Administração ainda mais complexo.

As eleições vieram confirmar a manutenção da União Africana Nacional do Zimbabwe-Frente Patriótica (ZANU-PF) como força dominante no Zimbabwe, tal como acontece desde a independência. O partido alcançou uma maioria confortável de dois terços no parlamento e o seu candidato foi eleito Presidente.

“Este é um novo começo. Vamos dar as mãos, em paz, unidade e amor, e construir juntos um novo Zimbabwe para todos”, escreveu Mnangagwa no Twitter, pouco depois de serem conhecidos os resultados.

Mas é pouco provável que os próximos tempos sejam de união no Zimbabwe. O líder do Movimento para a Mudança Democrática (MDC), e principal rosto da oposição, Nelson Chamisa, continua a insistir que os resultados eleitorais são “falsos” e manipulados e prometeu partir para os tribunais para os pôr em causa. “O nível de opacidade, falta de verdade, colapso moral e défice de valores é alarmante”, escreveu no Twitter o candidato presidencial derrotado.

“Ganhámos estas eleições e estamos preparados para formar Governo”, insistiu Chamisa, mais tarde, durante uma conferência de imprensa.

Praticamente desde que os primeiros resultados começaram a ser lançados que a oposição tem semeado dúvidas sobre a sua validade. Pouco depois de as urnas terem fechado, na segunda-feira, Chamisa reclamava uma vitória para o MDC. A ZANU e a imprensa próxima do regime acusam o líder da oposição de ter incendiado os ânimos com os seus constantes ataques à legitimidade das eleições sem ter fornecido qualquer prova que suportasse as suas críticas. Na sexta-feira, Mnangagwa prometeu investigar a acção do exército – algo que, segundo a maioria dos analistas, seria impensável nos tempos de Mugabe.

Grande desafio

Os observadores da União Europeia, dos EUA e da Commonwealth admitiram que houve “desequilíbrios” que beneficiaram a ZANU-PF durante a campanha eleitoral, sobretudo na cobertura mediática dos órgãos de comunicação estatais e no tratamento dado pela comissão eleitoral. Porém, os reparos não foram mais longe e nenhuma das organizações conseguiu concluir com algum grau de certeza que as irregularidades permitem pôr em causa os resultados finais.

O grande desafio de Mnangagwa chega agora. A ditadura de Mugabe tornou o Zimbabwe num pária internacional, alvo de sanções económicas e muito perto do colapso financeiro. A saída de cena de Mugabe, “empurrado” pela elite do partido e pelas chefias do exército que queriam impedir uma sucessão controlada pelo ditador, foi a oportunidade para que a ZANU se pudesse reinventar e recuperar a legitimidade perdida. As eleições seriam uma prova de fogo para mostrar que o país mudou.

“Em vários aspectos estas eleições imperfeitas demonstraram uma transparência suficiente, especialmente face a resultados anteriores, que permitem que ocorra uma reaproximação suave”, conclui o economista da Exotix Capital, Christopher Dielmann, citado pela Reuters.

O dia em que foi confirmada oficialmente a vitória de Mnangagwa foi bem mais calmo que os anteriores, marcados por confrontos violentos entre apoiantes da oposição e o exército. O exército foi desmobilizado e não havia indícios de novas manifestações. Entre os apoiantes da oposição, o sentimento dominante parecia ser o de resignação, escreve o The Guardian.

“Vamos aceitar o que quer que seja para que haja paz, a vida continua”, disse ao diário britânico Shepherd Warikandwe, um cozinheiro de 38 anos. Nos dias anteriores, Harare foi palco de violentos confrontos entre apoiantes da oposição e o exército, que usou munições reais para dispersar as manifestações, causando seis vítimas mortais.

A excepção aconteceu quando Nelson Chamisa se preparava para dar uma conferência de imprensa e se viu impedido por um grupo de agentes policiais que irromperam na sala do hotel que tem servido de quartel-general do MDC. Os correspondentes no local descrevem um cenário “caótico”. Depois de alguns minutos de confusão, o líder da oposição pôde discursar. A acção da polícia foi imediatamente criticada pelo próprio Presidente, que disse serem cenas sem lugar na sociedade e pediu uma investigação.