Nelson Garrido

Aldeias de Mar: Em Castelo do Neiva há um barco chamado Esperança

Pequena comunidade de Viana do Castelo resiste às dificuldades do sector valendo-se da qualidade do seu peixe. Duas dúzias de barcos mantêm viva, na Pedra Alta, uma tradição que noutros sítios se vai perdendo.

São 8h30, a lota acaba de abrir, mas os pescadores estão quase todos em terra. O ar calmo do mar é enganador e não basta escrever Fé em Deus no casco de um pequeno barco de seis ou sete metros para ganhar coragem. Puxou vento, durante a madrugada, e a maioria dos pescadores de Castelo do Neiva não arriscou a saída. Olha-se o horizonte, agora mais límpido, pelo esboroar da névoa que há pouco o escondia, e, para lá do molhe, percebe-se a silhueta do Luz de Deus, preparando a manobra para abicar o areal. Lá em baixo, outro homem já prepara o cabo do guincho com que se há-de varar o barco de Manuel Costa e do primo Alexandre Sá para junto dos outros, na Pedra Alta.

Cá em cima, o bulício será menor do que noutros dias, mas há retratos que não mudam. Num banco de madeira já desgastada, cinco velhos acompanham a operação com a mesma atenção de cada dia, discutindo, só pelo cheiro, e pelo movimento hipnótico do Atlântico, as possibilidades de pesca do último a chegar a terra esta manhã. À vista deles, os do Luz de Deus não se fazem à terra sem antes deixar um saco com pilado no mar, preso a uma bóia. Este caranguejo é um bom isco para o robalo, mas este gosta dele vivo, e é assim que ele há-de ir para os anzóis amanhã.

Da safra desta madrugada, na verdade, não fossem os três ou quatro robalos luzidios, de bom peso, e tudo o resto, peixe mais apequenado que nem lhes enchia uma segunda caixa, não chegaria para os 30 euros de gasolina despendidos na viagem. Mas em contraponto com os gritos de desalento e críticas aos alegados “excessos” da fiscalização, com que uma mulher de negro, Fátima Neiva, reage à percepção da presença dos jornalistas, o discurso de Alexandre Sá - que trocou a pesca em barcos maiores por esta vida que o não enriquece, mas o traz a casa diariamente - é bem mais positivo do que aquele que se poderia esperar numa comunidade que ainda depende do mar.

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PÚBLICO - Maria José Neto, fundadora e presidente da Associação de Armadores da Pesca de Castelo do Neiva.
Maria José Neto, fundadora e presidente da Associação de Armadores da Pesca de Castelo do Neiva. Nelson Garrido
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Comunidades em mudança

Dona Fátima não deixa de ter razão no queixume. No tempo de vida que ela leva, a pesca definhou. Está nos livros que este barco a que chamamos o Portugal democrático navega com menos homens e com menos peixe descarregado em lota, ainda que o seu valor médio até venha aumentando. Por essa costa fora, de Norte a Sul, pequenas ou grandes comunidades de pescadores perderam o seu espaço, e as casas que outrora abrigavam proles numerosas de homens e mulheres do mar ostentam anúncios de "quartos, rooms, chambres, zimmer" para alugar, para escrever à moda da Nazaré, ainda que sem o esmero multilingue. E muitos dos que nelas habitam, acabado o Verão, farão, é quase certo, outra coisa na vida.

Para além de algumas importantes vilas e cidades portuárias que abrigam uma frota de pesca artesanal de centenas de embarcações, mobilizando o grosso dos 17 mil homens que trabalham no sector, quando falamos da pequena pesca local, feita para cá das seis milhas náuticas, ainda restam, aqui e ali, lugares onde as praias não são apenas um sítio onde as bandeiras azuis, as barracas de pau e pano e os banhistas tomaram o lugar dos frágeis barcos de boca aberta e dos seus homens. Na verdade, 85% das embarcações de pesca licenciadas em Portugal têm menos de 12 metros, e muitas delas alimentam pequenas comunidades como a de Castelo do Neiva, onde cerca de uma centena de famílias vive do que consegue pescar.

No Alto Minho, para fins de promoção turística e de valorização da identidade local, chamam-lhes, até, aldeias de mar, a esses sítios onde persiste toda uma relação com o oceano, feita de gestos, rotinas, saberes e falares, feita de barcos e artes de pesca em desuso. Mesmo que, em casos como o de Castelo do Neiva, a incerteza das pescarias tenha feito quebrar o número de embarcações e de homens, e expulsado do areal as mulheres que passavam os dias a emendar redes, a apanhar sargaço e a controlar, com um olho na maré e outro nas dunas, os filhos brincando entre os fieiros.

A sul da praia dos barcos, meia dúzia de turistas tenta enganar o corpo, neste Julho estranho, despindo-o como se costuma fazer no Verão. De vez em quando, o sol premeia-lhes a teimosia, mas a neblina parece ter um ferro pesado a prendê-la a terra e um ajuizado José Fagundes Pereira, 84 anos, aparece de camisa e meia grossas, na sua bicicleta, num banco no caminho, para fazer companhia a um antigo comerciante de Famalicão, José da Silva Coelho, que goza a reforma de olhos postos no Atlântico.

Como outros, o antigo pescador, que ainda se lembra do areal com uns 150 barcos, desceu outrora do casario da encosta mais próxima da EN13, para se instalar à beira-mar, onde, indiferente aos direitos de propriedade, a vegetação dunar ainda marca presença no interior nalguns quintais menos cuidados. E, aqui como noutros lugares, um certo caos urbanístico moldou o espaço, à medida que os pescadores se acercaram dos seus barcos e ocuparam os extensos areais com as suas pequenas casas e quintais.

Mais recentemente, perante as evidências da erosão costeira, o que resta do cordão dunar foi alvo de uma operação do Polis Litoral Norte, que vai agora, com o município de Viana e a Docapesca, intervir, com mais de dois milhões de euros, nos espaços de trabalho para os pescadores, que verão as suas casas de mar antigas substituídas por novos abrigos e até terão direito a uma nova lota, melhorando as condições de venda do "polvo da pedra" e de outras espécies, como o congro (ou o seu juvenil safio) e o robalo apanhados com linha e anzóis, e que são muito procurados por compradores de várias partes do norte do país.

Alguns desses novos espaços servirão para actividades de apoio, alojando um mecânico e um pequeno construtor naval. O que poderá fazer com que o único carpinteiro que ainda domina a arte na localidade, “exilado” num armazém na EN13 por um problema com vizinhos, regresse para perto dos seus clientes: e assim mantenha viva, por algum tempo, pelo menos, uma actividade que está em desaparecimento, não apenas aqui, mas no país.

Em Castelo de Neiva os barcos de boca aberta, assim chamados por não terem partes cobertas, ainda são de madeira, com costado em contraplacado marítimo, mas noutras comunidades este tipo de pesca faz-se há anos com embarcações de fibra de vidro e mesmo na frota de maiores dimensões que se dedica à pesca costeira, a madeira foi também praticamente abandonada nas novas construções e o tempo é já de tentar salvar toda uma cultura associada a esta arte, como vem acontecendo em Vila do Conde com o projecto Um Porto para o Mundo.

Zeza, uma mulher do mar

Olha-se para as duas dúzias de barcos varados na praia de Castelo do Neiva, a que se somam outros dez de armadores locais que trabalham a partir do Rio Lima, em Viana, e dir-se-ia, depois de falar com José Fagundes Pereira, que a pesca terá, aqui, o mesmo destino da construção naval. Aliás, aprendemos, de ouvir os velhos, que pescar “é só para quem não sabe fazer outra coisa”, e não espanta que quem tenha experimentado as agruras de uma vida tão cheia de riscos queira outro destino para os filhos, roubando, geração após geração, homens ao mar.

Mas olhamos para as tripulações, entre as quais há alguns homens entre os 20 e os 30 anos, e escutamos Maria José Neto, 40 anos, e percebemos quão vazia pode soar a ideia feita de que só se mete num barco destes quem não sabe fazer mais nada, de um auto-escárnio que na verdade não condiz com o orgulho com que estas gentes abordam as suas façanhas. Natural de Belinho, da beira-mar de Esposende, ali a sul, ela não é diferente deles, até porque se tornou num deles, num lugar onde, com tanto para fazer em terra, nos campos, as mulheres não faziam parte das tripulações de barcos de pesca.

Foi num domingo, há uns 15 anos, que a vida dela começou a mudar. Operária numa fábrica onde lhe pagavam, em dinheiro actual, uns 350 euros por mês, experimentou uma maré com o sogro, em substituição do marido e, bafejada com um bom lanço de corvina, ganhou, a trabalhar numa madrugada, quase metade disso”. Quando José Henrique Neto herdou o barco do pai, e se viu a braços com um camarada algo incerto, Zeza, como lhe chamam na vizinhança, não teve dúvidas: e o que fora experiência singular, um desafio, podia tornar-se rotina.

Em 2005 fez o curso da antiga Forpescas, à noite, enquanto mantinha o emprego na fábrica, e cinco meses depois já estavam os dois, marido e mulher, a bordo do barco que passou, com os filhos, a ser a vida deles. Esperança, lê-se no costado. O nome assenta-lhe bem, e nem o facto de o homem, de 42 anos, não gostar tanto do mar, enquanto ela, segundo a filha mais nova, Filipa, adora andar com os cabelos ao sabor do vento e da espuma das vagas, o faz negar as virtudes da parceria. “Aqui dá para se trabalhar bem”, assume o mestre. E Maria José corrobora, garantindo, ao P2, que desde que se dedica à pesca conseguem pagar-se umas férias fora daqui, opção impensável quando era operária fabril.

Para além do prazer com que fala do trabalho, desfiando, como os velhos de quem parece ter herdado a força, as geografias marítimas e as rotinas do seu dia-a-dia, esta filha de agricultores assegura que o facto de passar 24 horas com o mestre e marido, numa actividade sempre sujeita a riscos, e não poucas tensões, os não afecta. “O que é do mar fica no mar”, atira, pragmática.

Maria José apercebeu-se, no entanto, que é impossível não pensar no mar depois de chegar a terra e vender o peixe. Para lá das tarefas de cada um, de preparação da maré seguinte, a actividade é afectada por problemas, como o assoreamento da praia, por exemplo, que exigem uma concertação de esforços que ali não existia, quando ela se juntou a eles. E, cansada dessa inoperância, em 2011 fundou, com outros, a Associação de Armadores da Pesca de Castelo do Neiva, a que preside.

Com esta organização oficializaram-se canais de diálogo com a capitania, o município, a junta ou a Docapesca. A Câmara de Viana, por exemplo, atribui um subsídio à associação para o cabo do guincho - cujo manuseio está mensalmente a cargo de uma das embarcações, num sistema de rotatividade - mas é a organização de armadores que, com as quotas dos associados, repõe, com o aluguer de uma máquina, as condições do areal por onde os barcos se fazem ao mar ou são varados para terra, explica ao P2.

A associação acabou por ser um alento para uma actividade que o Estado passou também a apoiar, com um subsídio para combustível. E assim, praticamente todas as manhãs - e ao domingo, fora da lota, em sistema de venda livre - há peixe fresco a chegar à praia. Criado em fundos pedregosos, o polvo, mais houvesse, vem subindo de preço. Menos “batido” pelo mar nas redes, o peixe capturado com aparelhos de linha e anzóis, a que se soma o marisco capturado nas armadilhas, tem uma qualidade imbatível, que os clientes não se importam de pagar.

Parte do que aqui se apanha acaba em mesas longe de Castelo do Neiva, mas os restaurantes locais há muito que se aperceberam que tinham também a ganhar com essa fama. Num dia de Julho pouco inspirador para uma ida a banhos, e poucos turistas na rua, o restaurante de Martinho Festa está cheio, e o corrupio de travessas com sardinhas e outros peixes do dia na brasa, navalheiras (uma variedade de caranguejo), sapateira recheada e outros mariscos expõe as preferências dos clientes, que desvendam, na boca, o que o mar em frente lhes esconde da vista.

O dono é um antigo pescador do bacalhau, que depois de deixar a pesca longínqua foi ainda tripulante de um bem conhecido barco da pesca do largo, o Rui Daniel, de um famoso armador local, outro ex-bacalhoeiro de alcunha o Chula. Após uma passagem pela Suíça, onde trabalhou na hotelaria, Martinho regressou à terra para fundir as suas experiências no Segredos do Mar, há onze anos, e a opção foi certeira, como se percebe, também, pelo número de funcionários, que podem passar de 8 para 15, nos fins-de-semana de Verão.

Enquanto os que foram ao mar descansam, no portinho, Manuel Silva entretinha-se, à tarde, a soldar a armação de ferro de uma armadilha, um covo, novo, em frente a um pequeno armazém atulhado com as artes de que ele e o filho dependem. Ali ao lado, o seu Berço de Jesus, recém-pintado, aguarda pela oportunidade de uma nova maré. E o Esperança, que por estes dias levou também um banho de tinta, apontava, como outros, ao Atlântico, que é como quem diz, ao futuro. Que à frente dos nossos olhos há um mar que os espera.