Diane e Dídio, um ar de família em Locarno

À sua chegada ao festival suíço, Sobre Tudo Sobre Nada, do português Dídio Pestana, encontrou um filme com o qual pode dialogar: Diane, de Kent Jones, não lhe podia ser mais antagónico mas fala, no fundo, do mesmo.

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Sobre Tudo Sobre Nada, filme de estreia de Dídio Pestana DR
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Sobre Tudo Sobre Nada, filme de estreia de Dídio Pestana dr
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Diane do americano Kent Jones

Não podiam ser dois filmes mais diferentes, desenvolvidos pelos seus autores em esferas completamente distintas. Mas os acasos da programação deste 71.º Festival de Locarno fazem-nos partilhar um mesmo olhar, uma mesma textura – se quisermos, um mesmo ar de família, já que nos primeiros dias parece ser esse o tema recorrente no festival suíço. Cada um por seu lado, Diane, do americano Kent Jones (Concurso Internacional), e Sobre Tudo Sobre Nada, do português Dídio Pestana (Signs of Life), são ambos sobre largar lastro, olhar para uma vida vivida e tentar perceber o que fica. De um lado, temos uma viúva do Massachusetts que vive para a sua família e que, como se diz às tantas, “parece que vai viver para sempre”; do outro, um nómada português que viaja por todo o lado em busca de uma família própria, sabendo que tem sempre a sua em Lisboa.

Diane, que chega a Locarno depois de uma recepção extática no festival americano de Tribeca, parece preencher no festival da Piazza Grande o lugar que Lucky, de John Carroll Lynch, teve na edição 2017: o indie americano na sua acepção mais clássica e mais classicista, com uma performance para as calendas da sua actriz principal, Mary Kay Place (os mais desatentos recordá-la-ão apenas como uma dos oito Amigos de Alex de Lawrence Kasdan, mas ela tem uma longuíssima carreira de actriz secundária). Diane traz como produtor executivo Martin Scorsese, velho amigo do argumentista e realizador: Kent Jones, veterano crítico e programador, director do festival de Nova Iorque e documentarista, autor do Hitchcock/Truffaut que vimos ainda não há muito. É a estreia de Jones na ficção, numa história inspirada ao mesmo tempo pela escrita de Willa Cather e pela experiência da sua própria família alargada, contando a vida de uma mulher só que preenche a sua solidão ajudando os outros ao ponto de se esquecer de se ajudar a si própria.

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Diane, de Kent Jones, tem como protagonista uma finíssima Mary Kay Place DR

Espécie de estóica altruísta cujo vazio Mary Kay Place encena com uma delicadeza finíssima, Diane rala-se com a prima que está a morrer de cancro no hospital, com o vizinho que foi operado à anca, com os sem-abrigo que vêm à sopa dos pobres onde faz voluntariado, e sobretudo com o filho que parece estar sempre a recair na droga. À sua volta Diane tem uma espécie de “rede de segurança”, família, amigos, comunidade – só que o tempo não anda para trás, e essa rede começa aos poucos a desaparecer, e o que sobra então? Diane é um retrato comovente de uma pequena América rural de que tantas vezes se passa ao lado, à volta de uma mulher que aprende a lidar com a vida, e com a morte. Jones filma tudo com uma simplicidade que pode ser mal-entendida, milimetricamente calculada para nos concentrar no que importa e naquilo a que ele presta mais atenção: as pessoas (e o elenco é notável). Como Lucky, sim, mas também como os filmes de Ira Sachs (Love Is Strange, Homenzinhos) ou Oren Moverman (O Mensageiro) – e não é por acaso, Moverman é um dos produtores.

Essa comunidade de cineastas onde Kent Jones se inscreve tem contraponto na comunidade de artistas e amigos que rodeia Dídio Pestana – não apenas Gonçalo Tocha, com quem tem partilhado todas as aventuras cinematográficas (com É na Terra, Não é a Lua em primeira instância) e musicais, mas também os amigos que fez em Berlim, as namoradas que com ele viajaram, a família à qual volta sempre que pode. E o pai, ausente, com o qual já só conseguiu falar “de igual para igual” aquando da sua doença terminal, que paira como um anjo da guarda sobre Sobre Tudo Sobre Nada, que teve estreia mundial em Locarno na noite de quinta-feira, filme-diário de uma década passada em viagem, ensaio pessoal sobre uma vida registada aos solavancos em bobinas de super 8 e enquadrada como uma busca de si mesmo e do que realmente importa.

Há que recordar que este é um primeiro filme, e por isso é inevitável encontrar nele fraquezas, fragilidades, até um ou outro solipsismo desnecessário – talvez o mais problemático seja a sensação de que Pestana sabia exactamente o que queria fazer nos primeiros dois terços e de que os últimos 20 minutos, mais difusos e menos consistentes, são menos convincentes. Mas há em Sobre Tudo Sobre Nada uma dimensão pessoal, humana, que se expõe entre o confessional e o dever de memória, que cria alguns fulgurantes momentos de cinema, amplificados pela dimensão táctil, íntima, das imagens em super 8. Tal como em Diane, sentimos a textura de uma vida a passar por aqui. E isso já é muito.

O PÚBLICO está em Locarno a convite do Festival de Locarno