Crítica

Um poema autobiográfico

Espião na Primeira Pessoa foi escrito nos últimos meses de vida de Sam Shephard.

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A sensibilidade de quem se expõe de forma quase diáfana, e com toda a reserva que o caracteriza Larry Busacca/Getty Images

Sam Shepard morreu há um ano vítima de esclerose lateral amiotrófica e nos últimos meses de vida dedicou-se a um livro. Enquanto foi capaz, tirou notas para um caderno e quando a doença lhe retirou todos os movimentos, passou a ditar para um gravador. As irmãs e uma das filhas passavam as suas palavras para computador. Ele ia fazendo emendas, poucas. E no fim, a amiga e ex-namorada, Patti Smith, ajudou-o na edição final. “A mão dele, com uma lua em quarto crescente tatuada entre o polegar e o indicador, descansou na mesa antes dele. A tatuagem era uma lembrança dos nossos dias de juventude, a minha é um parafuso brilhante no joelho direito”, escreveu a escritora, cantora e compositora na New Yorker, dias após a morte do amigo, lembrando como era um homem privado e como a amizade entre os dois se mantinha forte nessas visitas que lhe fez ao Kentucky, onde ele acabou por morrer aos 73 anos.

Esta é a génese de Espião na Primeira Pessoa, o último trabalho do dramaturgo, escritor e actor, vencedor do Pulitzer de teatro em 1979 com Buried Child, nomeado para um Óscar de actor secundário por The Right Stuff, e autor de mais de 44 peças, contos, novelas, ensaios e memórias. Publicado postumamente nos EUA em Dezembro de 2017, é um livro breve, menos de cem páginas que se situam no território híbrido entre a ficção e a memória, e dois narradores: um homem que espreita outro pela janela, tentado adivinhar-lhe a existência ao mesmo tempo que vai discorrendo detalhes da própria vida, e o outro homem, o observado, um velho que vai perdendo autonomia física e se vê limitado a um espaço exíguo. Também este fala do seu presente enquanto liberta a memória. “Há alturas em que não posso deixar de pensar no passado. Sei que o presente é o lugar para se estar. Foi sempre o lugar para se estar. Sei que me foi recomendado por pessoas muito sensatas que permanecesse no presente o mais possível, mas o passado apresenta-se”, diz este homem de quem nunca saberemos o nome, apenas que no princípio está sentado numa cadeira de baloiço. É dessa forma que o vizinho o vê pela primeira vez.

“Visto à distância. Isto é, a ver do outro lado da estrada, é difícil dizer qual a idade dele por causa do alpendre fechado com rede a toda à volta. Por causa dos óculos escuros a toda à volta. Roxos. O Mascarilha. Bandido mascarado. Não sei o que está a proteger. (...) Está sentado numa cadeira de balouço que parece ter sido retirada de um Craker Barrel. De facto ainda tem a corrente de segurança partida à volta de uma perna.” É só um dos mistérios deste homem, uma possível cadeira roubada e uma reclusão; mais à frente, outro indício: poderá ter sido um criminoso fugido de uma prisão. “Provavelmente não devia estar a contar isto tudo, não é assim? A minha fuga. A nadar de costas para atravessar a baía. Já sabem como foi. Já sabem que sou um fugitivo”, narra aos filhos esse homem que hoje vive no deserto da Califórnia. A personagem permite a Shepard explorar temas recorrentes: a identidade americana, a fronteira, a crítica política num tempo em que acaba de assistir à eleição e primeiros meses de Donald Trump, e voltar a falar de migração, de clandestinidade. “A posse de uma carta verde significa que não se tem de trepar um muro? Que não tem de se escavar um túnel? Que não tem de se estar preocupado com o sítio onde nasceu a mãe? Onde nasceu o pai? Percebemos os homens que falam numa língua estrangeira à esquina? Tentamos perceber de onde podem ter vindo? Talvez tenham sido trazidos pelo vento.”

Escrito com contenção e forte sentido lírico, lê-se como um poema, as últimas impressões de um homem que se despede do mundo: a lucidez a contrastar com a decadência física e por nenhuma vez a cedência à emoção fácil, à piedade. Antes, um olhar em frente, com o passado a correr, fragmentado. A personagem do homem velho sabe que está a ser observado pelo outro, o mais jovem; sabe que ele vê o evoluir da sua doença, os cuidados que a família lhe presta; e nenhum sabe muito acerca do outro. “Porque me observa? Não entendo. Já nada parece estar a funcionar. Mãos. Braços. Pernas. Nada. Limito-me a estar para aqui deitado. À espera de que alguém me encontre. Olho apenas o céu. Sinto o cheiro dele perto de mim.” 

São personagens que se revelam entre estilhaços de memória. A mais nova tenta alguma orientação a partir de sensações, os pássaros que vê rodear a casa do mais velho. E o mais velho que se interroga acerca de quem é, de onde vem, a génese pessoal e a colectiva, de todos os americanos. “De onde vimos realmente? (...) Se estivéssemos em viagem num país estrangeiro e perdêssemos os nossos cães e perdêssemos o nosso carro a mensagem que a nossa mãe nos pregou no colarinho e perdêssemos as nossas roupas e estivéssemos nus e alguém se aproximasse de nós e perguntasse, de onde é, como responderíamos? Perguntaríamos ao único antepassado que era português? Ou perguntaríamos à Invencível Armada? Alguém foi esquecido?”

Não há um género para classificar este livro, é a sensibilidade de alguém que se expõe de forma quase diáfana, e com toda a reserva que o caracteriza. “Em memória de Sam” – lê-se na dedicatória feita pelos três filhos, Hannah, Walker e Jesse. Ele quis que a última imagem fosse a da luz da lua, de uma lua, a “Lua dos Morangos”, lua de Junho, um homem a coxear acompanhado pelo filhos.