Torne-se perito

Missão: Impossível: Tom Cruise mata-se para nosso entretenimento

Fallout estreia-se em Portugal esta quinta-feira. Vem antecedido de uma onda de elogios: é o melhor filme de acção, é o melhor franchise? É Tom Cruise e é um sucesso mesmo com controvérsia.

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Tom Cruise durante a rodagem em Paris DR
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Tom Cruise e Rebecca Ferguson numa cena de Fallout DR
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O agente Ethan Hunt numa das cenas típicas com motorizadas na série Missão: Impossível DR
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Cruise é conhecido por insistir em fazer os seus próprios stunts DR
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Vanessa Kirby transita de The Crown para a série cinematográfica DR
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Os bastidores da filmagem de uma cena com Henry Cavill e Cruise DR
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Alec Baldwin regressa ao seu papel na série DR
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Ving Rhames é o único actor, a par de Cruise, a estar em todos os filmes do franchise

Tom Cruise pendurado no Grand Canyon, Tom Cruise a subir o Burj Khalifa, Tom Cruise a correr pelo bem do planeta. Ou será Ethan Hunt a fazer tudo isso? O sexto filme da série Missão: Impossível, Fallout, estreia-se esta quinta-feira em Portugal depois de semanas de elogios internacionais que empolgaram um outro regresso – o de Tom Cruise. Mesmo sendo este o ano de Black Panther ou Vingadores: Guerra do Infinito, Fallout já foi considerado o melhor blockbuster e o melhor filme de acção de 2018 e Missão: Impossível o melhor franchise da actualidade. É seguramente, também, aquele que tem a mais estreita relação com a sua estrela, cuja intensidade parece torná-la imune à idade, aos números arriscados e à controvérsia.

Recapitulemos os títulos dos últimos dias. “Tom Cruise e Christopher McQuarrie conseguem um dos melhores filmes de acção alguma vez feitos”, escreveu a crítica do IndieWire. “Missão: Impossível — Fallout  é o melhor filme de acção do ano”, garantiu a Vanity Fair. “Por que é que Missão: Impossível é o melhor franchise de blockbusters neste momento”, propôs-se explicar o Washington Post. “Como é que Missão: Impossível se tornou no franchise mais fiável de Hollywood?”, repetiu o Guardian. “Missão: Impossível — Fallout é o filme perfeito para o nosso Verão de irrealidade”, recomenda o Vulture.

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Fallout é o sexto filme Missão: Impossível, depois da estreia com Brian De Palma em 1996. Em duas décadas, passou a ser sinónimo de Tom Cruise, o actor que o protagoniza e que fez do título, e de si próprio, uma marca. A fórmula é conhecida – “Your mission, should you choose to accept it…"; "This message will self-destruct in five seconds…" –, tal e qual a dos filmes de James Bond. Originalmente uma série de TV, assimilou entretanto a tradição dos filmes de acção e de espionagem; deve-o a ter tido um jovem espectador que procurava algo de novo e de potencialmente rentável na sua carreira como actor e sobretudo que se lançava como produtor. No início dos anos 1990, Cruise propôs à Paramount Missão: Impossível e a Paramount aceitou.

A sua filiação é Bond, mas também é Bourne, Jason Bourne, personagem-epicentro dos cinco filmes em torno desse novo agente secreto que em 2002 veio fazer companhia a Ethan Hunt, o protagonista de Missão: Impossível, na cultura pop. A sua vizinhança é hoje composta por filmes Marvel, pelo regresso da saga Star Wars, pelo universo Harry Potter e por fenómenos como Fast and Furious. Nos últimos dias, com o filme já estreado nos EUA e em muitos mercados internacionais, há um espírito de consagração no ar. Mesmo na presença de toda esta companhia, dominante no terreno de Hollywood, defende-se que é o melhor blockbuster e o melhor franchise da actualidade porque é simples e divertido, porque é realista e porque é Tom Cruise. E isso é tão valioso quando "já não há muitas estrelas de acção puras em Hollywood", como diagnosticou o crítico do USA Today, Brian Truitt, na CNN.

Ao contrário dos filmes Marvel, por exemplo, focados em entrelaçar histórias ao longo de vários filmes de acção, os filmes Missão: Impossível são quase independentes e “simplesmente divertidos”. São “uma máquina de entretenimento por excelência”, como postula a crítica do New York Times Manohla Dargis. E se “o primeiro Missão: Impossível foi produzido nos primeiros anos dos efeitos digitais, quando eram crescentes mas não dominantes”, recorda Scott Tobias no Washington Post, os filmes posteriores mantiveram-se na acção real e continuaram a poupar nos efeitos visuais, o que tem “um impacto visceral que os uns e os zeros não conseguem imitar”.

Missão: Impossível — Fallout é já a segunda melhor estreia da carreira de Tom Cruise nas bilheteiras dos EUA. E é também a melhor estreia crítica da carreira de Cruise. Depois de tanto se ter discutido o poder dos agregadores de críticas sobre a carreira de um filme, pontuando-o mesmo antes de se estrear, o Rotten Tomatoes dá ao sexto Missão: Impossível uma avaliação praticamente impossível. Tem apreciação quase máxima entre críticos profissionais e utilizadores do site, 8.4 em dez pontos possíveis na altura de publicação desta notícia, um consenso raro que, claro, foca as muitas sequências de acção de um filme febril e não propriamente a construção da personagem ou o trabalho de câmara autoral.

O realizador, Christopher McQuarrie, recebeu um Óscar pelo argumento de Os Suspeitos do Costume, o segundo filme em que trabalhou, e já tinha trabalhado com Cruise em Valquíria, Jack Reacher e No Limite do Amanhã. Este é o seu terceiro Missão: Impossível: é o único realizador a ter assinado mais do que um filme do franchise (os seus antecessores foram De Palma, John WooJ.J. Abrams e Brad Bird – McQuarrie trabalhou no guião do filme de Bird, Missão: Impossível - Operação Fantasma).

Desta vez queria fazer um filme sobre a personagem, “um filme mais emotivo”. Acabou por fazer uma série de set pieces de acção. O trabalho num filme Missão: Impossível “começa sempre com um ‘sabes o que podíamos fazer?’ ou ‘uma coisa que sempre quis fazer…’ e isso leva a uma conversa”, conta McQuarrie numa entrevista a Sean Fennessey, do site The Ringer. O interlocutor nessas conversas é sempre Cruise. “Tom é extremamente exigente, é um verdadeiro perfeccionista”, diz o realizador.

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Cruise na estreia do filme no Reino Unido DR

Um monumento a Tom Cruise

Além da simplicidade, o outro factor que ajudou Missão: Impossível a agarrar mais um Verão é talvez o seu rosto: Tom Cruise. “É, acima de tudo, um monumento a Tom Cruise – ou melhor, o monumento de Cruise a si mesmo, dado que ele é a única força motriz da série desde o início”, lembra Scott Tobias.

Missão: Impossível é dos poucos franchises que têm uma estrela e não uma marca ou uma personagem no centro, e o seu universo é o de um actor de 56 anos, três vezes nomeado para o Óscar e nunca vitorioso, que a certa altura decidiu apostar no seu estatuto de estrela de acção e não em ser uma estrela “séria”. Como assinala Amy Nicholson no Guardian, no final dos anos 1980 Cruise recusou Top Gun 2 para fazer A Cor do Dinheiro. Mas um Nascido a 4 de Julho, um Magnolia ou um Eyes Wide Shut depois, Cruise é sobretudo um Ethan Hunt (e um muito menos rentável Jack Reacher). O seu próximo projecto é, aliás, Top Gun: Maverick, a sequela que recusou quando perseguia o prestígio de actor dramático.

Missão: Impossível é o território Cruise, do “Tom Cruise hiper-humano”, descreve Dargis, de um actor cuja fama é tanto de controlador quanto de trabalhador incansável, que faz os seus próprios números arriscados, que dispensa os duplos, que parte tornozelos para fazer uma cena de Fallout. O realizador é McQuarrie, e não tanto Spielberg ou Kubrick ou Cameron Crowe, o que lhe dá mais do que margem criativa, dá-lhe co-autoria. McQuarrie admite nas entrevistas que já percebeu que não é um cineasta, um autor, e que a sua abordagem é disponibilizar-se aos estúdios: “Como é que posso ajudar-vos a fazer o vosso filme?”.

Defende a sua estrela, contribuindo para o mito Cruise no que toca à sua ética laboral incansável. Não trabalha “para o seu ego": "Não, ele está-se mesmo a matar para o vosso entretenimento. Adora sentar-se no público e ver o filme com ele. Vai a todos os visionamentos de teste, e lê todos os cartões [de comentário dos espectadores dessas sessões] – tudo o que dizem sobre o Tom Cruise, ele já leu”, disse ao The Ringer. Mas se “a sua fisicalidade é crucial para o sucesso da série Missão: Impossível, [e] crucial para a sua própria excitação”, como confirma Manohla Dargis, as suas actuações tão focadas no físico “são difíceis de classificar no sentido habitual, porque entrou numa fase da sua carreira em que ‘actuar’ parece quase algo tangencial”, apontava já em 2015 Christopher Orr na revista Atlantic.

Cruise é uma estrela da Lista A e da lista à antiga – não participa pessoalmente nas redes sociais, protege-se muito da imprensa, é mais inacessível. Ao contrário de McQuarrie, que deu milhentas entrevistas durante a promoção, não conversou muito com os jornalistas. O escrutínio da sua vida e da sua carreira tem-se sobretudo centrado na pertença à Cientologia, organização religiosa cujos métodos persecutórios e rígidos, aliados a uma alegada exploração laboral, têm sido criticados por ex-membros e visados em documentários. Neste regresso de grande visibilidade ao cinema, o tema dos seus problemas de imagem, desde os saltos no sofá de Oprah à Cientologia passando pelo fim dos casamentos com Nicole Kidman e Katie Holmes, não faz parte da narrativa mediática. A impermeabilidade do actor é notória, ao ponto de o Daily Beast questionar por que é ninguém anda a falar da relação de Cruise com Cientologia, da qual é figura de proa.

Numa altura em que a relação da obra com o artista e os seus comportamentos pessoais, políticos ou criminais está em constante debate, McQuarrie admite: “Tom não vem sem a sua quota-parte de controvérsia e isso é uma parte destes filmes.” O realizador acredita que as pessoas acabam por reconhecer o bom trabalho do actor e esquecer um pouco as controvérsias – o trabalho árduo como redenção pública. Ou, como escreve Tim Grierson na revista online Mel: “Ele emana tanto esforço em nome de me entreter. Ele sofre para meu prazer. E, de uma estranha forma, equiparo isso a uma espécie de penitência da parte dele.” 

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No mesmo espírito, a crítica do New York Times vê “um aspecto estranho e quase religioso destas exibições de quase-sacrifício, que tornam Cruise – que quase morreu (outra vez) por nós – numa espécie de mártir”. Essa expiação transmite-se também aos críticos, analisa Richard Brody na New Yorker, algo perplexo com a avaliação hiperbólica feita a Fallout. Tanta cena de acção perigosa, tanta corrida “para os críticos evoca uma era de heroísmo artístico que remonta aos números de Buster Keaton e Harold Lloyd”, nota, acrescentando que só viu em Fallout um filme “inerte” e que por isso não distingue Tom Cruise de um qualquer herói digital.

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