Crítica

A exuberância do Barroco numa ópera portuguesa de marionetas

Para o recente espectáculo Guerras do Alecrim e Manjerona foi usada uma nova edição crítica de Márcio Páscoa, tendo Marcos Magalhães e Carlos Antunes feito a adaptação da música à dramaturgia.

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Joana Ramos
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Apesar de a “ópera joco-séria”, Guerras do Alecrim e Manjerona, com texto de António José da Silva “O Judeu” (1705-1739) e música de António Teixeira (1707-1774), constituir uma das obras centrais da história da música e do teatro em Portugal, há mais de uma década que esta se encontrava ausente das programações culturais.

A última produção de vulto, com encenação de Paulo Matos e direcção musical de Stephen Bull, estreou-se no ano 2000 no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, seguindo-se reposições noutros espaços. Uma nova proposta, co-produção do Festival Cistermúsica e da Artemrede, foi apresentada no fim-de-semana em Alcobaça e em Oeiras, estando previstas novas récitas em Outubro em Pombal, Tomar, Palmela e Abrantes.

A orquestra barroca Os Músicos do Tejo, com direcção de Marcos Magalhães e Marta Araújo, e o encenador Carlos Antunes, em colaboração com a companhia S. A. Marionetas — Teatro e Bonecos e com um conjunto de actores e cantores de alto nível, vieram assim devolver ao público a exuberante teatralidade e a surpreendente riqueza retórica do texto e da música desta obra, representada pela primeira vez em 1737 no Teatro do Bairro Alto.

Face ao domínio crescente da ópera italiana, este era um dos raros espaços lisboetas onde se cantava em português na época. Tratava-se de um teatro de bonifrates, cujo repertório combinava tradições ibéricas e italianas, incluindo várias peças designadas como “ópera”, não obstante a presença de texto falado.

A música deve-se a um dos mais notáveis compositores portugueses setecentistas: António Teixeira, que estudou em Roma entre 1716 e 1728 com o patrocínio de D. João V. Além da música sacra e das serenatas, oratórias e óperas que se faziam na Cidade Eterna, é provável que se tivesse familiarizado também com a tradição das “comédias” musicais destinadas a teatros de marionetas, alguns deles patrocinados por membros da alta aristocracia romana como o cardeal Ottoboni.

A partitura das Guerras subsiste apenas numa versão tardia incompleta, na biblioteca do Paço Ducal de Vila Viçosa, exigindo um elaborado trabalho de reconstrução. Para o recente espectáculo foi usada uma nova edição crítica de Márcio Páscoa, tendo Marcos Magalhães e Carlos Antunes feito a adaptação da música à dramaturgia.

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Nesse processo foram incorporadas mais duas peças vocais de Teixeira — a ária Você quer casar e o dueto É amor uma inocência — e uma sinfonia de abertura de Florian Gassman (L’Amore Artigiano), bem como o 4.º andamento de uma Sinfonia de Francisco António de Almeida. O resultado é coerente e contribui para uma estrutura mais equilibrada. Além de árias e duetos (sendo frequentes as árias da capo e os minuetos cantados), destacam-se vários números de conjunto e o recitativo acompanhado perto do final, bem como a menção ao saltério numa das árias (evocado pelo bandolim nesta produção).

O pátio do palácio setecentista do Marquês de Pombal, em Oeiras, é um espaço especialmente adequado a esta obra e funciona bem acusticamente, mas a ausência das condições técnicas de um teatro levou a algumas soluções de compromisso em relação ao desenho de luz, ainda que o resultado tenha sido convincente.

Estruturas cénicas e adereços leves (como a caixa, a capoeira, a janela, as escadas ou os vasos de alecrim e manjerona...) e recursos como os alçapões no palco servem de forma eficaz a acção, que se vai sucedendo de forma vertiginosa. Com formação na área da música, da arquitectura e da encenação, Carlos Antunes soube dialogar de forma inteligente com o espírito da época e com os seus códigos musicais e teatrais, sem pretensões demasiado historicistas.

Por seu turno, Marcos Magalhães e Os Músicos do Tejo, com um sólido percurso na recuperação de óperas do século XVIII, contribuíram com uma prestação plena de vivacidade e energia rítmica e com efeitos sonoros adicionais em função da acção, uma prática comum no barroco.

As personagens das Guerras do Alecrim e Manjerona baseiam-se em arquétipos como criados, figuras da baixa nobreza com as suas aspirações a riqueza e estatuto, médicos e juízes, que são objecto de engenhosa sátira. Cada uma delas é confiada a um actor ou cantor e a uma marioneta, concebida pela equipa da S. A. Marionetas, liderada por José Manuel Valbom Gil. Estes imaginativos bonecos, quase em tamanho humano, têm figurinos alusivos à classe social e retratam pontualmente traços físicos dos intérpretes.

Dada a quantidade de texto falado, os cantores tiveram de representar longas passagens sem suporte musical e de decorar uma alucinante sucessão de trocadilhos e jogos de palavras, mas souberam tirar partido com êxito do poder retórico da linguagem. Contracenaram com actores, cujos papéis não exigiam o canto a solo, com a excepção de Luísa Cruz (D. Nize). A sua projecção e técnica vocais ficaram aquém dos cantores mais experientes, mas compensaram na interpretação teatral e estabeleceram o contraste com a personagem da irmã (D. Cloris), identificada pelo canto mais lírico e ágil da soprano Joana Seara, por vezes com alusões irónicas à ópera séria italiana.

No enredo, as duas jovens vivem com o velho tio Lancerote (o baixo Tiago Mota, com um timbre e atitude bem adequados ao papel), que as quer casar à força com o seu sobrinho Tibúrcio, personificado pelo actor António Machado, que deu voz à sua habitual veia cómica, tal como Carla Vasconcelos (cozinheira Fagundes). Mas D. Nize e D. Cloris preferem os seus pretendentes D. Fuas (o tenor André Lacerda, numa prestação plena de graça) e D. Gil Vaz, na voz poderosa do tenor Marco Alves dos Santos, a quem se devem algumas das mais belas intervenções cantadas.

Os principais motores da acção são porém a criada Sevadilha, papel que a soprano Susana Gaspar interiorizou de forma exemplar e a quem cabem intervenções musicais tão divertidas como o dueto da capa e do capote com Lancerote (Tiago Mota) e, principalmente, o criado Semicúpio, numa prestação inesquecível do baixo João Fernandes. Dotado de grande astúcia, Semicúpio é a figura-chave das Guerras. Entre outras intervenções dignas de nota, conta com duas árias hilariantes: a ária dos espirros e a ária em latim “Si in medicinis te visitamus”, quando faz de falso médico.

Apesar das mais de três horas de duração e do atraso no início, a qualidade do espectáculo fez esquecer o passar do tempo. Seria desejável apostar numa futura gravação e num programa de sala que divulgasse também a crescente investigação em torno desta obra e do seu contexto.