Opinião

O partido verbal

O Bloco é um partido que fala com desdém da iniciativa privada, de quem investe, de quem cria coisas novas, gera emprego ou faz dinheiro – mas, depois, um partido que é feito de pessoas normais, que, veja-se o crime, na sua vida pessoal até compram coisas, pagam impostos e pretendem realizar lucro com a sua venda.

Quis o destino que o único vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa e paladino da defesa da habitação acessível fosse afinal um investidor de vulto no imobiliário vocacionado para o turismo na cidade e para o alojamento local. E quis o destino que quem o Bloco de Esquerda colocou na lista autárquica para a sua substituição fosse alguém que aconselha a ocupação de imóveis e protesta, segundo a imprensa, contra a habitação “como produto de mercado”. Não será, aparentemente, esta a escolha na sucessão do vereador, mas isso, evitando o absurdo, não evita seguramente a ironia.

Há dois problemas de fundo para além da ironia de superfície.

Um é o do acesso à habitação em Lisboa. Se o imobiliário da cidade se reabilitou à custa do aumento de turistas, das alterações às rendas e do novo comércio de rua, é um facto que os preços se tornaram proibitivos para muitos daqueles que procuram viver na cidade, cidadãos e empresas, em parte pelo aumento das rendas e do valor de venda do imobiliário, em parte pelos salários baixos que continuam a ser regra. A solução não é fácil, mas desconfiamos todos que não deverá passar por proibições e ocupações.

 O outro problema é o da difícil convivência dos padrões políticos que o Bloco de Esquerda procura impor com a realidade - até a dos seus próprios dirigentes. Digo padrões políticos porque é também disso que se trata, não de padrões morais. Qualquer pessoa, por uma questão de coerência, creio que teria alguma dificuldade em insurgir-se publicamente contra o investimento em imobiliário para turismo sendo um promotor imobiliário nesse mesmo sector. Ricardo Robles não teve essa dificuldade. Mas isto seria apenas uma eventual limitação pessoal e circunscrita ao seu círculo de amizades se não fosse vereador e não tivesse uma posição política de crítica acérrima ao alojamento para turismo na cidade e à “visão especulativa” sobre o imobiliário em Lisboa.

Pessoalmente, e sem ironia, até acho saudável que um político da cidade seja também um investidor em Lisboa, que passe pelas agruras burocráticas da Câmara e pelas dificuldades naturais da concretização de um negócio e se possível use essa experiência para melhorar serviços, práticas e condições de investimento para todos os demais. Muito melhor isso, aliás, do que ser um produto asséptico de uma qualquer juventude partidária ou uma figura nunca contaminada pelo trabalho e pela realidade fora de qualquer círculo político por mais bem pensante e libertário que este seja.

O que não pode suceder politicamente é assumir-se causas que efectivamente não se defende, por mais que se diga o contrário. Isso faz-nos a todos sentirmo-nos enganados.

Esse é um dos dramas do Bloco de Esquerda e contribui para uma visão deste partido como uma mera realidade verbal, um tique de linguagem, uma estética discursiva, que nunca subsistiria perante o teste da realidade política executiva num governo ou numa autarquia. Um partido que fala com desdém da iniciativa privada, de quem investe, de quem cria coisas novas, gera emprego ou faz dinheiro – mas, depois, um partido que é feito de pessoas normais, que, veja-se o crime, na sua vida pessoal até compram coisas, pagam impostos e pretendem realizar lucro com a sua venda. Desconfio até que os eleitores preferem estas últimas pessoas a ocupar lugares políticos, mas elas nunca passarão no bento crivo do Bloco de Esquerda.