Danny Moloshok/Reuters
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Os tweets de James Gunn e os valores da Disney

James Gunn foi despedido devido a tweets ofensivos publicados há dez anos. O que colocamos nas redes sociais hoje pode vir a ter um grande impacto na nossa vida profissional.

No dia 21 de Junho soube que James Gunn, director, produtor e argumentista de Os Guardiões da Galáxia, a saga de filmes de sucesso da gigante empresa Disney, foi despedido devido a tweets ofensivos de há uma década. Para mim, estes são actualmente os melhores heróis da Marvel e esta saga é, de longe, a melhor que já fizeram. E as receitas provaram-no — o segundo filme, por exemplo, está no top 10 de filmes da Marvel com mais vendas nas bilheteiras.

Os tweets em questão tratavam-se de "piadas" sobre pedofilia e violação que nunca chegaram a ser cómicas — o próprio James Gunn afirmou que tencionava chocar uma pequena audiência de seguidores na altura e que há muito tempo que se arrepende de os ter publicado. Relembro que não são tweets recentes, têm dez anos. Tal não muda o facto de esta pessoa ter dito coisas ofensivas, mas as nossas conclusões neste caso não devem ser tão severas, pois dez anos é tempo suficiente para um indivíduo mudar a sua maneira de pensar e agir (o primeiro filme de Gunn pela Disney foi feito em 2014). Foi descuidado ao não apagar essas mensagens quando entrou numa empresa gigante e que se direcciona para as crianças.

No entanto, James Gunn já recebeu o apoio de vários elementos da equipa dos Guardiões da Galáxia, como é o caso de Dave Bautista (que faz o papel de Drax), Zoe Saldaña (Gamora), Chris Pratt (Peter Quill / Starlord), Pom Klementieff (Mantis) e Michael Rooker (Yondu) — este último chegou mesmo a anunciar que vai apagar a sua conta no Twitter por estar farto desta rede social. O realizador também conta com o apoio de muitos fãs que já fizeram uma petição para Gunn voltar a fazer parte do universo cinemático da Marvel. Jim Starlin, o criador de Thanos (o antagonista do último filme dos Vingadores, o filme com mais sucesso de sempre da história da Marvel), também mostrou as suas palavras de apoio a Gunn, afirmando que "(...) os tweets com mais de uma década de James Gunn foram errados e estúpidos, mas claramente foram feitos em tom de piada provocativa. (...) A Disney aceitou um argumento podre e tomou uma péssima decisão".

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Na passada sexta-feira Alan Horn, o director máximo da Disney, afirmou que "os tweets de Gunn eram indefensáveis e inconsistentes com os valores da empresa", valores esses que já começam a ser bastante questionados pelos seguidores e não seguidores da empresa. Em causa está o caso de John Lasseter, que actualmente é o principal consultor criativo da Disney e já foi acusado de vários casos de assédio sexual. Muitos trabalhadores da empresa afirmaram em entrevistas que os seus actos foram bem mais graves do que aquilo que se ficou a conhecer. Acusam-no de tocar e esfregar mulheres abaixo da cintura durante reuniões e de lhes dar beijos indesejados no rosto e nos lábios, criando assim um ambiente profissional tóxico nos estúdios da Pixar. Ambiente esse que, segundo vários funcionários, era aceite pelos superiores hierárquicos, que, por sua vez, acabaram por favorecer as principais figuras masculinas dos estúdios. Quais são afinal os valores que a Disney tanto defende? Se um homem que enfrenta estas acusações continua a trabalhar na empresa, que argumentos pode ter face a uma decisão tão ríspida contra James Gunn?

A minha opinião pode não ser imparcial por ser um grande seguidor dos filmes que James Gunn fez para a Marvel, mas condenar uma pessoa por coisas que disse num tom anedótico e provocativo há uma década não me parece correcto. O responsável já veio pedir desculpa publicamente pelas frases que proferiu e diz entender a posição da Disney, não escondendo o arrependimento pelos actos. No entanto, vê-se assim obrigado a largar um projecto que tantos frutos deu e no qual se entregou da melhor forma. 

Este caso deve ser visto como um exemplo para todos os trabalhadores e futuros trabalhadores: o que colocamos nas redes sociais hoje pode vir a ter um grande impacto na nossa vida profissional. Desta forma convido-te a visitar o teu passado nas redes sociais e a apagar tudo aquilo que hoje pode ser visto como ofensivo. Aliás, se calhar mais vale apagar todas as redes sociais porque aquilo que é inofensivo hoje pode vir a ser um tabu no futuro. Estou a lembrar-me, por exemplo, de um filme em que uma mulher está inconsciente e aparece um príncipe que a beija sem consentimento. Qual é o nome do filme mesmo? Branca de Neve, um clássico da Disney! Antigamente visto como algo inocente, hoje encarado como assédio sexual. Só porque a Disney não condena não quer dizer que seja correcto.