Condenado à morte escritor que se inspirou nos homicídios que cometeu

Autor chinês e um cúmplice mataram à pancada quatro pessoas numa casa de hóspedes onde pernoitavam. Só foram apanhados 22 anos depois. Confessaram o crime e foram agora sentenciados.

Liu Yongbiao depois da detenção em Agosto do ano passado
Foto
Liu Yongbiao depois da detenção em Agosto do ano passado POLíCiA DE ZHEIJIANG

Liu Yongbiao matou quatro pessoas há 23 anos com a ajuda de um vizinho, mas só foi detido em 2017, quando tinha já escrito um romance inspirado nos crimes que cometera. Agora a Nova China, a agência de notícias estatal, dá conta de que o julgamento do autor e do cúmplice terminou esta segunda-feira com ambos condenados à morte pelos crimes de roubo e homicídio segundo decisão do Tribunal Popular Intermédio de Huzhou, que ordenou ainda que os bens fossem confiscados.

Foi dado como provado que, na madrugada de 29 de Novembro de 1995, Liu, hoje com 54 anos, e o amigo Wang, de 65, mataram com o objectivo de roubar um casal proprietário de uma casa de hóspedes na localidade de Shengshe, o neto de 13 anos e um dos hóspedes. Um crime “cruel e com graves consequências”, de acordo com a sentença.

Os dois homens terão sido surpreendidos pelo proprietário quando tentavam assaltar a casa e mataram-no à pancada. As outras três pessoas também sucumbiram a golpes de um objecto contundente na cabeça. Liu e Wang terão executado a avó e o neto para encobrir o primeiro homicídio. O hóspede, que com eles partilhava o quarto, foi morto, admitiu o autor à televisão pública chinesa, porque lhes pareceu rico. Nada mais falso. Quando o revistaram encontraram apenas um relógio, um anel e o equivalente a um euro em dinheiro.

O caso ficou em aberto 22 anos até que, em 2017, análises de ADN confirmaram que os dois homens eram os autores do crime. Até então tinham uma vida normal, sem incidentes, e Liu transformara-se num escritor de sucesso: “Um Filme” (tradução feita a partir do castelhano), livro de 2005 que tem a chancela da Writers Publishing House, a maior editora do país, recebeu prémios na China, escreve o diário espanhol ABC, e em 2014 outro dos títulos serviu de base a uma série televisiva.

É no prefácio de um dos romances, A Culpa Secreta (2010), que Liu parece admitir que a vida contamina a ficção: “Quero escrever um romance sobre uma escritora bonita que matou muitas pessoas num caso que se mantém por desvendar."

Liu foi detido em casa em Agosto de 2017 e, segundo a imprensa, terá dito aos agentes policiais que há já muito que aguardava aquele momento: “Tenho estado à vossa espera este tempo todo.” Segundo o jornal China Daily, o autor confessou ainda os crimes numa carta que deixou à mulher. “Agora estou finalmente livre deste tormento”, escreveu.

Liu Yongbiao nasceu em Anhui, uma das províncias mais pobres da China, e era apenas um agricultor com pouca escolaridade quando decidiu fazer carreira na escrita. Publicou o primeiro texto num periódico regional em 1985 e depois procurou formação em Pequim, num instituto de estudos literários.

De acordo com a televisão estatal chinesa, o autor planeara escrever sobre os homicídios de que era autor num livro a que daria o conveniente título de Expiação. “Infelizmente, já não tenho capacidade para o fazer”, disse à estação. “Há muito tempo que ansiava ser preso. Agora posso dormir sem pesadelos.”

Na mesma entrevista, Liu garantiu que nunca se baseou nas vítimas para criar personagens e que os pormenores sangrentos daquela madrugada de 1995 o atormentaram durante duas décadas, deixando-lhe uma sensação “pior do que a morte”. Os dois homens usaram cordas, tacos e marretas.

O caso, reaberto várias vezes ao longo de 22 anos, voltou a ser investigado em Junho de 2017 para que a polícia pudesse procurar nas provas por ele deixadas na cena do crime vestígios genéticos, recorrendo a tecnologia mais sofisticada do que a usada anteriormente, escreve o tablóide britânico Daily Mail.

No Verão passado os agentes à paisana foram bater à porta de Liu com o pretexto de recolherem uma amostra de saliva para um projecto que pretendia desenhar as árvores genealógicas dos habitantes da localidade. O escritor, diria mais tarde, desconfiou do que se tratava mas acedeu porque estava cansado de viver assombrado pelo que acontecera naquela madrugada.