A alma de um Lobo em Lisboa

Descendente de uma linhagem histórica de músicos, Bernardo Lobo gravou e lançou em Lisboa, onde agora vive, o quinto disco da sua carreira. E C’alma corresponde ao título, por entre cirandas, sambas e canções com um doce embalo de felicidade.

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Alfredo Matos

Bernardo Lobo já tem seis discos gravados, cinco nas lojas e um ainda à espera de edição. Músico numa família de músicos célebres, tem por avô o compositor, jornalista e radialista Fernando Lobo (1915-1996) e é filho do cantor, compositor Edu Lobo e da cantora Wanda de Sá. Nascido no Rio de Janeiro, em 9 de Setembro de 1972, vive há três anos em Lisboa, onde gravou o seu novo disco. No Brasil cobravam-lhe a paternidade, diz ele ao Ípsilon. “As pessoas ainda me vêem como filho de Edu e têm um certo preconceito. ‘Ah, assim é mais fácil ser músico’; ou ‘A música dele é muito parecida com a do pai’; ou ‘O pai é muito melhor que ele’. Aqui na Europa é o contrário: ‘Caramba, o pai dele é o Edu Lobo, que legal!’ ou ‘Ele tem o trabalho dele, que não tem a ver com o pai!’.”

Mas não foi na música que Bernardo começou, foi no teatro, em 1990. A música veio depois e com ela os discos, de Nada virtual (2000) até C’alma (2018), agora nas lojas. E não é por acaso que abre com um pequena vinheta de Zum zum, um tema de Fernando Lobo e Paulo Soledade, tema esse que Edu Lobo também gravou. “O meu pai é que lhe deu um andamento mais lento, porque era uma marcha carnavalesca, não era tão triste. Mas na verdade é a história de um cara que morreu.” A inclusão do tema tem uma razão história, de afinidade e pertença. “As pessoas falam muito mais do meu pai, quase não falam do meu avô nem da minha mãe. Então o Pierre [Aderne], que fez esse trabalho comigo, disse ‘vamos fazer o Zum zum que é essa música é muito boa.’ E deu certo.”

O disco, que nasceu de crowdfunding mas leva o selo da Biscoto Fino, corresponde à sugestão do título, envolvendo alma e calma numa mesma palavra. Se há (em Planisfério do amor) uma parceria com Pierre Aderne, outro músico brasileiro radicado em Lisboa e que produziu o disco, a maior parte dos onze temas foram feitos juntamente com Mu Chebabi (Ciranda da lágrima, Gota de sol, Terra à vista) e Moyseis Marques (Amor de valor, Pára por aê, A barca dos corações partidos). “Eu conheci o Mu no Rio (de me encontrar com ele em saraus, pela vida), mas foi em Lisboa que a gente se aproximou mais e começou a trabalhar junto.” Já Moyseis Marques merece de Bernardo Lobo (que até aqui tem assinado Bena Lobo nos discos) um rasgado elogio: “Acho que é um dos maiores compositores e cantores da minha geração, é fantástico. Temos uma sintonia muito fina.”

C’alma exala um doce embalo, onde entram ainda Planisfério do amor (cantado em uníssono com a portuguesa Maria Emília), Essas noites (parceria com a cantora Joyce), Quererá (só voz e piano, com outro brasileiro radicado em Portugal, Pablo Lapidusas, nas teclas) e Menina das nuvens, um tema dedicado à sua filha Maria, numa parceria com o histórico bossa-novista Marcos Valle. “Eu comecei a gravar um disco lá no Brasil, em 2015. Um produtor de São Paulo me convidou para fazer um disco só com músicas de Marcos Valle. “Eu não conhecia Marcos bem, só de o ver com o meu pai ou a minha mãe, não tinha a menor proximidade. Mas por causa desse disco eu acabei por ficar mais próximo dele.” Marcos viajou até Lisboa, encontraram-se, e Bernardo, no final de uma mariscada “com vinho pra caramba” encontrou coragem para lhe mostrar uma música que acabara de escrever para a sua filha recém-nascida. Gravou-a no telemóvel, só uma primeira parte. “Então disse pra ele: ‘Você faria a segunda parte?’ E ele respondeu: ‘Faria. Me manda.’ Voltou para ao Brasil e, uma semana depois, não só me mandou a segunda parte, já no piano, como fez a letra da primeira. Só que a Maria não tinha nascido ainda. Quando ela nasceu, fizemos o resto e gravei.”

O apelo de Lisboa

Está em Portugal há dois anos. “Já venho a Portugal desde menino, com o meu pai. Depois fiz aqui uma peça, Capitães da Areia, onde tocava violão. Nessa altura eu tinha 20 anos. Em 2010, vim para fazer um concerto com a Carminho em homenagem ao Chico Buarque, no Casino do Estoril. Fiquei encantado, foi óptimo, e a partir de Portugal já fiz outros países da Europa.” Voltou para o Brasil, passado um mês, “muito encantado com a boa reacção de todos os lugares aonde eu tinha ido, a Alemanha principalmente, mas também na França, ao meu trabalho.” Em 2013 teve outro convite. “Pensei: a Europa está me chamando mesmo. Aí, já fiz uma tournée bem maior. E quando voltei, o meu disco Valentia estava a tocar no avião da TAP. Achei que era um sinal. À chegada ao Brasil, disse: quero morar na Europa, quero viver essa experiência. Não sabia ainda que era aqui. O meu pai morou fora, a minha mãe também, toda a gente na minha família tinha morado fora, faltava eu.”

A participação no festival Conexão Lusófona, porém, começara a atraí-lo. “Fiquei apaixonado por Lisboa, mesmo.” No Brasil, disse à mulher (filha de portugueses): “Vamos morar em Lisboa? E ela disse: vamos.” Mas uma coisa terrível se interpôs: a mãe dela, que era dona de um restaurante, foi assassinada no Rio de Janeiro, com um tiro na cabeça. E o peso do drama levou-os à separação. Em 2014, Bernardo rumou a Lisboa para fazer a divulgação do seu disco mais recente, mas já decidido a ficar. “Coisas do destino: conheci uma outra moça, no Rio, eu só falava em vir para Portugal e ela um dia me diz que o pai dela lhe propôs ir para Portugal cuidar dos negócios dele. Vieram juntos. E se vieram como amigos, rapidamente se tornaram um casal. E assim nasceram Beatriz e Maria.

C’alma, o disco onde Maria ganhou estatuto de canção, era para ser o sexto disco de Bernardo. Mas como o quinto, só com canções de Marcos Valle, ainda aguarda edição, saiu este em quinto lugar. Com alma e com calma, duplo sentido que o título sintetiza e que na verdade corresponde àquilo que o músico sente agora. “A calma vem de Lisboa, vem do próprio disco, com andamentos mais lentos. E acredito que a música vem da alma, faço uma música com verdade e muito intuitiva.”