Crítica

Longa vida ao Festival da Póvoa!

Programa dedicado a Bach marcou a despedida do director artístico João Marques. O testemunho está agora nas mãos do jovem pianista Raul Peixoto da Costa.

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A Pulcinella Orchestra de Ophélie Gaillard encerrou a 40.ª edição do festival PAULO MESQUITA/CÂMARA MUNICIPAL DA PÓVOA DE VARZIM

Para além de musicalmente relevantes, os dois últimos concertos do Festival Internacional de Música da Póvoa de Varzim (FIMPV) foram emocionalmente intensos.

Na sexta-feira, o Cine-Teatro Garrett encheu para ouvir L’Heure Espagnole (1911), pequena ópera de Maurice Ravel, baseada em libreto de Franc-Nohain, aqui apresentada numa pouco aparatosa versão de Jean-Frédéric Neuburger (1986).

Com um dispositivo cénico muito simples (escadas e patamar representando a loja do relojoeiro Torquemada, adornada de dois relógios que se mostrariam essenciais ao desenrolar da cena) e uma encenação igualmente eficaz, esta comédia musical, que teve uma única récita, recorreu a um elenco vocal quase integralmente português, mas todo ele ainda jovem e com carreira internacional. A figura central desta boa produção foi Raquel Camarinha, cantora poveira residente em França desde que decidiu seguir estudos no Conservatório Nacional Superior de Música e Dança de Paris. Após os muitos aplausos que recebeu no final do concerto, coube-lhe o bonito gesto de um reconhecido agradecimento ao director artístico do FIMPV, que ao longo dos últimos anos tem sabido criar espaço para os jovens intérpretes, com destaque precisamente para aqueles que ali têm dado os primeiros passos nos seus promissores percursos musicais. Mas a noite seguinte reservaria momentos ainda mais intensos.

O encerramento do FIMPV deu-se com a magnífica música de Bach, pai e filho. Ophélie Gaillard foi solista no Concerto nº 3 para violoncelo e orquestra, Wq. 172, em Lá maior, de Carl Philipp Emanuel Bach, à frente da sua Pulcinella Orchestra. Foi também ela quem acompanhou enérgica e impecavelmente o coro no motete Singet dem Herrn ein neues Lied BWV 225, do patriarca J. S. Bach.

Depois de um Heilig com um belíssimo alto solista (não identificado no programa), coro duplo e orquestra (Wq. 217, de C. P. E. Bach), e de um breve intervalo, chegava a "genial e festiva oratória" com que João Marques encerrou a programação da 40.ª edição do seu FIMPV: Die Auferstehung und Himmelfahrt Jesu Wq. 240 ("A Ressurreição e Ascenção de Jesus"), de C. P. E. Bach. Não admira que o próprio compositor considerasse esta obra como uma das mais importantes que escreveu. Trata-se de uma oratória plena de dramatismo, a que Mihály Zeke deu vida com o seu coro e uma alargada Pulcinella Orchestra, com bons solistas (também não identificados) – um dos quais, apesar de não aparentar a mais favorável condição física, conseguiu aguentar-se firmemente nas suas funções.

Aplaudidos os intérpretes, o vice-presidente da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim, também vereador da Cultura, chamou toda a equipa do FIMPV e o seu futuro director artístico para, em conjunto, homenagearem a figura que fez crescer e consolidar o evento como um dos mais interessantes e importantes festivais portugueses de música ocidental de tradição erudita. Com apenas 25 anos, o pianista Raul Peixoto da Costa recebe de João Marques a difícil tarefa de não decepcionar o cultivado público do FIMPV. Citando João Marques, "longa vida ao festival!".