Facebook remove contas responsáveis por campanha de influência nos EUA

Rede social diz não saber quem são os responsáveis, mas há indícios que mostram ligações à Rússia.

Um anúncio do Facebook, que está a intensificar esforços contra a desinformação
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Um anúncio do Facebook, que está a intensificar esforços contra a desinformação Reuters/HENRY NICHOLLS

O Facebook removeu 32 páginas e contas daquela rede social e do Instagram (de que é dono) que durante meses agiram de forma coordenada para tentar influenciar a opinião de utilizadores nos EUA e que estão associadas a protestos marcados para a próxima semana em Washington.

A revelação foi feita nesta terça-feira pela rede social, depois de a empresa ter nos últimos dias informado o Congresso e as autoridades americanas, que estão há meses a tentar determinar a extensão do uso das redes sociais pela Rússia para tentar manipular as eleições e o debate político nos EUA, com recurso a estratégias que frequentemente implicavam a polarização de opiniões em torno de temas como o racismo, a venda de armas e os direitos dos homossexuais.

As contas e páginas agora removidas foram criadas entre Março de 2017 e Maio deste ano, já depois das eleições presidenciais que deram a vitória a Donald Trump e que motivaram as investigações sobre a interferência russa. Há de novo preocupação com actividades que influenciem as eleições intercalares de Novembro - uma hipótese minimizada por Trump, mas realçada pelas agências de espionagem dos EUA.

O alcance da campanha no Facebook e no Instagram foi relativamente reduzido, para plataforma com quase 1,5 mil milhões de utilizadores diários: cerca de 290 mil utilizadores seguiam pelo menos uma das 32 páginas ou contas removidas. Porém, 28 destas tinham apenas um máximo de dez seguidores, sendo que nenhuma das contas do Instagram tinha qualquer seguidor. Ao todo, fizeram mais de 9500 publicações no Facebook (e apenas uma no Instagram) e gastaram cerca de 11 mil dólares em 150 anúncios nas duas plataformas (os anúncios foram pagos em dólares canadianos e americanos). Entre os exemplos de publicidade divulgada pelo Facebook estavam mensagens anti-Trump, anúncios a eventos feministas e conteúdo relacionados com a defesa dos nativos americanos.

Aquelas páginas também criaram 30 eventos no Facebook. Um deles, com cerca de 3200 interessados, era uma manifestação em Washington, entre 10 e 12 de Agosto, contra o movimento fascista Unite The Right. Os responsáveis da página tinham entrado em contacto com cinco páginas legítimas, e estavam a trabalhar com elas para gerar interesse no evento. 

O Facebook sublinhou não saber quem criou esta campanha. “Ainda estamos nos primeiros passos da investigação e não temos todos os factos – incluindo quem possa estar por trás disto”, explicou um comunicado da empresa.

A empresa notou ainda que estas pessoas foram mais cuidadosas a esconder a identidade do que a Agência de Investigação para a Internet, uma entidade russa que comprou milhares de anúncios nesta rede social entre 2015 e 2017. No entanto, há alguns indícios de que aquela empresa, propriedade de um próximo do Presidente Vladimir Putin, possa estar envolvida: uma conta da agência esteve, durante sete minutos, entre os administradores de uma das páginas agora removidas.

“Dado que estes maus agentes estão a esforçar-se mais para ocultar as suas identidades, temos de descobrir todos os pequenos erros que possam cometer”, disse o Facebook.

A remoção das contas e páginas surgiu poucos dias depois de Mark Zuckerberg ter assustado os investidores ao anunciar que iria intensificar os esforços para corrigir as falhas do Facebook. As medidas aumentarão os custos da empresa e terão impacto nas contas. As acções do Facebook caíram 20% em resposta, apesar de a empresa ter comunicado nesse dia um aumento de 42% nas receitas.

O esforço da rede social para travar campanhas ilegítimas acontece quando os EUA se preparam para as eleições intercalares de Novembro, nas quais serão eleitos congressistas e um terço dos senadores.

Deputados britânicos pedem legislação

Já no Reino Unido, as críticas ao Facebook surgiram agora em tom oficial, num relatório do Parlamento que alerta para os riscos que as redes sociais representam para o funcionamento das democracias e apela a novas leis que permitam escrutinar e responsabilizar este tipo de plataformas.

O documento de 89 páginas – elaborado por um comité parlamentar que inclui deputados dos partidos Conservador e Trabalhista e divulgado no início desta semana, ainda com carácter preliminar – teve eco na imprensa dos dois lados do Atlântico, juntando-se à torrente de críticas que tem caído sobre a empresa desde a eleição de Donald Trump, em 2016.

“Há muitas ameaças potenciais à nossa democracia e aos nossos valores. Uma dessas ameaças surge com o que tem sido chamado ‘notícias falsas’, motivadas por lucro ou outras vantagens, disseminadas através de programas com apoios de estados, ou espalhadas através da distorção deliberada de factos por parte de grupos com uma agenda específica, incluindo o desejo de afectar as eleições políticas”, escreveram os deputados britânicos. “A nossa democracia está em risco e agora é tempo de agir para proteger os valores que partilhamos e a integridade das nossas instituições democráticas.”

O comité disse ter encontrado indícios de que, à semelhança do que aconteceu nas presidenciais americanas, também no Reino Unido houve tentativas russas de influenciar a posição de eleitores, nomeadamente no referendo sobre a saída da União Europeia.

Os deputados consideram que as leis em vigor naquele país não são insuficientes para lidar com as plataformas online, e o documento sugere novos instrumentos que permitam às autoridades ter uma mão mais pesada sobre estas plataformas. “Durante o decorrer deste inquérito, deparámo-nos com assuntos complexos e globais, que não podem ser facilmente resolvidos com instrumentos legislativos fracos, reactivos e antiquados”, escreveram.

Entre as sugestões do relatório estão uma definição clara do que são notícias falsas, a criação de medidas para aumentar a literacia digital (particularmente entre os mais jovens) e a aplicação às plataformas online de algumas das regras a que as televisões e as rádios estão obrigadas. As recomendações, contudo, são genéricas, e só depois do Verão o comité deverá avançar com a sugestão de medidas mais concretas.