Doentes queixam-se de ter de aguardar "meses" para perceber se têm cancro digestivo

Denúncia é do presidente de associação de apoio a doentes com cancro do cólon e recto, que diz estar a receber muitas queixas. Administração de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo garante que rastreio de base populacional vai cobrir 100% da população até ao fim deste ano e Norte já mandou 25 mil convocatórias.

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Rui Gaudêncio

Os rastreios de cancro do cólon e recto que avançaram em vários pontos do país estarão a ter um efeito perverso: há cada vez mais pessoas com resultados positivos no primeiro teste que se faz para determinar se existem problemas – a pesquisa de sangue oculto nas fezes – que ficam depois a aguardar meses para fazerem colonoscopias, os exames mais complexos que permitem perceber se se está ou não perante uma doença oncológica.

A denúncia é feita pelo presidente da Europacolon (Associação de Apoio ao Doente com Cancro Digestivo), Vítor Neves, que, depois de ter recebido várias queixas e reclamações de pacientes, diz ter feito uma ronda por várias administrações regionais de saúde (ARS) e alguns hospitais públicos para concluir que a legislação não estará a ser cumprida.

"Portugal continua a não ter um rastreio nacional de base populacional deste tipo de cancro que mata quase quatro mil pessoas por ano", lamenta. O que continua a haver, frisa, é a detecção de casos pelo "método oportunístico", com pessoas que são encaminhadas pelos médicos para fazerem a pesquisa do sangue oculto nas fezes.

Em Dezembro de 2016 foi anunciado que se ia avançar com projectos-piloto de rastreio de base populacional através da pesquisa do sangue oculto nas fezes. Começou-se pelo Norte e foi-se alargando a experiência a outras regiões do país, mas, apesar da "vontade política" envolvida nestes projectos, “não foram ainda anunciados quaisquer resultados”, queixa-se Vítor Neves.

“Há uma norma que fala em quatro semanas como tempo máximo de espera [pela colonoscopia quando há um resultado positivo no primeiro teste] mas há pessoas que chegam a esperar cinco meses, isso depende da região do país”, acrescenta.

Os motivos alegados para os atrasos são vários. Os médicos especialistas (são precisos gastrenterologistas e anestesiologistas) não estão dispostos a trabalhar fora de horas pelos valores definidos no Serviço Nacional de Saúde, ou é preciso comprar equipamentos para manter as amostras, especifica. "O Ministério da Saúde tem que arranjar forma de pôr as pessoas a trabalhar”, reclama o presidente da Europacolon, lembrando que "as pessoas ficam com o papel nas mãos, angustiadas, e há quem pague 200 euros ou mais para fazer as colonoscopias no privado". 

Vítor Neves estranha ainda mais a situação, porque foi anunciado no final de 2017 que os hospitais passariam a ter, pela primeira vez este ano, uma linha de financiamento específica (378,41 euros por pessoa) para suportar e apoiar o funcionamento de programas de rastreio de cancros do cólon e recto. 

Contestando as declarações de Vítor Neves, a ARS de Lisboa e Vale do Tejo garante ser "totalmente falso que não haja na região um rastreio de base populacional". Lembra que este decorre desde o segundo semestre de 2017 e já chegou a 12 dos 15 agrupamentos de centros de saúde, prevendo-se que a cobertura a 100% seja atingida no final deste ano. 

Foram feitos 3800 testes de pesquisa de sangue oculto nas fezes, mas, quanto ao tempo de espera, a ARS não especifica qual é a média. Adianta apenas que está, em conjunto com os hospitais envolvidos, empenhada "em melhorar a capacidade de resposta em tempo clínico aceitável para a realização de colonoscopias aos utentes com resultados positivos" e que há até uma unidade que tem "um plano de recuperação em curso para fazer frente às dificuldades anteriormente sentidas".

Muito trabalho feito

Também a ARS do Norte assegurou que já há muito trabalho feito. Até à data, foram enviadas 25 mil convocatórias para pesquisa de sangue oculto nas fezes e há quatro hospitais que já agendaram a calendarização para a realização de colonoscopias, prevendo-se que em Setembro mais três comecem a marcar estes exames.

Já a ARS Centro diz que "de uma maneira geral a resposta tem sido muito rápida (chegando a cerca de 15 dias de intervalo entre a Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes Positiva e a chamada para a colonoscopia)".

"Pontualmente e conjunturalmente pode haver uma demora superior mas os serviços hospitalares, uma vez detectada a falha, tudo fazem para a resolver", acrescenta.

A ARS Centro diz ainda que "tem envidado todos os esforços para que em 2018 todos os agrupamentos de centros de saúde (ACES) e unidades locais de saúde da região tenham iniciado este rastreio". "Neste momento estão quatro ACES em produção (Baixo Mondego, Dão-Lafões, Pinhal Litoral e Pinhal Interior Norte), que abrangem cerca de 40 centros de saúde. Para o alargamento do rastreio a toda a região até final do ano de 2018, decorre neste momento formação aos profissionais dos cuidados primários e está a ser feita a necessária articulação destes últimos com os hospitais de referência".