Vaga de ataques em Itália leva oposição a falar de “emergência racista”, mas Governo desvaloriza

No fim-de-semana, um marroquino foi espancado até à morte e na segunda-feira uma atleta italiana de origem nigeriana foi atingida por ovos. Nas últimas semanas, dezenas de pessoas foram afectadas por ataques aparentemente racistas em Itália.

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A atleta Daisy Osakue ficou ferida num olho ao ser atingida por ovos ALESSANDRO DI MARCO/EPA

Daisy Osakue é uma atleta italiana de origem nigeriana de 22 anos. Na segunda-feira, em Turim, de madrugada, voltava sozinha a pé para casa quando um carro a começou a perseguir. Os jovens dentro do veículo atiraram-lhe ovos e um deles atingiu-lhe um olho, provocando-lhe uma lesão na córnea. Este foi apenas um de vários ataques de aparente índole racista que se tem registado em Itália, o que levou a oposição a falar de uma “emergência racista”, responsabilizando a actuação do Governo.

“Já fui vítima de racismo noutras ocasiões, mas até agora tinham sido só ataques verbais”, disse à comunicação social italiana a lançadora do disco, considerada uma das grandes promessas nesta modalidade. Os médicos dizem que Osakue deverá recuperar a tempo de representar Itália nos Campeonatos da Europa de Atletismo em Berlim, que têm início marcado para o próximo mês.

A polícia de Turim questiona, porém, se esta situação teve motivações racistas, já que outros ataques semelhantes têm ocorrido na cidade, e nem sempre os alvos foram afrodescendentes.

De acordo com os media italianos, no último mês e meio dezenas de pessoas foram afectadas por ataques aparentemente racistas em todo o país. Isto levou a uma reacção do Presidente italiano, Sergio Mattarella, que afirmou que Itália não se pode tornar no “Oeste selvagem”.

A oposição do novo Governo italiano, formado pela Liga, de extrema-direita, e pelo partido anti-sistema Movimento 5 Estrelas, aproveitou também para responsabilizar a linha dura do executivo em relação à imigração.

“Os ataques contra pessoas de pele de cores diferentes tornaram-se uma emergência. Isto é agora óbvio, ninguém o pode negar, especialmente se se sentam no Governo”, disse, no Twitter, o antigo primeiro-ministro Matteo Renzi.

Felipe Camargo, responsável do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados no Sul da Europa, também reagiu: “Não podemos tolerar esta escalada de violência indiscriminada, que revela uma alarmante matriz racial”.

No dia anterior ao do episódio que envolveu Osakue, na localidade de Aprilia, próxima de Roma, um marroquino de 43 anos foi também perseguido por um carro até que os dois homens que seguiam no veículo o alcançaram e agrediram até à morte. Ambos disseram às autoridades que pensavam que o marroquino era um ladrão. Porém, a investigação das autoridades desmente esta versão.

Em resposta às críticas da oposição, Matteo Salvini, líder da Liga e ministro do Interior, e o ideólogo da actual política de imigração de Roma, nega este estado de alerta: “Há uma emergência racista em Itália? Não sejam estúpidos”, disse em comunicado citado pela Reuters.

Apesar de garantir que se solidariza com qualquer vítima de racismo, Salvini afirmou que “este alarme racista é um invenção da esquerda, os italianos são boas pessoas, mas a sua paciência acabou”.

Salvini causou ainda polémica quando, no domingo, dia do 135º aniversário do nascimento de Benito Mussolini, escreveu no Twitter a frase “muitos inimigos, muita honra”, citando uma famosa afirmação do ditador italiano durante a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com a Reuters, pelo menos oito imigrantes foram, desde Junho, atingidos por tiros de pressão de ar. Um destes disparos atingiu um bebé cigano em Roma, que está em risco de ficar paralisado para o resto da vida. O autor do disparo nega que tenha tido a intenção de atingir a criança.

A Agência Internacional para as Migrações, liderada agora por António Vitorino, contabiliza 11 ataques racistas em Itália desde meados de Junho. “[Isto representa] uma tendência extremamente preocupante de violência e racismo”, disse a organização.