Obituário

Herman Shine, o homem que cantava nos telhados de Auschwitz foi dos poucos a conseguir fugir

Herman Shine poderia não ter sobrevivido se o seu melhor amigo o tivesse deixado para trás. Uma "dúzia de milagres" fizeram o resto. A amizade entre os dois homens deu um documentário, mas a sua fuga do mais mortal dos campos de concentração nazis parece ficção. Shine morreu em Junho aos 95 anos.
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Herman "Menne" Shine DR

Com tudo o que se sabe hoje, passados mais de 70 anos, sobre a Segunda Guerra Mundial e os horrores dos campos de concentração — mesmo que possa haver ainda muito por revelar — é difícil imaginar alguém a conseguir fugir de Auschwitz, a mais poderosa das máquinas de extermínio nazis. Só cerca de 200 pessoas tiveram sucesso na fuga durante o conflito - e uma delas foi Herman “Menne” Shine, um judeu alemão de ascendência polaca que ali chegou em 1942 e que sobreviveu graças à sua astúcia e coragem.

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Das pelo menos 1,3 milhões de pessoas deportadas para este complexo no Sul da Polónia ocupada pelos alemães (três pólos principais e dezenas de subcampos), 1,1 milhões terão ali morrido. Herman “Menne” Shine foi um dos 200 que tiveram sucesso na fuga durante a guerra, que sobreviveu graças “a uma dúzia de milagres” - e ao seu melhor amigo, disse ao jornal San Francisco Chronicle em 2009. Morreu a 23 de Junho, aos 95 anos, na sua casa em San Mateo, na Califórnia.

Lê-se o obituário que esta terça-feira lhe dedica o diário norte-americano The New York Times ou o que sobre ele escreveu o californiano San Francisco Chronicle e a tendência é para romancear a sua vida – e esta fuga com contornos de filme de aventuras a que não falta, sequer, um grande amor. Para sobreviver, Herman Shine teve de confiar em estranhos, de se esconder num celeiro durante quatro meses sem nunca poder tomar banho e até de se fazer passar por um oficial nazi.

Salvo por ajudar a mulher do comandante

Para ele, que foi forçado a trabalhar na construção dos campos de concentração de Sachsenhausen, na Alemanha, para onde foi levado com o amigo de infância Max Drimmer, em 1939, e de Auschwitz, de onde fugiu em 1944, e que viria a refazer a sua vida nos Estados Unidos, onde se estabeleceu em 1947. No novo país mudou o nome de Mendel Scheingesicht para Herman Shine, mas os tempos “terrivelmente difíceis” da guerra mantiveram-se bem vivos na memória.

Num depoimento que gravou em 2014 para o projecto We Remember Holocaust, destinado a recolher testemunhos de sobreviventes judeus da Segunda Guerra, hoje disponível no YouTube, descreve as circunstâncias em que foi arrastado ainda adolescente da sua casa em Berlim e a tortura e o isolamento dos primeiros meses de Inverno em Sachsenhausen. Fala do dia em que viu pela primeira vez aquela que viria a ser sua mulher durante 74 anos, Marianne Schlesinger, e descreve os contornos da fuga que Max lhe propôs, quando se tornou claro que a morte não estava longe.

“Percebemos, a certa altura, que a única maneira de sairmos dali era através da chaminé”, diz, referindo-se às câmaras de gás e aos fornos de Birkenau (o campo II de Auschwitz, onde os prisioneiros eram mortos).

“Menne” chegou, aliás, a estar numa fila deste campo de extermínio, conta no mesmo depoimento. Só foi salvo porque resolveu atravessar a rua para ajudar uma mulher que acabara de passar de bicicleta e que caíra porque a sua saia ficara presa nos raios de uma das rodas. “Eu não sabia, mas era a mulher do comandante máximo do campo.”

Quando deixou a fila para a ir ajudar, guardas armados seguiram-no dispostos a disparar. A mulher achou que aquela demonstração de força, para além de desnecessária, a punha em risco e mandou chamar o marido, que não gostou de ver um dos melhores trabalhadores do campo na fila dos que em breve seriam gaseados e o mandou de volta para o seu barracão.

É que anos antes, logo na chegada a Sachsenhausen, intuindo que isso o ajudaria a sobreviver, Herman Shine decidira mentir, dizendo aos alemães que trabalhava na construção civil, em particular nas coberturas. Afecto às equipas de obra, acabou por aprender a fazer telhados e em pouco tempo liderava outros prisioneiros como ele, tornando-se mão-de-obra valiosa para os alemães. Não tinha tratamento preferencial, mas ia sobrevivendo.

O prisioneiro cantor

Enviados para Auschwitz em 1942 mais tarde, “Menne” e Max foram separados à chegada. Max teria morrido se não tivesse conseguido entrar às escondidas na fila onde estava o amigo. Acabaram os dois em Monowitz (Auschwitz III), onde “Menne” trabalharia a construir telhados. Faria o mesmo no campo satélite de Gleiwitz, onde reparou num grupo de bonitas raparigas que se ocupava da limpeza e do qual fazia parte a sua Marianne. Usavam a estrela de David, contou ainda em 2014, mas era-lhes permitido entrar e sair do campo porque eram de famílias mistas (só um dos pais era judeu) e, por isso, só meias-judias.

“Vinham duas ou três vezes por semana, sem dias fixos”, recorda Herman Shine no seu testemunho, acrescentando que, sempre que sabia que estariam lá no dia seguinte, voltava para trabalhar no telhado mais próximo, mesmo que já não houvesse nada para fazer. “Trabalhava sempre no mesmo barracão, que já estava pronto há muito tempo, para a poder ver.” E quando ela chegava, estava muitas vezes a cantar. “Menne” e Marianne começaram a trocar bilhetes e, quando ele lhe disse que em breve poderiam ter as câmaras de gás como destino, ela deu-lhe a morada da sua casa, onde podia encontrar ajuda se alguma vez dali saísse.

Józef Wrona, um civil polaco que trabalhava nos campos a contrato, dissera a Max Drimmer, de quem se tornara amigo, que ouvira uns oficiais das SS falar da necessidade de matar todos os judeus que trabalhassem em Monowitz e oferecera-lhe ajuda. “Consigo tirar-te daqui”, disse-lhe. Sem querer deixar o amigo para trás, Max perguntou-lhe se poderia incluir “Menne” no seu plano de fuga.

Um  plano ousado e muita sorte

Durante a breve pausa para o almoço, descreve o diário The New York Times, os dois amigos refugiaram-se num espaço de construção exíguo, dissimulado por materiais de isolamento, que Wrona tinha criado dentro de Monowitz e ali ficaram. Mais tarde, saíram deste esconderijo usando roupas iguais às dos operários externos e dirigiram-se para a vedação de arame farpado do campo, onde o polaco os fez sair no meio dos outros.

Fizeram os quase seis quilómetros que os separavam da casa de Wrona, em cujo celeiro ficariam escondidos durante quatro meses. O amigo levava-lhes comida e fazia chegar as cartas de Max à namorada, Herta Zowe. Foi por causa de uma delas —  Herta foi revistada por soldados na rua — que a polícia secreta alemã chegou a revistar a casa do polaco.

“De onde estávamos ouvíamos as pessoas a falar”, disse Shine ao projecto We Remember Holocaust, falando do dia em que Wrona recebeu a visita intimidante da Gestapo, com os seus cães, procurando os dois homens. “Ele podia ter dito que estávamos ali e não o fez. Com isso arriscou a sua vida e a da sua família.”

Depois deste episódio, os dois homens tiveram de deixar a casa de Wrona e “Menne” lembrou-se da morada de Marianne. Mas o caminho-de-ferro ficava a quase 100 quilómetros e os dois homens não podiam andar tanto, em tempo de guerra, sem documentos. “Max chamou-me louco, mas não tínhamos outra escolha.”

Acabaram por chegar à casa daquela que viria a ser sua mulher. A família escondeu-os até que um milionário alemão não-alinhado com os nazis aceitou dar-lhes abrigo. Ficaram sob sua protecção até que os aliados derrotaram a Alemanha em 1945.

Herman “Menne” Shine e Max Drimmer casaram com as suas namoradas no ano seguinte numa cerimónia conjunta. Em 1947 emigraram para os Estados Unidos, de acordo com a Jewish Telegraphic Agency. A amizade entre os dois homens, que se manteve até à morte de Drimmer, em 2012, deu origem a um documentário de 2001 que viria a ser actualizado em 2015 – Escape from Auschwitz: Portrait of a Friendship.

Max trabalhou como canalizador e padeiro, “Menne” fundou uma empresa de construção que, sem surpresa, se especializou em telhados. Escreve o San Francisco Chronicle que era um homem de negócios de sucesso até se retirar, em 1979. A partir daí, passou a ter mais tempo para a sua Marianne e para o bridge. Não dispensava uma boa partida.